Matheus Rocha
*Matheus Rocha

Desabrigados convivem com a fome e com a sede, afirmam profissionais.

Quando entrou no município de Dário Meira (a 323 km de Salvador), a advogada Laneyde Sampaio encontrou uma cidade destruída. Segundo ela, comércios, imóveis residenciais e edifícios públicos foram arrasados pelas chuvas, que já mataram 24 pessoas na Bahia e deixaram mais de 37 mil desabrigadas.

“Parecia cena de pós-guerra. A cidade foi devastada. Duas mil famílias estão desabrigadas. Não tem um comércio funcionando, não tem funerária, medicamento. Nós estamos tendo que distribuir água nas ruas”, diz Sampaio, que trabalha como voluntária em um grupo formado por vinte advogados. Juntos, eles distribuem quentinhas às vítimas dos temporais.

Casa destruída no município de Dário Meira, na Bahia

O município de Dário Meira foi destruído pelas chuvas que castigam a Bahia nos últimos dias – Ivan Souza

Segundo ela, um dos principais problemas que essas pessoas enfrentam é o desabastecimento de itens básicos. “Na segunda-feira, uma pessoa me pediu um copo d´água e um medicamento, porque estava sentindo dores”, conta a advogada. “A cidade não tem água para beber nem onde comprar. Foi tudo destruído.”

Com pouco mais de 10,3 mil habitantes, Dário Meira é um dos 132 municípios que declararam situação de emergência em razão dos temporais. Segundo o governo, mais de 630 mil pessoas foram afetadas pela tragédia. “É algo que a gente nunca imaginou ver. A gente assiste isso em filme, mas não perto da gente”, diz a advogada.

Para amenizar a vulnerabilidade social das pessoas, ela afirma que a solidariedade é fundamental. “A gente não pode paralisar e esperar só o governo. O momento agora é de todo mundo se unir e de a sociedade civil se movimentar.”

Bahia já tem 132 municípios em estado de emergência devido às enchentes

Uma imagem contendo edifício, homem, tábua, jovem Descrição gerada automaticamente

Homem usa um colchão inflável para se locomover em rua alagada pelo rio Cachoeira na cidade de Itabuna, no sul da Bahia, região que está sen Leonardo Benassatto /REUTERS

Vista de uma cidade na beira do rio Descrição gerada automaticamente

Visão aérea de região alagada pelo rio Cachoeira na cidade de Itabuna, no sul da Bahia, região que está sendo castigada pelas enchentes nest Leonardo Benassatto /REUTERS

Homem ao lado de casa Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

José Eldes carrega a cama de seu irmão na cidade de Itabuna, no sul da Bahia, região que está sendo castigada pelas enchentes neste final de AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Foi isso o que decidiu fazer Alida Tiziane, que ajudou a criar a iniciativa SOS Sul da Bahia, que usa as redes sociais para jogar luz sobre a tragédia e colher donativos.

“Eu tenho 36 anos e nunca vi nada igual. Quando você vê uma coisa dessas e vivencia esse tipo de experiência, a primeira coisa que pensa é em como ajudar”, diz ela, que mora do município de Ipiaú, um dos afetados pelas chuvas.

A advogada conta que o cenário que viu na segunda-feira (27) foi desolador e que muitas pessoas haviam perdido quase tudo. “Foi de cortar o coração. Muitos ribeirinhos não queriam sair de casa, mas ainda tinha o risco de o rio continuar subindo. É difícil ver essa situação e não se emocionar. É algo muito triste”, diz ela.

Cidades do sul da Bahia ficam destruídas por enchentes após temporal

Pessoas andando na rua de terra com casa ao fundo Descrição gerada automaticamente com confiança média

Estrago provocado pela enchente após chuva na cidade de Jucuruçu, interior do estado da Bahia. O temporal que atingiu o sul baiano deixou es Eduardo Anizelli/Folhapress

Uma imagem contendo velho, edifício, pilha, quebrado Descrição gerada automaticamente

Casas destruídas pela enchente após a chuva na cidade de Nova Alegria, interior do estado da Bahia. O temporal que atingiu o sul baiano deix Eduardo Anizelli/Folhapress

Uma imagem contendo pessoa, ao ar livre, homem, pessoas Descrição gerada automaticamente

Moradores recolhem entulho após enchente destruir a cidade de Nova Alegria, interior do estado da Bahia. O temporal que atingiu o sul baiano Eduardo Anizelli/Folhapress

No município de Gongogi, o clima também é de tristeza. Segundo Laíra da Silva, que atua na Secretaria de Assistência Social da cidade, cerca de 128 famílias perderam tudo. Além disso, as estradas que dão acesso aos distritos da região foram destruídas, o que dificulta o resgate e assistência às vítimas.

“Ontem, de um distrito chegou uma senhora com muita fome. Quando a Defesa Civil finalmente conseguiu entrar com helicóptero, ela chegou aqui chorando de fome.”

Outra questão, diz ela, está ligada à saúde mental dos desabrigados. “Fisicamente, as famílias estão bem, mas estão abaladas e preocupadas com o fato de estarem sem nada de uma hora para a outra. Então, estamos fazendo o possível para atender essas pessoas.”

*Jornalista. Artigo na Folha de São Paulo. Caderno Cotidiano, de 30/12/ 2021.
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