parados no tempo
parados no tempo

*Cristóvão Tezza

A educação fundamental segue um capital cultural inacessível a milhões.

Assim que me tornei professor da Universidade Federal de Santa Catarina, em meados dos anos 1980, deflagrou-se uma greve, a primeira que vi de perto e que foi uma das mais longas de todas, contra o governo Figueiredo em seus estertores.

Lembro da emoção quase revolucionária daquele momento iniciático. De manhã, professor calouro, eu ia entusiasmado colar cartazes e fazer ponto nas esquinas, gritando palavras de ordem e pedindo dinheiro para o fundo de greve; à tarde, aproveitava o tempo ocioso mas precioso da greve interminável para escrever o romance “Aventuras Provisórias”, refugiado numa casa da lagoa da Conceição, como se eu ainda fosse um jovem alternativo dos anos 1970.

A ditadura chegava ao fim, e a resistência da universidade pública ganhava uma aura sagrada frente aos “gorilas” no poder. O modelo atual da universidade, paradoxalmente, se consolidou durante a ditadura —ninguém foi mais estatizante do que os generais no governo.

O problema era salário, diante da inflação devoradora. Mas com a correção monetária, que pagava juros diários estratosféricos a quem tivesse conta em banco, ampliava-se mais ainda a nossa clássica separação entre ricos e pobres, à custa do dinheiro do Estado —isto é, de todos.

O funcionalismo federal pairava, soberano, sobre a média nacional, contando também com privilégios (como a aposentadoria especial) que não existiam em nenhum outro país do mundo e cuja manutenção a longo prazo —todos sempre souberam disso— era inviável. No entanto, foi durante décadas defendida com unhas e dentes.

Além disso, havia a luta, enfim vitoriosa, pela democratização das instâncias de poder da universidade, com eleições para reitor e cargos de chefia.

Em algumas instituições, até secretários de departamentos eram eleitos. Assim, popular, democrática e generosa, a universidade se tornou uma espécie de arquipélago da utopia, espalhado pelo país.

Ela parecia, em si, realizar o sonho milenar de uma sociedade, cristã ou marxista, mais justa e igualitária: entre seus muros, de cada um segundo sua capacidade, cada vez menor; e a cada um segundo sua necessidade, cada vez maior.

Nossa universidade cresceu como um espelho do Estado, com quem parece disputar o poder, como uma instituição atavicamente lutando à sombra de uma ditadura que não existe mais.

Da UFSC, fui para a UFPR, onde lecionei durante 20 anos, até me demitir em 2009, quando coloquei as fichas da minha vida na literatura. É claro que o período acadêmico me marcou.

Primeiro, pela percepção óbvia de que o melhor da inteligência e da ciência brasileira ainda está predominantemente na universidade pública, e é crucial proteger os seus centros de excelência, em especial num país em que a maior parte da voraz iniciativa privada na área apenas suga os generosos subsídios de Estado sem dar a mínima qualidade em troca.

Segundo, pela percepção concomitante de sua decadência e asfixiante incapacidade de transformação. As “conquistas da luta”, como repete o clichê, passaram do fundamental contraponto ético à ditadura, à manutenção de uma paralisia intelectual. Afundou-se num gigantismo burocrático; enquanto isso, submetida a um truculento cercado sindical e político, sua inteligência sobrevive acuada, respirando pouco e mal.

Durante a maior regressão econômica do país em sua história, multiplicaram-se universidades precárias, que, pela lei elementar da termodinâmica econômica, consomem os recursos do sistema achatando cada vez mais a qualidade média, sob o bordão populista do “pobre na universidade”.

Na outra ponta, a relevante, todos os anos milhões de jovens entre 15 e 17 anos são despejados para fora da escola sem terem aprendido nada. É exatamente no ensino fundamental e médio públicos que se concentra o gigantesco desastre educacional, há décadas patinando em índices vergonhosos.

Nosso histórico deficit educacional público, típico de um país rural, mudou de perfil nos anos 1970, fazendo coincidir a rápida expansão do sistema durante a ditadura (no processo de urbanização selvagem que se seguiu), com a fuga da então próspera classe média do sistema público para o sistema privado —uma rápida mudança que criou o triste Brasil de hoje, potencialmente mais desigual a cada ano. Gostamos de repetir mantras como “o petróleo é nosso”, enquanto a educação fundamental prossegue, desde sempre, um preciosíssimo capital cultural inacessível a milhões de jovens.

*Escritor. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C8, de 20/05/2018.
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