O fato é que o “Lima” foi um marco importante na navegação internacional nessa ligação europeia com Manaus e Belém, e de grande importância para a empresa de Joaquim Gonçalves de Araújo que se apresentava com excelente conceito e assim se manteria durante muitos anos.

Meu bom amigo e afilhado Roberto Kahane, fotógrafo e cineasta de boa ordem e alta cepa, de chofre, como se dizia antigamente, pediu-me informações sobre o paquete “Lima” que aportou em Manaus há um século para fazer a ligação entre a capital amazonense e a Europa. Interessante ressaltar que em relação a esse feito salvou-se um exemplar de álbum fotográfico comemorativo, produzido por Agesilau Araújo com registro da chegada do navio a essas bandas do mundo.

O álbum, de alta qualidade, lembro bem, foi adquirido à família J. G. Araújo pelo Governo do Estado por meio da Secretaria de Cultura ao tempo em que fui secretário, para compor o acervo do Centro Cultural Povos da Amazônia e, deduzo, lá se encontra porque lá deixei. Requintado, com boa impressão feita em gráfica estrangeira, também serviu para demonstrar o poderio da empresa do velho comendador português e senhor de muitas empresas de importância para a economia amazonense.

A viagem inaugural desse importante paquete saiu de Funchal às 8 horas do dia 27 de julho de 1920, da Europa, portanto, para ligar Manaus, Belém, Funchal, Lisboa, Leixões, Vigo, Havre e Antuérpia, podendo chegar a Hamburgo se houvesse carga específica para esse último porto. Verdade que não estávamos mais vivendo o apogeu da borracha, mas havia fortes expectativas de seu soerguimento, ideia alimentada por muitos exportadores e pelo próprio governo amazonense, afinal, não nos encontrávamos, ainda, experimentando os últimos estertores da seiva da natureza aos quais chegaríamos pouco depois.

Tratava-se de paquete que servia à Empresa dos Transportes Marítimos do Estado, ou simplesmente T.M.E., referida como navegação portuguesa, e era “vapor espaçoso, de convés duplo, com telegrafia sem fios, ótimas acomodações para passageiros de primeira e terceira classes”, como assinalava a propaganda anunciada nos jornais da época, sob a responsabilidade e representação local da firma ). G. Araújo.

Nessa viagem transportava 42 toneladas de carga, dispondo, por ocasião do regresso à Europa, de vagas para 481 passageiros de terceira classe, das quais 240 se destinavam a uso por passageiros saídos de Manaus e as demais, a partir de Belém do Pará. Aliás, foi nessa cidade que o “Lima” teria atracado pela primeira vez na manhã do dia 6 de agosto, o que, pela importância do feito, obrigou o comércio belenense a fechar as portas para recebê-lo com festas.

Em Manaus não foi diferente. Dias depois, a 18 de agosto, ele largou os cabos de retorno a Funchal. Em 3 de novembro saía, novamente, de Portugal com destino à terra da hévea, com chegada prevista para o dia 22 do mesmo mês, mas só aportou a 24, prevendo retorno até Rotterdam, desde que houvesse carga disponível para tanto.

Dessa vez chegaram a Manaus usufruindo desses serviços de transporte internacional, dentre outros passageiros, embarcados em Hamburgo, Jorge Fares Abi Akel e Nalinha Fares Abi Akel; em Lisboa, Adelino Matos; em Belém, o futuro desembargador João Rebello Corrêa, José Rufino, João Facundo do Valle, Jeanne Jaillot e Licurgo Alencar.

Partindo de Manaus seguiam para os mais diversos portos europeus nos porões do “Lima”, dentre outros produtos, borracha fina de sernambi, copaíba, balata, caucho, madeira, castanha, víveres, café, fumo e, certa feita, até um “auto” pertencente a Armando Freitas foi deslocado para Lisboa, ao tempo em que o grande barco esteve sob o comando do capitão de longo curso Aguas Santos, depois transferido ao capitão Pedro de Souza, conforme se verifica dos manifestos publicados na imprensa.

O fato é que o “Lima” foi um marco importante na navegação internacional nessa ligação europeia com Manaus e Belém, e de grande importância para a empresa de Joaquim Gonçalves de Araújo que se apresentava com excelente conceito e assim se manteria durante muitos anos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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