Padecimento moral

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“Jornalista de combate como se dizia naqueles anos, ele andou de seca a meca para se impor na vida pública, seja como redator e diretor de jornal (…)” 

Depois de sair do Maranhão por questões políticas e sofrimentos do próprio pai, tendo que abandonar a terra do nascimento com mala e cuia e sabe Deus como, anos mais tarde pelos mesmos motivos e por estar metido em encrencas em Belém do Pará para onde se transferira, o nobre poeta, orador e jornalista foi obrigado, mais uma vez, depois de pegar uma surra em via pública, a toma outro rumo, mudando-se às pressas para Manaus.

Jornalista de combate como se dizia naqueles anos, ele andou de seca a meca para se impor na vida pública, seja como redator e diretor de jornal, homem de governo e de partido, deputado estadual e deputado federal, como acabou conseguindo fazer na capital amazonense.Homem de letras e de saber, foi desde logo um dos primeiros escolhidos para compor o grupo de fundação da Academia Amazonense de Letras, e já estivera na Mina Literária do Pará, sempre ‘”Com aplausos.

Pelas bandas de São Luiz do Maranhão os embates foram travados nas colunas de jornal e em via pública, inclusive com agressões verbais, morais e físicas, o mesmo sucedendo nas raias do jornal “Folha do Norte”, em Belém, em cuja cidade os atritos político-partidários eram graves e constantes contra todos aqueles que não rezassem pela cartilha dos velhos caciques, como sucedia principalmente nos primeiros anos de 1900.

Em Manaus quando tudo parecia que o talentoso jornalista iria ter boa guarida, ficar em paz nas suas tarefas diárias ainda que pulando de galho em galho pelos jornais impressos da cidade, mas aconchegando-se nas teias palacianas com os governadores Silvério Nery e Pedro Bacellar, mas, principalmente, com Rego Monteiro, quase tudo ia por água abaixo, mesmo ele sendo considerado rei e majestade pela convivência íntima que mantinha com a família “imperial”.

Quando parecia ter consolidado posição confortável depois de tantas lutas, eis que o velho e combativo homem de imprensa viu-se ofendido, a mais não puder, na Câmara Federal e pela grande imprensa do Sul do País. Um abuso absurdo … uma ofensa impossível de admitir, mesmo naqueles anos de 1920.

Nascido afrodescendente e com traços bem característicos, ao longo dos anos ele vinha vencendo todos os atropelos que, surdamente, até poderiam decorrer desse fato, mas não haviam sido escancarados publicamente, até que se deu o escárnio federal, inadmissível sob todos os pontos de vista.

Eleito para a bancada do Amazonas e tendo apresentado suas atas eleitorais com votos suficientes para exercer o mandato, conforme as regras da época, foi submetido à Comissão de Poderes, aquela que tudo podia, fazia a desfazia a serviço dos maiorais da República, procurando ter a eleição reconhecida e ser empossado do mandato. Foi então que a coisa pegou. Não só porque a Comissão não quis reconhecer sua eleição, mas, acima de tudo, porque as razões do impedimento, diretas e indiretas, veladas e depois ditas abertamente, residiam no fato de ser afrodescendente, afinal, até então, nenhum homem negro havia “se intrometido” no parlamento nacional, com direito a voz, voto e a expor e defender suas razões, ideias e propostas, ainda mais representando um Estado decadente após a queda da borracha nas bolsas internacionais.

Notícias claramente racistas, charges e pilhérias lançadas na grande imprensa além do parecer político rejeitando sua posse, fizeram com que, mais uma vez, Alcides Bahia se armasse gladiador. e, de peito aberto e invadindo as entranhas partidárias do Congresso Nacional, virasse a mesa para conseguir ser reconhecido e exercer o mandato de deputado federal como representante do Amazonas, depois de muitas idas e vindas entre grupos e comissões da Câmara Federal, com a solidariedade de alguns poucos que a ele se aliaram.

Pode-se dizer que Bahia viveu um verdadeiro padecimento moral.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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