Estive em Buenos Aires por algumas semanas hà alguns anos, a serviço da minha Congregação de Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo. Era primavera, e os “amarillos” típicos da Argentina cobriam de dourado as ruas. As rosas vicejavam, grandes e coloridas, e seu perfume me encantou.  Alguém me disse: “Esta primavera é muito significativa para nós, que estamos deixando para trás a ditadura dos militares. Custou-nos despertar para a liberdade, mas conseguimos.”

Foram as nossas Irmãs de origem italiana que, vindas da Itália, desfraldaram a bandeira do Sangue de Cristo na terra dos Pampas e, com seu exemplo, atraíram jovens argentinas a segui-las. Hoje elas dirigem um conceituado colégio em Buenos Aires, mas outros grupos trabalham em meio a grande pobreza, em zonas de periferia, pois a Argentina atravessa uma crise econômica terrível e, para ajudar os carentes, elas procuram suscitar o apoio de muita gente para a evangelização e a promoção humana.

A espiritualidade de nossa Congregação nos fala dos “gritos do sangue” que clamam por nós pedindo socorro, como o sangue de Abel jorrando na Sagrada Escritura em Gênesis 4, 10: “E Javé perguntou a Caim:  O que fizeste? O sangue do teu irmão clama da terra por mim.” Nossas Irmãs não podem deixar de escutá-los. Esses não são gritos apenas de “desaparecidos”, filhos das mães da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, mas são gritos do mundo inteiro: são clamores dos que morrem de fome em países africanos; são clamores das mulheres, jovens e crianças vítimas de um trafico internacional; dos aidéticos; das pessoas drogadas; de crianças sem escola;  de indígenas da Amazonia espoliados de seus direitos por causa das hidrelétricas; são gritos que mal se ouvem, como os dos bebês abortados ou dos idosos abandonados ou mortos antes do tempo.

Todos esses pensamentos me ocorreram com a  eleição do novo Pontífice, o Papa Francisco. Telefonei a Buenos Aires, e as Irmãs  estavam exultantes. Disseram que a escolha agradou em cheio, tanto por ser este o primeiro Papa latino-americano, como porque este prima pela simplicidade e afabilidade, e pelo amor aos pobres.

As irmãs não esquecem que o Padre Bergoglio era Reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de São Miguel quando, antevendo e já vivendo os novos tempos, convidou uma de nossas irmãs italianas, que serviam em Buenos Aires, e era doutorada em Teologia em Roma, para que lecionasse essa matéria básica nesse renomado Instituto,  onde somente lecionavam sacerdotes. E não se cansam de lembrar que, sendo Arcebispo de Buenos Aires e já Cardeal, Dom Bergoglio  presidiu a celebração de ação de graças, em maio de 2003, pela  canonização de Santa Maria De Mattias, fundadora de nossa Congregação, e depois, cheio de alegria, tomou a refeição com as nossas irmãs.

Ao admirar o sorriso do Papa, veio-me à mente o sobressalto que ele deve ter tido com sua eleição; depois, na sala que tem o sugestivo nome de “Sala das Lágrimas”, – aquela sala secreta à esquerda do altar-mór da Capela Sistina, jamais aberta aos turistas – o recém-eleito se recolheu por alguns momentos, e chorou. Chorou para aliviar a tensão do conclave e chorou pedindo forças a Deus para carregar o pesado fardo que lhe era posto nos ombros.  Nesse momento, deve ter-lhe vindo à mente a figura de Francisco de Assis – não fosse ele um ítalo-argentino – e veio nitidamente a seus ouvidos a frase que Jesus, cravado em sua cruz na igrejinha de São Damião, disse a esse Santo : “Francisco, reconstrói a minha Igreja!”.  Jesus explicaria aos poucos a  seu amigo o significado do seu apelo pungente: era necessária a reconstrução de uma igreja não de pedra, mas de gente…

Francisco de Assis com seus seguidores e suas seguidoras é um exemplo indelével do que representa seguir Jesus. A sua curta vida se prolongou e se prolonga nos séculos. E agora, em pleno século XXI, surge aos nossos olhos atônitos, a figura do Papa Francisco.

O nosso novo Francisco- jesuíta por vocação e formação – e acostumado a escutar Jesus por viver “em sua companhia”- entendeu bem o que Jesus lhe estava pedindo, ao lhe inspirar o nome inaudito de FRANCISCO. E para fazer o que Jesus lhe pede, ele viverá certamente o seu lema de vida: “Olhou-o com misericórdia e escolheu-o”, baseado em Mateus 19, 20 – fruto de uma experiência de Deus que o conquistou para sempre, desde os dezessete anos de idade,  para entrar no Seminário da Companhia de Jesus.

No dia em que tomou posse, 19 de março deste ano- dia de São José, patrono da Igreja-, diante de Presidentes ou representantes de quase 150 paises- desses dirigentes do mundo conturbado e aflito em que vivemos, Francisco deu a chave do modo como se deve agir: “”Não tenham medo da ternura e da misericórdia! Não tenham medo da ternura!”

Com isto, o Papa Francisco nos convida a amar mais este mundo e a cada pessoa pela qual Jesus não hesitou em derramar todo o Seu Sangue.

Não pude deixar de recordar as palavras do inspirado e sempre atual poeta alemão,  Rainer Maria Rilke (“Cartas a um jovem poeta”- Coleção Pocket Plus, 2009), que reli um dia destes:  “O amor é difícil. Ter amor talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada e ensinada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual, qualquer outro trabalho é apenas uma preparação”.

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Marília Menezes
*Poeta e escritora. Ex-secretária da CRB. Trabalhou na Prelazia de Itacoatiara, em 1962-1963, ao tempo do bispado de dom Francisco Paulo Mc-Hugh (1924-2003), onde dirigiu o Colégio Nossa Senhora do Rosário. Em 1997 voltou a Itacoatiara para secretariar o bispo dom Jorge Marskell (1935-1998), até sua morte no ano seguinte. Sócia correspondente da Academia Amazonense de Letras. Reside em Belém, sua terra natal.

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