Ousadia de Tiradentes era temperada pela falta de juízo, afirma biógrafo
Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Livro do jornalista Lucas Figueiredo reconstitui em detalhes vívidos a trajetória do rebelde mineiro. 

O alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) não falava uma palavra de francês, mas percorria casas de amigos, tavernas e chafarizes de Vila Rica (atual Ouro Preto) com um livrinho nessa língua debaixo do braço, feito um missionário carregando uma Bíblia.

Esse “evangelho” tinha um título interminável, como era comum no fim do século 18: “Compilação das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América Setentrional”.

Com muito custo, valendo-se de um dicionário e da ajuda de amigos poliglotas, o militar conhecido como Tiradentes foi metabolizando o ideário republicano e democrático que guiara a emancipação dos EUA e se pôs a pregá-lo, sem muita preocupação em ser discreto, no que então era a cidade mais opulenta (ainda que ameaçada pela decadência) de Minas e do Brasil.

A relação íntima do alferes com esse livro curioso, hoje preservado no Museu da Inconfidência, é um dos muitos detalhes vívidos de sua trajetória em “O Tiradentes”, nova biografia do rebelde mineiro escrita pelo jornalista Lucas Figueiredo.

A documentação da época permitiu reconstituir detalhes como os móveis que havia na casa de fazenda onde Joaquim (como é chamado pelo autor) cresceu, os entreveiros que teve com os poderosos quando ainda era só um soldado perseguindo salteadores na serra da Mantiqueira e sua participação, ao mesmo tempo corajosa e desatinada, no movimento conhecido como Inconfidência ou Conjuração Mineira.

Do ponto de vista do leitor moderno, esse último ponto chama a atenção: o alferes não tinha o menor pudor de conclamar mineiros e cariocas (já que viajava sempre ao Rio) a se livrar do jugo português, seja na estrada, seja em lugares públicos.

“Tiradentes adotou uma estratégia radical, sem deixar uma porta aberta para recuo. Essa era uma característica dele: a ousadia e o destemor temperados pela falta de juízo. Ele sabia que eram altas as chances de ser punido, mas pagou para ver. Por outro lado, se a conjuração tivesse vingado, seria em boa parte graças a seu trabalho”, contou Figueiredo à Folha.

A transformação do oficial da cavalaria colonial (o chamado regimento dos Dragões) em revolucionário foi uma mistura curiosa do pessoal com o político. Em comum com outros inconfidentes (vários dos quais de status social bem mais elevado), Joaquim tinha a insatisfação com suas oportunidades profissionais e econômicas.

Apesar de ter passado mais de dez anos nos Dragões, recebendo comandos regionais e missões importantes, continuava com a patente e com o salário originais, sem conseguir amealhar patrimônio de nota.

As redes corruptas de compadrio, a inflexibilidade na cobrança de impostos por parte da Coroa e a proibição de uma série de atividades econômicas no Brasil pareciam drenar as oportunidades da população mineira, que já se aproximava de meio milhão de habitantes graças à corrida do ouro na região.

(Tiradentes gostava de bradar aos quatro ventos os resultados de um censo pioneiro de Minas, como argumento em favor da ideia de que a região poderia ficar independente sem grandes problemas.)

Esse ponto —a preocupação com as oportunidades perdidas por causa da dominação colonial— era algo que aproximava os revoltosos mineiros de suas contrapartes americanas.

“Havia uma insatisfação comum de fundo econômico, mais especificamente relacionada à voracidade fiscal de Londres e Lisboa. Mas os revoltosos de ambas as colônias também desejavam se livrar das amarras comerciais impostas pelos respectivos reinos para explorar as potencialidades da terra onde viviam. Não foi à toa que a cúpula da Conjuração Mineira tentou copiar o modelo americano em diversos aspectos, como a opção pela república e a busca de financiadores entre grandes comerciantes da França”, diz Figueiredo.

O livro ao mesmo tempo relativiza e confirma, em parte, a visão de Tiradentes como “Cristo” ou “santo” (evitando ao máximo incriminar os companheiros, acabou sendo o único executado entre os conjurados). Essa disposição para ser bode expiatório pode estar ligada aos dois anos passados em regime de solitária e à doutrinação religiosa a que foi submetido durante o cárcere.

Esquecido durante meio século, o alferes foi reabilitado pelo movimento republicano no século 19 e ganhou natureza política polimórfica, sendo usado como símbolo tanto pela PM de Minas quanto por grupos da esquerda armada durante a ditadura militar.

“É sempre assim: toda vez que nos vemos em uma sinuca de bico, sejamos de direita, de centro ou de esquerda, recorremos a Tiradentes para tentar explicar o Brasil e os brasileiros. De certa forma, sua figura complexa é o reflexo de uma nação difícil de ser explicada”, afirma o biógrafo Figueiredo.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, C3, de 04/08/2018.
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