*Márcio Braz

São poucas as pessoas que guardam para si um sonho. São tantas as outras que o compartilham e nos fazem vivenciar com elas este instante mágico de sublimação e felicidade. O artista plástico Óscar Ramos é um desses que sonhou e ainda sonha com um mundo inquieto, vigilante e em permanente conflito como se nos quisesse mostrar o que há por detrás das máscaras, um mundo que não vimos, mas que está presente em toda sua inteireza.

Embora reconheçamos que a virtude hoje não fora eleita um atributo ou qualidade humana, em “Maya: um japiim na minha janela”, primeiro (ou segundo?) livro (relato) de Ramos, aposta num mundo vibrante e de forte pulsação, cheio de intransigências e cercado de descobertas neste solilóquio que quer ser (e ter) diálogo, afinal, até a poetisa Emily Dickinson quis ser lida pois chegou a enviar seus escritos para um amigo encerrando a lenda de que ela escrevia para si própria.

Mas Ramos sempre quis ser lido, visto e sentido e em “Maya” estamos diante de um relato reflexivo, um homem frente às suas próprias impressões a respeito da vida, da pintura e da arte, seja na Espanha, Itacoatiara, Manaus, Inglaterra ou Rio de Janeiro, cidades habitadas pelo nosso autor.

“Maya” nos revela como um artista genuinamente amazonense rompeu a fronteira do extrativismo intelectual e sagrou-se como um dos maiores artistas visuais do Brasil.

O texto de Óscar Ramos é fluente e verdadeiro. É possível emocionar-se não só através das imagens produzidas pelo jogo de palavras, mas, sobretudo, pela sintaxe vibrante que pulsa equânime ao ritmo da emoção.

Mesmo os constantes erros de digitação aparecem não como sendo exatamente um erro e sim como uma proposta de linguagem onde se é possível identificar os instantes da pausa, da catarse, do cansaço e da adrenalina.

Um texto que revela o profundo amor pelas coisas amadas, parafraseando Leonardo Da Vinci.

Não se pode ficar indiferente a leitura de “Maya”. A leveza do texto é contrastada com certa ironia e a agressividade e de quando em vez, um lado erótico sem ser lascivo. Um homem que presta contas do seu passado e do seu presente e se mostra esperançoso em relação ao futuro. O tom da escrita se assemelha a ‘Tristes Trópicos”, de Claude Lévi-Strauss, livro que Ramos leu e sem dúvida foi sua Musa juntamente com a obra de Max Bill e Marcel Duchamp. Uma espécie de etnografia do eu, de qualidade literária espantosa e vibrante.

Araras, peixes, água e índios não são para Óscar Ramos um produto exótico, pronto para a exportação.

Ao contrário, esta natureza faz parte dele, assim como para Roberto Evangelista, amigo do artista e de igual grandeza poética. A praga do regionalismo que insiste em reverberar na arte amazonense é criticada por Ramos de forma sutil, sem mesmo ele saber. As trocas de experiências com Luciano Figueiredo, Torquato Neto, Júlio Plaza, Mompó e tantos outros mostra como o nível intelectual de Óscar Ramos assumiu na fase de jovem aprendiz uma superior qualidade estilística e se fez presente num sem-número de pinturas e trabalhos gráficos.

Esse amazonense de Itacoatiara, ganhador de vários prêmios corno diretor de arte em cinema e cujas obras vão desde capas de disco de cantores importantes como Caetano Veloso e Maria Bethânia nos mostra em “Maya” que a vida é feita de detalhes e que são poucos os que a conseguem fisgá-la nestes instantes mágicos a que chamamos de arte.

Mas Óscar Ramos o consegue e saímos agora impressionados não só com sua pintura de tez construtivista, mas também com sua escrita, uma obra literária excelente.

*Ator, diretor, membro do Navi – Núcleo de Antropologia Visual da Ufam e do Conselho Municipal de Politica Cultural.
Artigo inserido no Jornal Amazonas em Tempo, caderno Plateia – D5. Edição de 08/09/2013.
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