*Fernanda Torres

“Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.”

Esse é um trecho do capítulo “Os Vermes”, de “Dom Casmurro”, que li pela primeira vez aos 14 anos, para a escola. Descobri ali o surrealismo, a estranheza e o niilismo de Machado. Nunca mais fui a mesma.

A morte absurda de Eduardo Campos me fez lembrar dos vermes do gênio. Campos teria meu voto em outubro. Não mais. Nunca mais.

O funesto acidente me arrancou a promessa de um futuro possível, a tão almejada terceira via, que traria uma solução para o ódio indigesto que alimenta as relações entre o PT e o PSDB.

Campos, ao contrário de Marina, era um administrador experiente. Os críticos apontavam semelhanças entre a sua base partidária, formada por pequenos partidos viciados no troca-troca de interesses, e as alianças com o baixo clero que viabilizaram e minaram o governo petista.

Outros viam no seu rompimento com o PT o oportunismo de alguém que cospe no prato em que comeu. Ainda assim, Campos era uma saída, um caminho, um norte, um nordeste.

Marina é dona de uma oratória contagiante, correta, não conspurcável. Mas, talvez, só seja dona desse discurso porque nunca foi prefeita, ou governadora de nenhum Estado. Marina, sem Campos, se vê isolada num ideal comovente, mas distante da realidade.

Considero a animosidade que se criou entre PT e PSDB algo próximo do horror que levou Caim a matar Abel. O Brasil saiu perdendo, e muito.

Ambos os partidos, nascidos em São Paulo, dos sindicatos e da USP, em cujos quadros se encontram as forças progressistas que lutaram pelo fortalecimento da democracia no Brasil, se transformaram em inimigos figadais, preferindo, cada um à sua maneira, se alinhar ao que há de mais retrógrado na política brasileira a chegar a um bom termo.

O PSDB se revelou um partido dividido em caciques, incapaz de resolver suas vaidades internas, e o PT traiu seus próprios princípios para permanecer no poder.

Campos reunia em si traços de ambas as facções. Era um gestor moderno, capaz de dialogar com o empresariado sem tratá-lo como ladrão e, também, pela própria herança familiar, um político tocado pela desigualdade social.

Não acredito que chegasse à Presidência nessa eleição, mas estou certa de que chegaria ao Planalto num horizonte próximo.

Tudo isso se foi numa arremetida mal sucedida de um voo curto entre o Rio de Janeiro e a Baixada Santista. Difícil crer. Nem Dilma, nem Aécio e nem Marina reúnem tais qualidades. E não falo dessa eleição, falo das próximas, das muitas outras que estão por vir.

Se Dilma vencer, não haverá festa nem no próprio PT. Existe um travo em Dilma que dificulta o seu diálogo com as bases e com a elite. A presidente é fruto do populismo pedetista que eu, como carioca, conheço na pele.

Aécio é um político experiente, fez um governo louvável em Minas, mas é do PSDB, um partido encastelado, autofágico. Aécio não nos livraria da animosidade destrutiva que rói e corrói o atual quadro político.

Caso ganhe, o mineiro enfrentará o PT na oposição. Temo que a vingança pela derrota inviabilize seu governo. Mais uma vez, caberia ao PMDB decidir o que melhor lhe convier.

Marina é uma incógnita. Fora Deus, não tenho ideia de que alianças faria. É uma terceira via arriscada, por demais radical.

Em nome do que os Arraes representaram, ou poderiam representar para o país, a Rede, o PSB, o PT e o PSDB bem que podiam ter a coragem de promover uma aproximação partidária.

A ausência trágica de Campos deveria contribuir para livrar o debate do revanchismo. Isso sim, seria uma mudança importante, uma grande virada política. A prova de que os vermes não nos corroem em vão.

Mas nada disso acontecerá. Os interesses políticos, tenho certeza, tratarão de roer o roído.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno E8 Ilustrada, 22/08/2014.
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