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*Mary Del Priore

Raro era então o politico que desconhecesse história geral e do Brasil ou que não citasse Camões, Cervantes ou Vieira.

Políticos têm mãe e têm passado. As mães são costumeiramente lembradas em época de tensão no plenário. Quanto à história, estudiosos vêm se perguntando quem foram eles em outros tempos e em outras casas legislativas.

Pesquisas revelam que, durante o Império, a Câmara dos Deputados e o Senado foram ocupados por políticos altamente qualificados para o exercício das funções públicas. De início, grandes proprietários de terras, pouco a pouco foram sendo substituídos por padres, médicos e magistrados.

Egressos da Universidade de Coimbra, muitos tiveram papel fundamental no processo de emancipação do Brasil e na construção do jovem Estado, deixando um legado de projetos e leis, cuja influência se estendeu por todo o Império. A maioria era formada em direito.

Atuaram de 1822 até o final da Regência, em 1840, e foram responsáveis por intensos debates sobre a descentralização político-administrativa e a criação das Assembleias Legislativas Provinciais.

Essa foi uma época em que a Câmara dos Deputados foi animada por bacharéis, tanto entre liberais moderados quanto por ultraconservadores. De Honório Hermeto Carneiro Leão a Francisco Acaiaba de Montezuma, inúmeros tinham diploma português.

Outros tantos, desde a criação dos cursos de direito no Brasil, se diplomaram em Olinda e São Paulo. Entre os suplentes, a maioria também era de advogados. A partir de 1841, médicos, padres e comerciantes deram lugar, sobretudo, aos funcionários públicos: secretários provinciais, militares, juízes, jornalistas e desembargadores.

Leitores de Locke, Montesquieu, Paine e Rousseau. Só na Assembleia da Bahia, para ficar num exemplo, mais de 40% eram diplomados. No Segundo Reinado, apesar de conservadores e liberais terem uma agenda comum e arcaica –a escravidão e a monarquia–, conheciam bem a filosofia liberal clássica que usavam de um jeito ou de outro, em favor de seus pleitos.

Quem ignora Joaquim Nabuco, Cotegipe, Rio Branco, Taunay, Ruy Barbosa e outros nomes que brilharam na Assembleia e nos legaram livros, discursos, memórias? Raro então o político que desconhecesse história geral e do Brasil, que não citasse Camões, Cervantes ou Vieira, que não frequentasse gabinetes de leitura ou não fosse membro de uma sociedade literária ou do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Sem contar que as lojas maçônicas, que tanta influência tiveram entre eles, continham bibliotecas fartíssimas com obras de física, química, medicina, ciências naturais e filosofia, como, por exemplo, a criada, em 1852, pelo deputado provincial Joaquim José Teixeira Leite, o barão de Itambé: a Benemérita Loja Capitular Estrela do Oriente, em Vassouras.

No passado, tivemos políticos diplomados no Brasil ou no exterior. Hoje, quase metade dos prefeitos não têm curso superior e um terço dos deputados não cursou faculdade. Não espanta se confundirem o “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry com “O Príncipe” de Maquiavel. Temos um Estado inchado e um Legislativo abarrotado.

Uma consulta pública no site do Senado sobre um projeto de autoria do senador Jorge Viana, do PT, para a redução do número de deputados e senadores (de três para dois por Estado da Federação), está bombando nas redes sociais e já conta com mais de 500 mil assinaturas a favor e apenas umas 1.500 contra.

Como se não bastasse, candidatos a vereador nas últimas eleições foram apelidados por um humorista de “Galera Medonha”: o João do Biscoito, o Serginho da Empada, o Carlinhos da Suruba. A PEC apresentada pelo deputado Irajá Abreu, do PSD, que afirma ter no Legislativo “parlamentares com problemas de leitura”, poderá corrigir o problema. Político sem mãe não existe. Mas sem educação é péssimo para o país.

*Historiadora e escritora paulista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Poder A11, de 23/10/2016.
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