*Djamila Ribeiro

Muitos insistem em manter a supremacia masculina e branca nos espaços de poder.

Escrevendo um novo livro, eu me deparei com sentimentos guardados há muito tempo, assim como anotações que fazia em alguns cadernos.

Quase não conto a ninguém, mas já ganhei alguns concursos de poesia. O primeiro foi na minha cidade, Santos, e tive dez poemas publicados em uma antologia. Ao reler uma, me assustei ao perceber como há muito me incomoda o comportamento dos homens.

Fui uma adolescente solitária, pois me via entre dois extremos: o do preterimento e o da sexualização; com o primeiro, aprendi a lidar até entender que o problema não era meu, já o segundo forjou muito das minhas preocupações políticas. No poema, eu dizia: “como consome e não aprecia, não conhece a rota do prazer meu”.

Em 4 dias, 4 mulheres são mortas por conhecidos em SP

Danielly Teles Baffa, 25, vítima de feminicídio em Araraquara (SP) Reprodução/Facebook

Mariana de Fátima Mafei, 30, vítima de feminicídio em Mogi Mirim (SP) Reprodução/Facebook

Não sei exatamente para quem escrevi, mas é uma realidade que nós, mulheres, sobretudo negras, temos que enfrentar em uma sociedade voltada para o prazer masculino.

Somos consumidas pelos filmes pornográficos, indústria bilionária que transforma nossos corpos em mercadoria e instrumento de prazer, indústria que só cresceu na pandemia, como já escrevi aqui.

Consumidas pela indústria de entretenimento, por revistas, nos prostíbulos e, hoje, pelas redes sociais. Homens são ensinados a consumir mulheres e não a apreciá-las.

O Brasil é um dos campeões em cirurgias plásticas e, com esse fato, não julgo moralmente as mulheres que fazem, mas questiono a imposição de um padrão de beleza para que nossos corpos estejam próprios para consumo.

Há infinidade de cremes e sabonetes vaginais, que, comprovadamente não são saudáveis, regras sobre a depilação perfeita, “mulher tem que ser assim, assado”, condições inventadas por homens inseguros.

Há aqueles que inventam a “mulher raiz”, seja lá o que isso quer dizer, categorizando mulheres como se coloca preço em mercadoria de supermercado.

Número de candidatas negras ao cargo de vereadora dobra em SP

Tamires Sampaio, 26, moradora de Guaianases (zona leste), candidata a vereadora pelo PT Rubens Cavallari/Folhapress

Professora Jaqueline, candidata a vereadora pela Rede Rubens Cavallari/Folhapress

Já disse Beauvoir “ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que um homem que duvida da sua virilidade”. Então, para esse homem, é preciso criar categorias, definir o melhor padrão de consumo do que investigar a si mesmo e suas frustrações.

Homem que realmente aprecia uma mulher não põe regras como um manual de uso.

Se homens realmente apreciassem mulheres não teríamos um número absurdo de mulheres heterossexuais que nunca souberam o que é orgasmo.

Muitas estão à mercê de episódios performáticos de sexo, homens que têm nojo de vagina, de dobrinhas; não seríamos vistas como descartáveis quando envelhecemos, como um eletrodoméstico que não serve mais ou, ainda, não seríamos o país com uma das maiores taxas de feminicídios.

Sempre que escrevemos sobre isso, sempre vem um homem falar “nem todos os homens” ou “mas também, com quais homens vocês estão se relacionando, hein mulheres?”.

Claro que existe um clube quase secreto de homens que verdadeiramente apreciam mulheres, mas, sobre o segundo comentário, sempre há a necessidade de se isentar em vez de assumir que há uma masculinidade forjada na submissão feminina. Apesar de muito jovem, eu estava certa: homens que consomem não conhecem a rota de prazeres das mulheres. E nem as suas.

Foram condicionados a acreditar que consumo é prazer, inclusive aqueles que se pensam revolucionários e são contra a propriedade privada.

Na minha ousadia de 20 anos, termino o poema assim: “e cansado de procurar, ou desiste e navega sozinho em seu próprio mar, ou impaciente, abaixa sua vela e me deixa à deriva”. À época achei divertidíssimo, próprio da ousadia jovem, mas é triste.

E seguem insistindo em moldar como as mulheres devem ser, performar, reagir. A sociedade da performance.

E o problema não é a encenação em si; o problema é que se trata de um péssimo ato. E a gente passa uma vida sendo consumidas para depois sermos deglutidas e, muitas vezes, se ressentindo com aquelas que se ousaram livres.

Pessoas gostosas são aquelas com as quais é gostoso de se estar, numa lógica de consumo, são reduzidas ao corpo, à estética. Quando aprecio alguém, claro que aprecio sexualmente, mas também a conversa, a companhia, o intelecto, o bom caráter. Muitos homens nem sequer leram livros escritos por mulheres, não veem mulheres como intelectualmente admiráveis, insistem em manter a supremacia masculina e branca nos espaços de poder.

Se realmente apreciassem mulheres, estariam dispostos à mudança; não nos fixariam no lugar do consumo.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 08/01/2021.
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