Desde os anos 70 que o TESC organiza viagens ao interior do estado para fazer apresentações de seus espetáculos. Esta experiência única reforçou as posições do grupo e evitou as puerilidades das tentações do populismo regionalista. Aquelas populações, ontem como hoje, jamais tinham visto uma peça de teatro, embora. Mas recebem o grupo com cortesia e curiosidade, mas sempre nos colocando no lugar de visitantes da capital. E mais, às vezes nos recebiam como emissários da caridade governamental, como mais um tolo desdobramento dos projetos de levar a arte à plebe ignara. No início do programa, durante uma discussão interna, alguém lembrou que aquela seria uma rara oportunidade para conhecermos a “realidade amazonense”. Podem apostar que conhecemos muitas coisas, porque não é fácil viajar pelo interior da Amazônia, As comunicações entre os municípios amazonenses são tão precárias, as condições tão inóspitas, que muitos amazonenses nascem e morrem sem conhecer nada além de Manaus, a capital, que não é exatamente uma cidade amazônica. Conhecer a “realidade amazônica”, porém, não foi exatamente uma expressão exata. a grupo vem constatando uma realidade que parece não mudar.

O povo do interior continua abandonado, este sim, atolado pelo isolamento e pela rotina da exploração econômica e da roubalheira dos políticos. Viajar para o interior é\tema sempre renovada prova à organização e espírito de iniciativa do grupo. E a nossa experiência maior seria em nossa própria resistência física, de escapar das doenças, dos maus tratos, do sistema de transporte precário e perigoso. Era resistir a cada semana à imundície e à promiscuidade do transporte fluvial, ao calor e às tempestades tropicais, à alimentação péssima.

Quase sempre alguém acaba doente. Felizmente, nenhuma doença tropical grave, nenhuma malária ou leishmaniose. Mas o mais sério problema enfrentado pelo grupo é o do transporte intermunicipal feito por um sistema indigente e perigoso.

Viajar para o interior é uma verdadeira calamidade. a estado dos barcos que servem o interior é um exemplo da alienação e da passividade dos interioranos. Por muito menos o povo já queimou e depredou os trens da Rede Ferroviária Federal no sul do Brasil. Como no tempo da borracha, ainda se viaja feito retirante, amontoado em barcos lotados de gente, mercadoria e animais. as passageiros são aceitos acima da lotação mínima permitida. E a fiscalização é quase nula e negligente. Não queremos luxo de iates, o que não seria nada mal. a que desejamos é apenas um mínimo de condições para uma viagem com dignidade. Mas na Amazônia o povo viaja como carga de reduzido valor, num emaranhado de redes que pode parecer colorido e folclórico para quem não tem de se contorcer durante viagens intermináveis; sob um barulho incessante das máquinas, tonéis de óleo diesel e a fumaceira. as visitantes que atravessam o horrendo terminal da Manaus Moderna, e observam os movimentos dos barquinhos pintados de cores vivas, não imaginam que são aquelas minúsculas embarcações que cobrem as rotas do interior e constituem o único meio de transporte para carga e passageiros, de preço acessível, ao povo amazonense. E não somente de preço acessível, como às vezes os únicos e exclusivos para muitas regiões do estado.

Estes mesmos visitantes podem ficar iludidos e jamais saberem o que é viajar numa espelunca flutuante daquelas. Em certos barcos o único banheiro serve para a multidão de passageiros e são tão minúsculos que, em poucas horas de viagem, se transformava numa escorregadia câmara de gás. A maioria desses barcos, que na região chamamos de “motor de linha”, ou “recreio” (palavra irônica e muito perversa), navega num limbo de autoridade, pois todos se eximem: governo federal, estadual, marinha, todos lavam as mãos.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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