Um dos momentos mais curiosos da história de nossa região foi o encontro da expedição de Francisco Orellana com as mulheres guerreiras na foz do rio Nhamundá.

Os espanhóis eram bem recebidos na maioria das aldeias que encontravam, e no dia 3 de junho de 1542 eles alcançaram a boca do rio Negro. Carvajal, o jesuíta relator, descreve o fenômeno do encontro das águas, com as águas escuras do Negro correndo por entre o amarelo do grande rio, até a absorção total, sem deixar traço. O nome de rio Negro foi dado pelo próprio Orellana, sendo o único dos nomes que permanece até hoje. Passado alguns dias, conforme já tinham sido avisados pelo chefe Aparia, eles entraram no território da rainha Amurians, ou a “Grande Chefe”. Era urna área bastante habitada, com enorme população, mas bastante hostil. Na primeira tentativa dos espanhóis de desembarcarem para conseguir comida, mereceram um ataque tão feroz que tiveram de disputar cada centímetro de chão até conseguir voltar aos barcos, onde uma esquadra de canoas já os cercava. Entre os feridos estava frei Gaspar de Carvajal, que recebeu urna flechada na coxa e, mais tarde, em outra escaramuça, uma flechada num dos olhos. O que mais tinha espantado os espanhóis era a presença de mulheres entre os guerreiros. Carvajal as descreve como mulheres de alta estatura, pele branca, cabelos longos amarrados em tranças, robustas e nuas, vestidas apenas com uma tanga. Um índio que caíra prisioneiro no primeiro combate serviu de informante a respeito daquelas mulheres.

Interrogado por Orellana, ele contou que as mulheres viviam no interior da selva e todo aquele território lhes pertencia. Suas aldeias eram feitas de pedra e somente mulheres podiam viver nelas. Quando desejavam homens, elas atacavam os reinos vizinhos e capturavam os guerreiros. Se a criança nascida fosse mulher, era criada e ensinada nas artes da guerra que elas tão bem conheciam.

Se fosse homem, a criança, quando não era morta, era entregue ao pai. A história narrada pelo índio é a mesma que seria contada para sir Walter Raleigh e repetida 200 anos depois para o cientista Charle Marie de La Condamine, bem como para Spruce, 300 anos mais tarde. Mulheres guerreiras comandadas por uma matriarca é um mito comum aos povos do rio Negro, médio Amazonas e Orenoco. Daí talvez a presença constante da história ao longo dos séculos, com uma força capaz de convencer La Condamine, Spruce e o historiado Southey, sem falar da ambiguidade de Humbold a respeito do assunto.

Quando atingiram a boca do Tapajós, os ataques cessaram. Os espanhóis estavam exaustos e assustados com um tipo de arma que os súditos das mulheres guerreiras usavam, e lhes era desconhecido. Tratava-se da flecha embebida em curare, e o fato de os índios terem usado tal arma contra os espanhóis mostra muito bem o quanto estavam desesperados, pois normalmente só utilizam flechas envenenadas para a caça, não para a guerra. Ao atingir a boca do rio Tapajós, os espanhóis tiveram sua última batalha com os índios. Quase acabou em desastre, porque o bergantim menor se chocou contra um tronco, começou a afundar e teve de ser levado a uma praia para ser consertado. Mal chegaram à terra, foram atacados pelos índios, e Orellana, mais uma vez, mostrou seu talento de comandante, dividindo seus homens em duas tropas, metade para consertar o barco e a outra para resistir ao ataque. Quando conseguiram navegar, buscaram um lugar deserto, onde tivessem condições de realmente consertar as embarcações e prepará-las para a navegação no mar. Durante dezoito dias eles trabalharam, confeccionando novos mastros, costurando os velames e adicionando um convés superior e bombas rudimentares. Finalmente, no dia 29 de agosto de 1542, eles deixaram o grande rio e, quase sem comida, sem bússola, sem piloto ou mapas, avançaram para o norte.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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