claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Ambientes urbanos têm um relevante impacto sobre o nosso bem-estar.

Seguramente, a primeira etapa no processo de construção de cidadesonde as pessoas possam ser mais felizes é o entendimento do significado de felicidade. Pesquisas no campo da psicologia positiva definem uma pessoa feliz como alguém que experimenta emoções positivas frequentes, como alegria, interesse e orgulho, e emoções negativas infrequentes (embora não ausentes), como tristeza, ansiedade e raiva.

Diz-se também que a felicidade se relaciona com satisfação e apreciação da vida, com momentos de prazer. Mas, no geral, tem a ver com a experiência positiva das emoções.

Contudo, embora a relação da felicidade com a ambiência urbana não seja um assunto compreendido de forma plena, pesquisas mostram que os ambientes urbanos têm um relevante impacto sobre o nosso bem-estar e a nossa saúde mental, afetam nosso comportamento e humor, as interações, vidas cotidianas e, até mesmo, alteram o funcionamento do nosso cérebro.

Com o intuito de melhorar o projeto das cidades, recente estudo da pesquisadora Sophie Pringle, da Universidade de Tecnologia de Queensland na Austrália, descobriu que as pessoas associam sua felicidade a elementos naturais e construídos no ambiente onde vivem.

De forma inovadora, na primeira parte de seus estudos, a pesquisadora australiana utilizou-se das redes sociais para efetuar as investigações. Procurou no Instagram imagens de pessoas nas cidades, associadas à felicidade. Para isso, ela usou “hashtags” como #cidadefeliz, #felicidadenacidade e #felicidadeurbana, a fim de obter imagens de todos os cantos do planeta, sem limitação geográfica.

A partir das fotos selecionadas, foi possível verificar quais os elementos naturais ou construídos estavam presentes nas imagens relacionadas com a felicidade das pessoas no ambiente urbano. Entre os principais, foram encontrados os seguintes: espaço aberto, elementos naturais com vegetação, edifícios com escala humana horizontal, água e edifícios históricos.

As mesmas características surgiram várias vezes, independentemente da localização demográfica e geográfica. Isto apoia a ideia de que podem existir características urbanas universais que aumentem a felicidade.

Esses cenários foram utilizados numa pesquisa realizada com moradores de Brisbane, e os resultados mostraram-se aderentes aos da pesquisa feita pelo Instagram.

O mais comum para a felicidade foi o espaço aberto (86% dos entrevistados) e a iluminação natural (81%). Espaços naturais com vegetação, como parques, jardins e áreas com árvores, bem como áreas com água, tiveram um impacto positivo significativo na felicidade dos participantes. Proximidade de instalações e facilidade de locomoção também foram fatores significativos. Edifícios de caráter histórico ou patrimônio classificaram-se muito bem (72%), assim como cenários visuais da cidade (68%) e cores (59%).

Além dos aspectos físicos relacionadas às áreas urbanas, segundo o estudioso da relação entre o projeto de cidades e comportamento socioeconômico da população, Charles Montgomery, não há ingrediente mais crucial para a felicidade humana do que fortes conexões sociais.

Comunidades conectadas são mais felizes, mais resilientes em tempos difíceis e melhor equipadas para lidar com desafios econômicos. Portanto, se nos preocupamos com a felicidade, devemos construir cidades que ajudem a facilitar conexões sociais positivas.

A matriz constituída por arquitetura, desenho urbano, espaços públicos e sistemas de transporte pode alterar a maneira que pensamos, sentimos e nos relacionamos com outras pessoas, e isso tem influência direta em nosso bem-estar. Nesse sentido, projetar as cidades com ambientes que tragam às pessoas a experiência positiva das emoções é o caminho para construir a felicidade.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 03/06/2019.
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