Entre dois amigos até o silêncio é cheio de assuntos.

Há vezes em que o mais barulhento e feliz dos amigos, fica silencioso. E nem por isso deixa de ser um bom amigo. Os assuntos boiam à tona do silêncio.

Seria amigo aquele que não cala e que toda hora te professa votos de amizade absoluta? Seria amigo aquele que te abraça com os incontidos ruídos das palmadas nas costas, nesse abraço? O amigo precisa dizer que é amigo? Não sei, mas com certeza o silêncio muitas vezes é o melhor momento para confirmar a presença de um amigo.

Não somos perfeitos, quem dera que o fossemos, mas, ao julgar fatos de tal natureza na personalidade de uma pessoa, pode-se identificar a presença de um amigo. Daquele que nos perdoa em nossos desacertos, por atos menos elegantes e generosos, por tudo aquilo que é uma realidade palpável na sociedade humana, repleta de carências afetivas e déficits de ternura.

Um médico me revelou um dia uma verdade que confirmei ao longo de minhas observações, como lição permanente. Faço questão de informar que foi um médico o autor de tal pensamento, porque se há um profissional que se faz mais profissional, na medida em que convive com os males e as fragilidades humanas, esse profissional é o médico. Disse-me ele então:

– Se, numa roda, falares bem de uma pessoa, tal conversa não consegue durar nem cinco minutos, mas, ao contrário, se o assunto for falar mal, o dia todo será pouco, tantos são os defeitos e as faltas identificadas em nossos semelhantes… Amigo, assim, é aquele que, em presença de tal caso, procura silenciar até reorientar os rumos da conversa.

Outro me dizia, agora um sacerdote católico, que amigos são aqueles que devoram juntos um saco de sal, não dos pequenos de um quilo, mas dos grandes de sessenta…

Há amigos episódicos que se fazem amigos entre os colegas de uma sala de aula, nos relacionamentos de trabalho, nas tarefas fixadas pelas atividades na idade adulta no magistério, na política, nas associações e sindicatos de classe.

Há outros cuja amizade supera a todas às sujeições de tempo.

É o caso de Thiago e Armando, Armando e Thiago. O tempo não conseguiu fragilizar-lhes a velha amizade, amizade que vem de longe, desde meninos quando pulavam n’água nos igarapés de Manaus, dilatando os limites indeléveis do calendário.

Tanto que hoje estão aqui entre nós, ouvindo-nos atentos, protegidos pelas armaduras da sabedoria e, também, para celebrar uma amizade de noventa anos.

Filhos das águas do baixo-Amazonas, Armando de Parintins e Thiago de Barreirinha, a proximidade dessas duas cidades, talvez tenha gerado o sortilégio que consolidou a amizade, entre estas duas criaturas com quem temos o privilégio de conviver.

Some-se, ainda, a essa linha de aproximação, o fato de constituírem, Armando e Thiago, Thiago e Armando, verdadeiros mestres da amizade e artífices da aproximação entre as pessoas, dos mais variados perfis.

Um dia Thiago criou asas e voou. Com a sua bela poesia virou mundo e foi fazendo amigos. Armando criou asas, mas ficou, e, também, foi montando o seu exército de amigos, em parceria com os irmãos, benção de uma família numerosa.

A Academia celebra-lhes os noventa anos e, designado para falar nesse momento, não poderia deixar de destacar este que é o traço mais forte da personalidade desses dois seres humanos: O dom da amizade. (21/10/2016)

NOTA: Pronunciamento na Academia Amazonense de Letras, em 21/10/2016, regozijando os 90 anos dos confrades Thiago de Melo e Armando de Menezes.

Compartilhar
Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui