claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Conexão entre academia e planejadores das cidades deve ser intensificada nesta área.

Mesmo sem entrar no mérito de sua origem, o fato é que as mudanças climáticas estão aí. A repercussão dessas mudanças deve ser particularmente mais pronunciada nas cidades, onde existe maior concentração de pessoas. Por essa razão, a percepção dos efeitos da interação dos nossos complexos ambientes urbanos com as alterações climáticas tem grande importância.

O monitoramento da pegada ecológica tem mostrado que muitas cidades vivem além de sua capacidade ambiental. Estudos estão investigando, por exemplo, como a infraestrutura de mobilidade pode ser redesenhada e como ter certeza que eventuais mudanças implementadas nos levarão na direção mais adequada do ponto de vista ambiental. Nesse contexto, a correta compreensão da relação das atividades urbanas com o meio ambiente tem extrema relevância na estruturação de projetos que possibilitem às cidades não só mitigar os efeitos de mudanças climáticas, mas adaptar seus habitantes a esse fenômeno.

Em todo o mundo, pesquisadores têm apontado as consequências das mudanças climáticas para a biodiversidade urbana. As previsões de mudanças na temperatura, os eventos pluviométricos extremos e as crescentes concentrações de CO2 na atmosfera podem influenciar a dinâmica da população por meio de uma reorganização espacial. 

As perdas das mudanças climáticas

Destruição causada furação Irma na Flórida, em setembro de 2017 Coalition of Immokalee Workers

Wilson Perez trabalha com tomates em Immokalee, na Flórida Andreas Vingaard/Orb Media

A vulnerabilidade das cidades, no que diz respeito a desastres associados a mudanças climáticas, está vinculada a uma série de fatores. Entre eles, características culturais, demográficas e econômicas dos habitantes urbanos, as peculiaridades do ambiente construído, os níveis de degradação ambiental e a postura dos governantes municipais.

As condições ambientais resultantes da urbanização não adequadamente planejada, incluindo a modificação extrema das condições naturais de escoamento de água, poluição e efeitos de ilhas de calor urbano agravam os impactos de desastres climáticos. Dessa forma, a capacidade das cidades em garantir um futuro resiliente engloba a superação de várias barreiras, que incluem a não incorporação da resiliência urbana aos modelos de planejamento, a compreensão limitada da vulnerabilidade e os riscos associados, e a falta de coordenação entre os diversos atores municipais que deveriam estar envolvidos nos processos ecossistêmicos.

Outra questão importante é a integração de atividades ambientais numa visão metropolitana, o que requer uma nova abordagem orientada a sistemas para avaliação e mitigação de riscos de forma mais abrangente, no âmbito do comportamento dos sistemas metropolitanos e sua interação municipal.

Impossível não reconhecer a relação existente entre vulnerabilidade e desigualdade social. Mecanismos de exclusão resultam em padrões diferenciados de localização e acesso a recursos que definem a resiliência de populações urbanas. Contudo, não é apenas a localização em áreas propensas a riscos ou características individuais, como idade, sexo e condições sanitárias, que podem sensibilizar as populações. Outros aspectos podem ser igualmente relevantes para melhorar a resiliência da população, como educação, renda, qualidade da moradia, infraestrutura e serviços. Um índice de desastres associados à vulnerabilidade social desenvolvido pela Universidade de Buenos Aires permite avaliar a importância desses diversos aspectos.

A conexão entre a academia e os planejadores urbanos, principalmente na área de mudanças climáticas, deve ser intensificada. Novas oportunidades para a cogeração de conhecimento devem ser incentivadas, pois seguramente resultarão no desenvolvimento de modelos mais eficientes para a adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nas áreas urbanas.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 16/03/2020.
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