No pretérito dia 1º de agosto do corrente ano, o professor Francisco de Abreu Cavalcante comemorou em sua residencia, em Manaus, 80 anos de idade, em cerimonia simples, porem cheia de emotividade. Cercado de familiares e amigos, o eminente membro do Coral João Gomes Júnior, relembrou sua trajetória de vida encantando a todos. Abreu é filho de Itacoatiara nascido no bairro do Jauari, porém criado na Colônia. À oportunidade, pronunciou um discurso relatando os momentos mais significativos de sua existencia. Vale a pena conhecer o texto, que transcrevemos abaixo:

Em primeiro lugar, quero agradecer a presença de todos que aqui estão para juntos comemorarmos esta data que Deus nos permitiu como prêmio. Lembro que há 10 anos disse que todos estavam convidados para     este dia 1º de agosto de 2013 e vou dizer novamente: todos se preparem para o meu próximo aniversário em 1º de agosto de 2023. Agora repitam comigo: – Que Deus assim permita!
Eu nasci em 1º de agosto de 1933, às 10 horas da manhã, pelas mãos divinas de Dona Conceição, parteira prática de grande habilidade, em Itacoatiara. Tanto era a abnegação desta parteira que as famílias residentes no Bairro do Jauari vinham buscá-la no Bairro da Colônia, onde morava, cerca de 20 a 30 minuto a pé, ou a cavalo ou ainda de canoa se morasse próximo à margem do rio. Na época, Itacoatiara tinha um pouco mais 5 mil habitantes.
Não havia pré-natal, nenhum exame médico, e o sexo da criança só se sabia depois de seu nascimento, mas as parteiras com suas mãos experientes, previam com raríssimos enganos, pelo tamanho e tipos da barriga de suas parturientes, se seria homem ou mulher.
Naquele tempo, lá no interior, as pessoas acreditavam que criança que nascesse antes do dia 24 de agosto não vingava… Era que todo dia 24, de São Bartolomeu, acontecia um temporal, com chuvas e trovoadas, e as mães que estavam de resguardo passavam mal e os filhos quase sempre morriam. Acreditavam também que criança que passasse do fatídico dia de São Bartolomeu teria muitos anos de vida. Graças a Deus foi o meu caso.
Minha mãe dizia que até 1 ano de idade eu levei a vela acesa na mão por mais de 3 vezes. Apaguei todas elas para investir em uma longa caminhada, pois venci todas aquelas doenças que atacavam muito as crianças cujo índice de mortalidade era muito elevado. Tive de tudo: sarampo, catapora, gripe, coqueluche, verminoses e outras. Além destas doenças costumeira tratadas à base de chás e óleo de mamona, minha mãe tinha que se preocupar com os ferimentos de uma criança traquina que era.
Fui um menino que começou a trabalhar muito cedo por força da necessidade. Para que eu tivesse o meu próprio dinheiro, comecei a fazer lenha e vendê-la para a padaria do senhor Gileno, no bairro da Colônia. Cito aqui o nome do Gileno contando com a presença do Acadêmico Historiador, Dr. Francisco Gomes, que passa sua vida diante do computador, pesquisando e historiando tudo sobre Itacoatiara e hoje já está no 14º livro.
Vida de lenhador é de muito labor, já dizia o poeta… Eu ia de canoa até o meio do rio pegar as toras de madeira que vinham flutuando e as rebocava para a beira, até ao porto perto de casa e lá mesmo, com machado, fazia as toras na medida pré-determinada pela padaria, partindo-as em achas. Depois carregava tudo barranco acima, de onde, com carro de mão, levava até à padaria. Fiz isso por anos pelo preço de alguns 10 mil reis.
Como sempre gostei de me arrumar e me apresentar bem, certo dia comprei alguns metros de pano e mandei fazer um terno para passear na praça da matriz nas noites de arraial. Quase não tirei mais o terno do corpo! Depois de sucessivas lavagens, ele desbotou por completo e o recurso foi mergulhá-lo na anilina da cor escolhida. De listrado passou a ser de uma só cor.
Não fui muito feliz na aquisição das primeiras letras, dada a falta de continuidade e persistência. Já na juventude, quando me dei conta que precisava estudar, busquei agir com mais disciplina e perseverança, o que não foi melhor porque, além de pouca agilidade de leitura, começou um pequeno problema de visão. O médico me falou que seriam “escotomas”, uns pontos escuros na retina que prejudicam a clareza, confundindo especialmente as vogais, o que me obriga a estar sempre piscando para as letras se tornarem mais claras.
Ainda criança, 5 ou 6 anos de idade, meus pais colocaram-me na casa do Sr. Antônio Araújo Costa para brincar e servir de babá para seu filho. Ali, passei quase 2 anos. Hoje, Antônio Araújo Costa Filho vive em Fortaleza com sua irmã Rosário e são meus amigos. Mesmo sofrendo de doença nervosa gosta de ler. * Sempre que vou à Fortaleza os visito com muito prazer, bem como de quando em vez falamos por telefone. Com relação a amigos, costumo dizer que os meus são “forever” e que eu gosto muito de fazê-los. Aos 7 anos de idade, meu pai colocou-me numa oficina de marcenaria e por isso sou muito grato a ele. Lá eu tive de varrer, arrumar, lavar o banheiro, carregar madeira, ajudar a montar cadeiras e guarda-roupas, e assim aprender a arte da marcenaria.
Também já fui guia de cego! Certa vez, chegou do interior, em nossa casa, um senhor chamado Bernardo Baima, sem visão. Eu me admirava como ele comia peixe cozido ou assado só a colher e tateando com os dedos e não engolia nenhuma espinha. Eu o guiava para esmolar, mas ele não esmolava na rua, não. Queria que eu o levasse às Repartições Públicas como a Prefeitura, a Coletoria de Renda, ao comércio.
Quando o Governador Álvaro Botelho Maia ia à Itacoatiara, eu levava o senhor Bernardo Baima, aonde quer que ele estivesse para discursar para ele. Quando lá chegávamos o Dr. Álvaro Maia dizia: “- deixem passar o loirinho com o meu amigo, eu preciso ouvi-lo”. Imaginem que Álvaro Maia era culto e Governador e mesmo assim gostava de ouvir a um ceguinho que falava sobre o Evangelho de Jesus.
Minha primeira profissão mesmo foi a de carpinteiro. Desenvolvia uma espécie de carpintaria naval, fazendo canoas, batelões, barcos e suas obras mortas que são as partes do convés e os camarotes. Augusto Hipólito, comerciante para quem fiz o primeiro batelão com cobertura, convidou-me para trabalhar de regatão no interior.
Já em 1952, em Manaus, trabalhei na oficina do Sr. Ferreira Reis que ficava na Praça Chile, 80, em frente ao cemitério São João Batista. Ali, tive a oportunidade de aprender, com uns peruanos, a fazer móveis Luiz 15 e outros tipos góticos.
Em 1960, exatamente no dia da inauguração de Brasília, viajei para São Paulo, onde, graças a Deus, contei com a ajuda de Admilton Salazar e sua mãe, a saudosa Dona Areolina, que para mim foi uma segunda mãe. Eu e Admilton sempre nos consideramos irmãos, tanto é que meus filhos tratam ele e sua esposa, Jacira, como tios. Quero dizer de público que Admilton Salazar, sua esposa e demais familiares são amigos que todas as pessoas gostariam de ter. Obrigado a vocês, meus compadres.
Em São Paulo trabalhei em marcenaria por uns 2 anos; depois fui vendedor ambulante por mais 2 e durante quase 5 anos fui funcionário da Antárctica Paulista, como assistente visitador, o sistema ainda era de pré-venda com faturamento à mão e entrega no dia segunte. Dessa estadia na capital paulista aparentemente tudo correu muito bem. Não sei até hoje se progredi mais do que se aqui tivesse ficado. Certo é que lá fiz grandes amigos, entre eles o senhor Odilon Andrade, que se aposentou como um dos diretores da Antárctica no Amazonas. Ano passado esteve nos visitando aqui em casa e foi uma grande alegria recebê-lo.
Guardo, contudo, um arrependimento em relação aos meus pais. E como creio que possivelmente estejam aqui em Espírito, gostaria de pedir-lhes perdão por tê-los deixado durante 8 anos, no momento em que mais precisaram de mim como arrimo de família; por eu não estar perto deles para ajudar quando meu irmão, trabalhando na fronteira como militar, apanhou malária e, quem sabe tomando medicação imprópria, veio a falecer de cirrose hepática. E aproveitando a presença de minha irmã, Rosa Maria, que aqui está com sua família para que eles ouçam, com seus ouvidos materiais, o meu pedido de perdão aos nossos pais por eu ter estado distante de nossa família por tanto tempo.
Meus amigos, um homem sem família é como um náufrago… Por isso, voltando para Manaus, tratei de procurar uma esposa e ter os nossos filhos. E Deus colocou a Clarice, meu bem, na minha vida para juntos trilharmos um novo caminho.
Nestes quase 45 anos de casamento, passamos por altos e baixos, mas sempre nos decidimos a continuar. Sou grato a todos os amigos que fiz através da família da Clarice, especialmente à minha cunhada Clarinda e seu esposo, Elias Maciel Cadais. Sempre estivemos juntos nos ajudando e nos respeitando mutuamente, não esquecendo do meu primeiro fusquinha que carregava os 4 adultos e 6 crianças. Nossos filhos são unidos como verdadeiros irmãos. E hoje, quero dizer de público a ele: – obrigado, Elias, por tudo que você fez por nós.
Agradeço, ainda, a presença dos sobrinhos da Clarice, os filhos da minha cunhada Elza Duarte Lopes, já falecida. A Elza hospedou nossa família em sua casa quando retornamos de Brasília para Manaus, em 1979.  O doutor Wilson Alecrim e sua esposa, doutora Graça, Valdino Alecrim, meu compadre, como médicos da família, sempre apoiaram a todos. Valdir, Carlos Augusto e   Élzio também prestaram grande auxílio à Dona Joaquina, minha sogra quando em vida, e hoje continuam sendo um apoio imprescindível à nossa querida Sebastiana. Obrigado por vocês serem os bons filhos e sobrinhos que são!
Formei-me em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, em 1981. Desde 2001, já aposentado, continuo estudando línguas, escrevo poemas, sou o marceneiro, o encanador, o jardineiro e o oficineiro desta casa que hoje nos abriga. Canto no Coral João Gomes Júnior há 45 anos e me orgulho muito de nossas apresentações. Agradeço à ilustre amiga, Dra. Cleomar Feitoza, por todo o seu empenho na manutenção deste sonho da música coral no Estado do Amazonas, e demais coralistas, pela amizade sincera e respeitosa.
Gosto também de nadar nos fins de semana, na piscina do Nacional Futebol Clube, de onde sou sócio proprietário há 40 anos. Apesar disso, o coração quis me pregar uma peça, no ano passado, mas o meu cardiologista colocou-me uma peça auxiliar, um marcapasso, para ajudá-lo a bater no ritmo, e assim estamos indo.
Finalmente, devo dizer aos meus convidados desta noite, muito obrigado por terem escutado um pouco desta minha vida de trabalho. O trabalho sempre me foi salutar, tanto que estudava trabalhando e trabalhava estudando, não sei se feliz ou infelizmente e quando não tem trabalho, pode ter certeza que eu invento!
Sinto-me, hoje, um homem muito feliz e realizado no seio de minha família. Meus netos são os nossos tesouros. A bela Helena, é companheira do pai e da mãe e muito inteligente. O Gustavo é o rei do pedaço; é um garoto sensível, espontâneo e também muito talentoso. Ele brinca e protege a prima menor. E finalmente a Clara, que veio clarear, em 2010, o dia a dia meu, da Clarice e dos tios com muitos mimos e histórias fantásticas que só ela (com apenas 3 aninhos) sabe contar. Meus filhos e netos, vocês são a certeza de que tudo vale a pena!
Obrigado mais uma vez por estarem aqui comemorando estes 80 anos.
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