“O festival resistiu. Imagino as dores dos que o sustentaram durante a borrasca, mas valeu a resistência porque na edição de 2019 (…)

Está em curso a nova edição do Festival Amazonas de Ópera, com alto padrão de qualidade artística e técnica, fruto de anos de trabalho incessante e dedicado de pessoas que, de várias partes do mundo e do país, se reuniram aos amazonenses para intentar esta iniciativa.

Retirá-lo do sonho e do ardente desejo de gestor público que pretendia fazê-lo icônico de política pública de cultura que, até então, estava desenhada apenas em um documento extraoficial, parecia alucinação. Quando tratei disso pela primeira vez, e durante tempos, percebia interlocutores com ares de desdém, outros incrédulos, e, alguns, em silencio, pensando tratar-se de devaneio de caboclo metido a besta.

Os desafios foram quase desproporcionais às minhas forças. Cada vez que eles cresciam diante de mim, minha coragem se agigantava, e, aqui e ali, uma voz solitária, perto ou ao longe, soava declarando apoio à ideia que restabelecia a condição original do palco do Teatro Amazonas.

O que mais ouvia, no princípio, era a indagação de como fazer se não possuíamos orquestra, corpo de dança, coral, cenaristas, diretores, maestros, enfim, nenhuma condição artística ou técnica para realizá-lo. Aliado a um jovem violinista alemão que por aqui tentava realizar a apresentação de um espetáculo operístico, a moda de aventura na selva, retirei a comporta das resistências politicas e lancei a rede ao mar das esperanças. Para ele a ventura acabou logo. Para mim, como não se tratava de aventura, finquei pé e mantive o projeto, transformando as duas primeiras versões, gradativa e completamente.

Sabia que não resistiríamos às importações continuadas para realização do festival. Era preciso criar bases sustentáveis para isso. Necessário usar o festival – no bom sentido – para demonstrar a necessidade de criação dos corpos estáveis e profissionais do Teatro, tal como conseguimos realizar, e com alta qualidade que a todos passou a impressionar.

Passado o começo do começo, a luta surda e a resistência aos malefícios das opiniões tortuosas contra o bel canto a sugerirem  que rejeitávamos os valores e as referencias locais, a insinuarem desperdício de recursos,  a taxarem de alucinação ou vaidade e elitismo cultural, fomos vencendo, passo a passo, a descrença, a tudo e a quase todos. Para isso, sem dúvida, foram decisivos o aplauso popular, a adesão dos jovens, dos estudantes, dos professores, dos artistas e o trabalho crescente de técnicos de todos as áreas incorporados à produção local do evento. Tudo foi demonstrado, aos crédulos e aos incrédulos, que havia que havia um caminho de sucesso a seguir. Bastava prosseguir os objetivos com firmeza. Os nossos talentos artísticos de orquestra, coral, balé, escola de artes, técnicos, costureiras, bordadeiras, ferreiros, cenógrafos, iluminadores, enfim, nossa gente fez, faz e agigantou o festival.

Os atropelos, tropeços e desencontros foram ficando na estrada. Os artistas amazonenses de nascimento e de coração foram dando maior folego ao festival. Os maestros – dedicados profissionais de grande competência e excelentes relações nacionais e internacionais – e todos fizemos o festival avançar em novas bases, e, graças aos deuses das artes e do belo, ser incorporado ao cotidiano brasileiro, e, em particular, amazonense, dando vida incomparável ao nosso Teatro e outros ares para a cidade.

Quando deixei a função pública na qual vinha desempenhando essa responsabilidade social temi pela sua continuidade, e, mais que isso, pela qualidade sem apadrinhamentos, com custos justos e possíveis como fizemos. Isso parque tudo o mais estava mutilado, para dizer o mínimo, pelo vendaval que a administração da cultura no Estado estua passando, com malfadados ventos de destruição.

O festival resistiu. Imagino as dores dos que o sustentaram durante a borrasca, mas valeu a resistência porque na edição de 2019, sob a responsividade de quem entende e participou conosco desde os primeiros momentos, o Festival está exuberante, com a marca de vitorioso, audacioso, popular e erudito, clássico e singelo, atento às crianças, com estreia nacional, e, mais que tudo, com o jeito e a cara do nosso povo, como opera do Amazonas.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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