Corria o ano de 1982. Ventos de mudança política no Brasil começaram a soprar de maneira muito forte. Há 18 anos sob regime ditatorial, o eleitor só tinha poder de voto para cargos legislativos. A escolha de presidentes da república era decidida no seio das Forças Aramadas e covalidada no Colégio Eleitoral, formado pelo Congresso Nacional. Porém, desde 1979, com a aprovação da Lei da Anistia o Brasil caminhava a passos firmes para o fim do militarismo instaurado em 1964. A Lei da Anistia e o fim do bipartidarismo fortaleceram decisivamente as oposições.

Tanto que abriram caminho para o movimento das Diretas Já, deflagrado em 1984. Desse movimento surgiram novas lideranças – Tancredo Neves, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Mario Covas, Ulisses Guimarães, Pedro Simon – que lideraram a transição do regime ditatorial ao democrático, restituído ao povo brasileiro com a eleição, ainda que indireta, pelo Colégio Eleitoral, de Tancredo Neves em 1985.

Nas eleições de 1982, o Partido Democrático Social (PDS), que apoiava os militares, conquistou 12 dos 22 Estados. Porém, quase todos os governantes eleitos se esforçavam para passar imagem de independência, rejeitavam a ideia de que seguiriam a cartilha imposta pelos generais. Quanto aos oposicionistas, à frente o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que elegeu 9 governadores,  e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que conquistou um Estado, o Rio de Janeiro, com Leonel Brizola.

Foi uma campanha dura, onde o confronto com a ditadura começou a assumir contornos bem nítidos. Tanto que PT e PMDB se uniram para fiscalizar o pleito. Na apuração, muitas dificuldades para elaborar projeções, em um período no qual os votos eram vinculados ao mesmo partido (de governador a vereador) e contados manualmente.

Como muitos se recordam, a Rede Globo divulgou dados errados que davam Leonel Brizola, candidato do PDT no Rio de Janeiro, como derrotado no pleito. Um caso evidente de manipulação das pesquisas, que causou clamor nacional, o mesmo que ocorreu nesta campanha de 2014. Brizola foi às ruas e acusou frontalmente a TV Globo de tentativa de golpe, após a divulgação de uma projeção que dava vitória a seu adversário Moreira Franco (PDS), no episódio que ficou conhecido como Proconsult.

Nas eleições de 1982 (60 milhões de eleitores) foram eleitos governadores, pelo PMDB,  Gilberto Mestrinho, no Amazonas, Iris Rezende, em Goiás, Tancredo Neves, em Minas Gerais, José Richa, no Paraná, Jader Barbalho, no Pará, Franco Montoro, em S. Paulo, Nabor Junior, no Acre, Gerson Camata, no Espírito Santo, além de Leonel Brizola, no Rio, pelo PDT, de cujo governo o amigo e companheiro de Facebook, o amazonense Paulo Figueiredo tomou parte ativa.

Dentre os senadores eleitos pelo PMDB, destaque para Fábio Lucena, no Amazonas, Álvaro Dias, no Paraná, Itamar Franco, em Minas Gerais, Hélio Gueiros, no Pará, Severo Gomes, em S. Paulo, e Saturnino Braga (PDT), no Rio de Janeiro.

Em compensação, quatro anos depois o Brasil virou o jogo de vez. Nas eleições gerais de 1986, levada a cabo num sábado, 15 de novembro, 70 milhões de eleitores, sob os efeitos iniciais do Plano Cruzado, deram a vitória, quase por unanimidade, ao PMDB, que elegeu vinte e dois governadores dentre 23. Além do mais, o Partido ganhou a grande maioria dentre os 49 senadores eleitos. Na Câmara Federal, o PMDB elegeu 487 deputados federais (95% do total de 513 membros) e o maior número dos 953  deputados estaduais.

Dentre os governadores eleitos, todos do PMDB, destaque para Amazonino Mendes, no Amazonas, Hélio Gueiros, no Pará, Fernando Collor, em Alagoas, Newton Cardoso, em Minas Gerais, Álvaro Dias, no Paraná, Miguel Arraes, em Pernambuco, Moreira Franco, no Rio, Pedro Simon, no Rio Grande do Sul e Orestes Quércia, em São Paulo.

Para o Senado, o PMDB elegeu importantes nomes como os de Fabio Lucena, no Amazonas, Almir Gabriel, no Pará, Cid Saboia e Mauro Benevides, no Ceará, Mansueto de Lavor, em Pernambuco, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, em S. Paulo, Teotonio Vilela Filho, em Alagoas, Gerson Camata e João Calmon, no Espírito Santo, Nelson Carneiro, no Rio, José Fogaça e José Paulo Bisol, no Rio Grande do Sul.

Este pleito tornou-se também histórico pelo fato de o Distrito Federal, pela primeira vez,  eleger sua representação política. Por outro lado, o Congresso eleito – 48ª legislatura (19871991) –, tornou-se Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração e aprovação da  Constituição de 1988, presidida pelo lendário Ulisses Guimarâes (PMBD-SP).

Por respeito à importância histórica daquele momento nacional, merece destaque o fato de que seencontravam afastados do Congresso e retornaram na Constituinte outros nomes que já haviam tido atuação marcante na política nacional, como o jurista Afonso Arinos de Melo Franco, que presidiu a Comissão de Sistematização da Carta; e os ex-cassados Bernardo Cabral (PMDB-AM), que foi o relator geral da ANC; Lyzaneas Maciel (RJ); Francisco Pinto (BA); Amaury Muller (RS); Plínio Arruda Sampaio (SP); Floriceno Paixão (RS); Chagas Rodrigues (PI); e Wilson Martins (MT).

Efetivamente, não é a primeira vez que o Brasil é varrido por um desejo incontido de mudar. Esse fenômeno ocorre sempre que nossa democracia ou nossa economia encontrem-se em perigo. Foi assim com Juscelino Kubistchek (1956–1961) após o fim da era Vargas, com a redemocratização e a eleição de Tancredo Neves em 1985, e, mais recentemente na era pós-Collor, com Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995–2003).

A conjuntura política e econômica herdada por Itamar e FHC era tão grave, resultado do fracasso do Plano Collor (o que sequestrou a poupança e fechou supermercados), que a economia brasileira quase naufraga de vez, mergulhando numa recessão sem fim. Efetivamente, o Brasil convivia com hiperinflação desde os anos 1980. Em 1993, a inflação foi de 2.477,15% ao ano (IPCA). Só no mês de junho, alcançou 47,43%. Isso significava que um carro popular de R$ 35.000,00 custaria quase R$ 500,00 a mais no dia seguinte, e que um ano depois sairia por R$ 3.740.000,00. Situação que somente seria contornada com o advento do processo de estabilização da economia consequente do Plano Real, em 1994.

O jornalista Joelmir Betting resumiu bem o quadro econômico e o sentimento de alívio do povo brasileiro com o sucesso do Plano Real, ao escrever: Aqui jaz a moeda que acumulou, de julho de 1965 a junho de 1994, uma inflação de 1,1 quatrilhão por cento. Sim, inflação de 16 dígitos, em três décadas. Ou precisamente, um IGP-DI de 1.142.332.741.811.850%. Dá para decorar? Perdemos a noção disso porque realizamos quatro reformas monetárias no período e em cada uma delas deletamos três dígitos da moeda nacional. Um descarte de 12 dígitos no período. Caso único no mundo, desde a hiperinflação alemã dos anos 1920.

Há de se salientar, por oportuno, que o Pt, por decisão de seu líder maior, Lula da Silva, recusou-se a assinar tanto a nova Constituição, cognominada por Ulisses Guimarães “a Cidadã, promulgada pelo Congresso Nacional em 1988, quanto o Plano Real, em 1994.

Na gestão Dilma, o Brasil volta a demandar nova virada; a superar graves adversidades que vêm corroendo o tecido social, a economia, ameaçando a estabilidade democrática e desmoralizando o sistema político. O povo brasileiro clama por mudanças. Mudar é preciso, é o mote do avanço e do progresso. Não se cresce com estagnação, com submissão a grupos que, sem projeto de governo, só têm em mentes saquear a nação.

A imposição da exigência de mudança não se atém a uma questão de conveniência política apenas. Mas a um dever de cidadania. Não podemos virar as costas à nação quando mais de nós ela necessita. Lembro das palavras de John Kennedy, em seu discurso de posse, em 20 de janeiro de 1961, quando conclamou o povo norte-americano e muitos de nós, jovens mundo afora, que sentiram bastante aquelas poderosas palavras: Ask me not what your country can do for you; ask what you can do for your country (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer por seu país!”).

O escritor e historiador inglês Tony Judt, em sua obra Chalé de Memória, escrita em 2010, pouco antes de morrer vitimado pelo mal de ELA, afirma: Se queremos um governo melhor, precisamos aprender a exigir mais dele e pedir menos para nós. Na concepção dos chineses, a fundação de um império repousa sobre a propriedade e a retidão de caráter, não em esquemas e estratagemas. Segundo Henry Kissinger, em sua obra monumental “Sobre a China”, Deng Xiao Ping, responsável pelas reformas empreendidas a partir de 1972, que transformaram o país na superpotência que é hoje, afirmava que “pobreza não é socialismo”. Defendia, ao contrário, que a miséria chinesa somente seria suplantada com medidas liberalizantes que estimulassem a “criatividade do povo chinês para que concretizasse  sua própria visão de futuro”.

Ao que penso, em grande medida o que nós brasileiros precisamos ainda hoje, 2014. E mais: o brasileiro deve esperar de seus governantes, além de “visão de futuro”, noção exata de autoestima, de modernidade das instituições, de uma linguagem direta para o povo de sorte a ensinar-lhe caminhos novos rumo à modernidade, que potencialize a educação de qualidade, a ciência, tecnologia e inovação. A própria busca das bases sustentáveis para o desenvolvimento. Esse projeto exclui demagogia, populismo, radicalismos dogmáticos, manipulações culturais, fanatismos políticos.

Por todo esse conjunto, o Brasil tem de aproveitar a nova onda de mudança que ora se lhe afigura. E mudar de fato o país de sorte a tornar possível sua condução, de uma vez por todas, aos parâmetros    sociocultural, econômico e tecnológico vigente no século XXI.

Este o único caminho da riqueza, da igualdade social e do progresso com liberdades e respeito às idiossincrasias de um país continental como o Brasil. A única via que independe de voluntarismos facciosos.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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