A canção “Porto de Lenha” é a música considerada a “cara” de Manaus.  Letra de Aldísio Figueiras e composição de Torrinho tornou-se um clássico de nossa música amazonense. A primeira estrofe é a mais emblemática e diz: Porto de lenha / Tu nunca serás Liverpool / Com uma cara sardenta / E olhos azuis.

As nossas lindas cunhantãs, as nossas cunhãs-porangas, não têm olhos azuis e nem faces sardentas. Algumas amazonenses de origem europeia têm esses olhos e até sardas. Mas são raras. E tão belas quanto as legítimas porangas, também nos representam. Como o fez Terezinha Morango, nossa eterna Miss Amazonas e Miss Brasil, recentemente falecida.

De acordo com pesquisadores de uma universidade da Dinamarca, uma mutação genética em um único indivíduo na Europa entre 6.000 e 10.000 anos atrás levou ao desenvolvimento dos olhos azuis. Esses cientistas acreditam que todos os indivíduos de olhos azuis estão ligados ao mesmo ancestral. Todos herdaram o mesmo desvio em seu DNA.

Falemos agora de bonecas. Brinquedo de toda menina. Bonecas de olhos azuis, cabelos loiros e pele rosada. É o que toda menina quer ter? Nossas cunhatãs com certeza não se reconhecem nessas bonecas. Geralmente com dentes perolados, nariz arrebitado, cabelos loiros e olhos de vidro azuis.

Bonecas que chegam em aviões ou mesmo por nosso porto de lenha e são distribuídas em lojas. São compradas para presente nos natais, dia das crianças e aniversários.  Ora, por mais que recebam essas bonecas de presente, as verdadeiras porangas não conseguem se identificar com elas.

E não precisam. As moças que se tornam cunhã-poranga de boi bumbá acreditam que não existe uma parte do corpo mais ou menos importante. Para a verdadeira cunhã raiz o corpo é uma totalidade. Os cabelos longos, negros e lisos, o gingado dos quadris, a agilidade ao requebrar, o compasso no andar.

As nossas cunhãs-porangas têm a sua beleza intrinsicamente relacionada ao seu papel de guerreira. Com origem nas mitológicas amazonas. Nelas, a beleza, a graça, o tom da pele e os lindos olhos amendoados não se desvinculam da garra, da coragem, da competência e da própria arte de ser mulher. Elas cuidam do corpo não só para exibi-lo. Ele é também instrumento de luta. Na defesa de seu povo, de seu território.

Voltando ao porto de lenha. As nossas cunhãs verdadeiramente nunca terão cara rosada nem olhos azuis. Como concluíram os cientistas dinamarqueses, os olhos azuis foram um desvio de DNA.  Elas não precisam disso. São lindas.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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