claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Processo ajuda a enfrentar desafios como desigualdade e mudanças climáticas.

Foi lançado, no dia 31 de outubro, pela ONU-Habitat, o “Relatório Global das Cidades-2020”, documento que em um de seus nove capítulos explora o valor econômico da urbanização sustentável.

De acordo com o relatório, o conceito de urbanização sustentável, que deve ser considerado de forma abrangente, implica em planejar e gerenciar as cidades considerando seus custos, e não apenas os benefícios; a qualidade de vida, não apenas a renda; os benefícios sociais e ambientais, não apenas os econômicos; os efeitos globais e não apenas os locais; os efeitos de longo e não apenas os de curto prazo.

Além disso, para o valor econômico da urbanização sustentável ser efetivo, o desenvolvimento de capital humano é crucial. As áreas urbanas devem oferecer oportunidades iguais, para que todos os cidadãos tenham acesso à educação adequada e, dessa forma, possam desenvolver habilidades que permitam sua participação no desenvolvimento social e econômico das cidades.

Por outro lado, a produtividade das áreas urbanas está vinculada à chamada “economia de escala e aglomeração”. Esse modelo é resultante da concentração de recursos em áreas geográficas determinadas, o que otimiza os esforços de produção e acelera o desenvolvimento socioeconômico. O documento aponta que, na medida em que as cidades crescem, uma população maior é capaz de acessar os benefícios que as cidades oferecem, e isto acaba estimulando empresas a se estabelecerem nesses locais, gerando um ciclo econômico positivo.

Entretanto, conforme as cidades se tornam maiores, certas externalidades costumam surgir, dificultando o acesso à habitação, à mão de obra e aos serviços. Aumenta a pressão sobre o uso do solo e sobre as redes de transporte, contribuindo para o congestionamento, a poluição e para os efeitos negativos do ponto de vista ambiental e de saúde associados a esse processo. Além disso, os pobres urbanos têm menos probabilidade de desfrutar os benefícios gerados pela economia de aglomeração, limitando, portanto, o valor econômico de sua contribuição para a cidade.

Dessa forma, uma cidade não conseguirá atingir o desenvolvimento urbano sustentável se não administrar adequadamente o adensamento, de maneira a garantir sua expansão vertical em detrimento da horizontal, ao mesmo tempo em que estrutura a implantação de modelos que possam mitigar os eventuais efeitos colaterais negativos.

Estudos têm mostrado que a taxa de utilização de solo urbano, por meio da expansão horizontal, excede o crescimento populacional nas últimas décadas, uma tendência que tem profundas repercussões para a sustentabilidade em várias escalas. Por exemplo, entre 2000 e 2014, áreas ocupadas por cidades cresceram 1,28 vez mais rápido do que suas populações. A implicação, se essa tendência continuar, é que haverá um aumento constante nos custos de operação e manutenção das áreas urbanas, e a consequente queda na densidade populacional trará uma diminuição importante na competitividade das cidades, com repercussões econômicas relevantes.

O valor social da urbanização é uma das dimensões do desenvolvimento urbano e está intrinsicamente ligado ao seu valor econômico. O relatório da ONU aponta que os processos de urbanização podem ser potencializados com o propósito de abordar desafios globais como desigualdade, mudanças climáticas, pobreza, habitação acessível, geração de emprego e acesso a infraestrutura adequada e serviços básicos, entre outros. A provisão de serviços urbanos pode ser de 30% a 50% mais barata em função das grandes economias de escala, e como resultado, esses serviços podem chegar mais eficientemente às pessoas mais pobres, contribuindo para a redução da desigualdade e da exclusão social.

Em que pesem todos os efeitos da pandemia que estamos atravessando, a continuidade do processo de urbanização no mundo é inevitável. Assim, para continuarem a ser motores de crescimento econômico por meio de uma urbanização sustentável, as cidades devem aperfeiçoar seu potencial de geração de prosperidade e melhorar a qualidade de vida

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 09/11/2020.
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