Houve o tempo da lenda do boto que emprenhava as urnas nas madrugadas, especialmente em altos rios, e tomou mandato de prefeitos, deputados e senadores, e até de governador, tem fantasia e. tem verdades, ainda encantadas nesse mundão de águas.

Não é de hoje que após as eleições gerais surge uma inquietação entre os eleitos e seus eleitores, pelos riscos de perda de mandato ou substituição de eleito(?) por instigação jurídica provocada pelo suplente, naturalmente insatisfeito com o resultado das umas.

Na história política do Amazonas já deu de tudo, e muitas e muitas vezes. Tanto nos tempos mais antigos, quanto nos anos recentes, basta ver os registros dos Jornais, ouvir as conversas dos mais velhos, participar da vida partidária mesmo que não intensamente, que se vai descobrindo episódios curiosos, faustosos, críticos e até mesmo impensáveis, afinal, a luta política nem sempre acaba quando termina a apuração.

Antigamente, quando as oligarquias estavam diretamente associadas ao poder central e dele dependiam para os acordos locais, como foi na fase de influência desmedida de Pinheiro Machado pelo Brasil e de Silvério Nery no Amazonas, estas questões eram resolvidas na base da ata eleitoral, posto que os livros de votação ficavam com o partido do governo, e, se isso não fosse suficiente para manter a hegemonia do partido governista/adesista, havia a famosa Comissão de Poderes montada em todas as casas legislativas, precisamente para dar ganho de causa, sempre, aos candidatos indicados pelos líderes da oligarquia regional.

Mais antigamente ainda, ao tempo da Província do Amazonas, os chefes políticos resolviam todas essas questões desde a inscrição dos poucos cidadãos/homens, aptos a votar, e, para que essa providência não corresse nenhum risco, realizavam a votação na igreja matriz, após santa missa especial, e sob a presidência do pároco. E foi numa dessas que a nossa matriz da Conceição ficou cercada de policiais para garantir que os votos fossem destinados a certo candidato, sem possibilidade de erro.

Destruídos pela Comissão de Poderes federal, perderam o mandato todos os opositores aos governos locais ao tempo da Primeira República (1889-1930), que, sem a piedade dos seus algozes, tentaram vencer a estrutura dominante, sem sucesso, dentre eles Adriano Jorge, Eduardo Ribeiro, Antônio Bittencourt, Heliodoro Balbi, e muitos outros.

Anos mais tarde foi a vez do mapismo, quando a apuração dos votos em papel era contabilizada ao bel prazer dos mesários, cantando os votos, um a um, inclusive os que estivessem em branco, em esmagadora maioria para o candidato-pagante daquela mesa especialmente “armada” para este fim.

Houve o tempo da lenda do boto que emprenhava as umas nas madrugadas, especialmente em altos rios, e tomou mandato de prefeitos, deputados e senadores, e até de governador, tem fantasia e tem verdades, ainda encantadas nesse mundão de águas.

No campo das disputas jurídicas, ainda quando das primeiras coligações partidárias e das legendas e sublegendas, há muita coisa para ser contada, mas é preciso que o tempo passe e que alguns protagonistas se disponham a descrever suas próprias historietas.

Não peço nem que revelem a verdade, masque digam a versão que gostam de explicar. Já valeria a pena!

E pelo que vejo esse vai-e-vem eleitoral parece não ter fim em pleno século XXI, época da uma eletrônica e do voto digital e propaganda nas redes sociais.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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