“Toscano era daqueles que vivia a nossa cidade como poucos, olhando com vagar as suas maravilhas e as suas mazelas sem se envergonhar e sempre pronto a decantá-las em prosa e verso.

Fiquei sabendo, há poucas horas, que nossa cidade está ainda mais empobrecida do que pensava quando escrevi a crônica de domingo passado, e falei de tantas perdas que tivemos nos últimos tempos com o encantamento de pessoas que, na minha consideração, seriam daquelas que não deveriam passar, mas ficar entre nós fazendo o mundo cada vez melhor.

Cantei a saudade e a tristeza de haver perdido amigos do peito e, sem saber, acabei por omitir que outro artista de mão cheia havia nos deixado, numa daquelas viagens que o cara resolve fazer e não dá aviso prévio, aquele que partiu levando consigo um dos violões mais afinados e bem tocados que conhecia, desde o saudoso Domingos Lima.

Corri a procura de saber o que havia acontecido e o “curumim” Mário Adolpho contou toda a história do que aconteceu com o nosso Afonso Toscano, que tantas vezes me premiou com conversas longas no Largo de São Sebastião quando passava na direção do seu recanto de alegria e boemia.

Professor de vários colégios entre eles o D. Pedro II e o Pedro Silvestre, por longos anos de dedicação, músico, instrumentista, cantor, letrista e poeta, Toscano era daqueles que vivia a nossa cidade como poucos, olhando com vagar as suas maravilhas e as suas mazelas sem se envergonhar e sempre pronto a decantá-las em prosa verso, e, mesmo quando não mais lembrava a figura esbelta do antigo aluno de educação física tinha sempre uma palavra elegante para dizer sobre a capital amazonense, e, provocado por qualquer pequena frase ou sugestão de um amigo, levava o recado pra casa ou fazia ali mesmo banco da praça ou no balcão do Armando, a nova música de sucesso com a qual nos brindaria.

Convivendo com outros grandes poetas e críticos literários, gente de jornalismo e artes de tidos os gêneros, ele era um dos maiores entre os maiorais, e quando chegava o tempo do carnaval como se fosse o último da sua vida, valendo-se de parceiros sem igual e invocando as boas almas do além como parceiros, o Afonso produzia ou ajudava a produzir a impagável marcha da Bica dentre as mais de quinze que ele fez, a qual por certo, seria objeto de muita falação. Foi sempre assim, o tempo todo, desde a universidade sobre a qual alguns amigos gostavam de contar e recontar algumas passagens e das quais ele se orgulhava sem ostentação porque sabia valorizar sua história, mesmo com humildade sem par.

O violão falava no seu dedilhar. Dizia versos de amor, cantigas de ninar e canções de bem-querer, chegando até às críticas inteligentes sobre problemas políticos e sociais, tudo sem perder de vista o cotidiano que de forma aguçada sabia compreender e interpretar, desde as coisas mais simples que sua vista alcançava. Foi daqueles que comprovou de que filho de peixe peixinho é, porque a música foi sua paixão, sucedendo a sua mãe que foi cantora e a seu pai, clarinetista por paixão.

Uma vez, e não faz muito, no palco armado no Bumdóbromo de Parintins, especialmente para o Festival Amazonense de Música, com a plateia abarrotada até o tucupi e dentre tantas estrelas campeãs de outros festivais, inclusive Milton Nascimento, eis que surge o Afonso destemido. Ele e seu violão, sua voz e seu jeito manso de ser, pronto para cantar e ser feliz, disputar com emoção, fazer o melhor de si e, se fosse o caso, aplaudir o vencedor sem mágoa, e acabou ficando entre os três premiados.

Fiquei sabendo que ele partiu carregando consigo um pouco da beleza dessa terra querida, deixando um nó esmagado na garganta de todos que o admirávamos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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