Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Autor de As Crônicas de Nárnia e teoria da evolução mostram universalidade do certo e errado.

“C.S. Lewis e Charles Darwin entram num pub e se põem a conversar sobre o Tao”: é, eu sei que parece uma daquelas piadas fraquíssimas e inverossímeis. Darwin, aristocrático e recluso, não era do tipo que frequentava os famosos botecos britânicos, sem falar no abismo de mais de uma década entre a morte do pai da teoria da evolução (em 1882) e o nascimento do autor de “As Crônicas de Nárnia” (em 1898). Mesmo assim, caso os dois se encontrassem, assunto é o que não faltaria.

Digo isso não apenas por causa de suas trajetórias diametralmente opostas do ponto de vista religioso – Lewis, o jovem ateu que se tornou um dos maiores apologistas cristãos do século 20, versus Darwin, o candidato ao sacerdócio na Igreja Anglicana que se afastou da religião e virou o agnóstico mais famoso de todos os tempos.

Acontece que, embora Lewis seja usado (e abusado) por fundamentalistas hoje em dia, sua obra, tanto a teológica como a de ficção, manteve um diálogo robusto e cordial com a teoria evolucionista. Em sua tocante Trilogia Espacial, obra que mistura uma visão cosmológica próxima da medieval com a ficção científica moderna, Lewis imagina, por exemplo, que uma espécie inteligente do planeta Vênus teria evoluído a partir de ancestrais aquáticos, e não terrestres. E, em “Cristianismo Puro e Simples”, ele usa as especulações sobre um suposto “próximo passo” da evolução humana para falar da ressurreição de Cristo.

No entanto, o casamento mais harmonioso entre os dois pensadores está no campo da ética, por mais que a afirmação possa parecer esquisita. E isso nos leva ao Tao que mencionei no primeiro parágrafo. Em “A Abolição do Homem”, outro clássico de Lewis, o alvo atacado apaixonadamente pelo autor é o relativismo filosófico e moral de certas correntes de pensamento modernas. Para se contrapor a essa tendência, Lewis formula o conceito do Tao – termo que ele toma de empréstimo da Antiguidade chinesa justamente para enfatizar sua universalidade.

Podemos traduzir Tao como “caminho”, “senda”, “estrada” ou, pensando de forma mais abstrata, “doutrina”, “princípios”. Lewis emprega o conceito para designar as muitas semelhanças entre as balizas éticas das grandes civilizações. Tanto o chinês Confúcio quanto o judeu Jesus de Nazaré “descobriram” independentemente o célebre “Não façais aos outros o que não quereis que vos façam”, por exemplo. Tampouco existem culturas que louvem os ladrões e os traidores e condenem os generosos e leais.

O curioso é que Darwin já intuía essa tendência ao aparecimento de uma moralidade relativamente universal, e os estudos mais recentes sobre psicologia social corroboram a ideia de que algo bastante parecido com o Tao de fato pode ser encontrado nas mais diferentes sociedades.

Em parte, são princípios que emergem naturalmente quando você tenta viver junto com outros seres humanos que não sejam da sua família, porque são eles que cimentam a confiança mútua sem a qual nenhuma sociedade funciona. A questão é que, embora reconheçam sua universalidade, a maioria dos povos acaba por aplicá-los somente aos membros de seu próprio grupo, deixando os demais de fora desse “círculo mágico”.

O uso imparcial da razão, outra ferramenta da mente humana afiada pela evolução, pode nos ajudar a abrir esse círculo cada vez mais. Demora, é complicado e sofrido, mas estamos chegando lá. E consola o coração deste escriba saber que, no fundo, o que nos une é muito maior do que aquilo que nos separa. ​

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 29/11/2020.
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