Em 1896, bem antes de São Paulo, a cidade de Manaus recebeu a luz elétrica, e com a eletricidade o Teatro Amazonas foi a primeira casa de óperas do país a ter seu equipamento de iluminação com refletores modernos e ribalta com lâmpadas incandescentes. Nesta época de prosperidade a música desempenhava papel importante na oferta de diversões na cidade. Nas ruas do centro instalaram-se bares, restaurantes, cafés e teatros, quase sempre com música ao vivo. Nas casas de família não podia faltar na sala o piano. Quando a temporada lírica começava, os restaurantes ficavam abertos até a meia noite, à espera dos espectadores que saiam dos teatros. Não há registro de composições criadas por artistas locais, sabe-se apenas da qualidade e do talento de músicos nascidos no Amazonas, assim como a presença das manifestações folclóricas com seus puxadores de toadas dos bumbás, os cantos das Pastorinhas e as melodias dos Pássaros. Mas a sociedade amazonense já estava familiarizada com o melhor do repertório mundial, graças à venda de partituras e pela possibilidade de assistir vaudevilles, operetas e óperas desde 1885, tornando-se uma das cidades das Américas com maior tradição musical. A partir de 1898 a cidade passa a contar com a Academia Amazonense de Belas Artes, criação do maestro Joaquim Franco, escola de iniciativa privada, mas que contava com o apoio financeiro do governo estadual. Nas décadas seguintes, quando a cidade entra em decadência, não morre o legado do maestro Joaquim Franco, já que seus alunos mantiveram acesa a tradição musical de Manaus. Deste período vale destacar o “Pastoral do Luso”, encenado na época natalina, acompanhada por um trio musical composto por um piano, violino e bateria. E a gloriosa persistência dos músicos amazonenses, primeiro com o maestro Donizete Gondim e seu “Conjunto Clássico”, e o memorável “Conjunto de Câmara Orfeu”, liderado pelo violinista Francisco Bacellar, que manteve com recurso de seu próprio bolso um quarteto de excelentes músicos e um repertório de primeira grandeza, cujas partituras eles mesmo importava da Inglaterra.

Esses dois músicos extraordinários fizeram a arte da música atravessar incólume os anos de decadência. Nos anos 50, dos quadros do Clube da Madrugada temos os nomes de Pedro Amorim, cantor lírico e autor de lieds amazonenses, e à maestro e compositor Nivaldo Santiago, criador do Coral João Gomes lr., autor de sinfonias, poemas tonais e suítes para ballet. Nos anos 70 vale registrar a presença do maestro Adelson Santos, autor da poderosa partitura da ópera “Dessana, Dessana”, e a dupla Aldísio Filgueiras e Torrinho, criadores de “Porto de Lenha”, hino informal de Manaus. Ainda na música popular tivemos o conjunto regional comandado por Domingos Lima e grupos como os “Blue Birds”, o “Grupo A Gente” e o internacionalmente famoso “Carrapicho”, liderado pelo ator e cantor Zezinho Correa. Outros nomes que não se pode deixar de mencionado são os do saxofonista Teixeira de Manaus, que conquistou as massas populares e a presença do poeta e compositor Celdo Braga, pesquisador das sonoridades amazônicas, primeiro com o “Raízes Cabocla” e depois com seu grupo “imbaúba”, tem divulgado mundo afora o som dos rios e a alma das gentes das barrancas.E não podemos esquecer que o Amazonas legou ao Brasil o mais importante criador da segunda metade do século XX, que ao lado de Heitor Villa-Lobos marca a presença internacional da música brasileira no mundo. Este é Claudio Santoro, menino prodígio, criador revolucionário, mas ao mesmo tempo capaz de fazer passeios melódicos sentimentais pela sua própria sensibilidade de filho de imigrante italiano, mas amazonense das noites de mormaço de Manaus. Estes sentimentos estão presentes

em suas obras, para nosso orgulho.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

1 COMENTÁRIO

  1. Belo passeio pelo ‘som’ de Manaus (que eu diria, inclusive, que é o do Amazonas)! A temática popular representada por alguns dos citados é o que, particularmente, me convida a voltar ao tempo em que se escutava rádio nas cidades interioranas, talvez pela ausência das mídias atuais. Dessa época, incluiria como marco de presença frequente em programas de grande audiência nas rádios ou em algumas apresentações públicas, o parintinense Chico da Silva, com seu ritmo de toada e samba. Tempos depois, a voz urbana, romântica e agradável de Eliana Printes cairia no gosto dos jovens caboclos apaixonados que viviam nas áreas urbanas.
    É prazeroso revolver esse momento que a leitura do ‘som’ (de Márcio Souza) nos proporcionou!

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