Nenhuma outra cidade, além de Manaus, é reconhecida e identificada pelo seu teatro -o Teatro Amazonas-, ícone não só para a população manauense, mas símbolo de uma época de ouro.

Muitas cidades, mundo afora, são reconhecidas por ícones que marcam a paisagem, às ve zes com exuberância, às vezes com simplicidade. Há diversos deles que costumamos proclamar com pontos referenciais, sejam templos religiosos, produtos da culinária, sítios urbanos, monumentos, hermas, torres, pontes, prédios e até canções.

Alguns deles são facilmente lembrados, do que são exemplo: a Torre Eiffel, em Paris; o viaduto do Chá, em São Paulo; o chimarrão, no Rio Grande do Sul; as pontes sobre os rios centrais, no Recife; o carnaval, em Olinda; o acarajé e a igreja do Bonfim, em Salvador, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, a igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, e outros e muitos outros.

Entretanto, nenhuma outra cidade, além de Manaus, é reconhecida e identificada pelo seu teatro – Teatro Amazonas, ícone não só para a população manauense, mas símbolo de uma época de ouro da economia e do bem-viver para grande parte dos seus habitantes, edificado em tempo recorde, em plena selva e no meio do quase nada ao tempo em que éramos, apenas, cerca de 30 a 50 mil habitantes.

Experimentando, gradativamente, grandes espetáculos de ópera, operetas, zarzuelas, canto lírico, concerto e circo, desde os pequenos teatros de madeira que existiam pelos idos de 1869, pouco depois alguns habitantes e jornais passaram a reclamara construção de um teatro público e mais condizente como crescimento econômica e o “status” de capital da Provincia, Iniciava-se a luta pela construção desse edifício que, por cerca de 16 anos, foi sendo agigantado e sofisticado com grandes requintes, até se transformar nesse monumento que está prestes a ser considerado patrimônio da humanidade.

Iniciativa da Assembleia provincial pelos idos de 1881, com obras começadas em 1884 e paralisadas dois anos depois, era um amontoado de ferros em paredes de pouco mais de metro e meio quando, em 1892, Eduardo Ribeiro assumiu o go verno no firme propósito de edificá-lo e, desde então e até 1896, se manteve decidido e vibrando intensamente com a sua edificação e sofisticação, ao mesmo tempo em que transformava a paisagem urbana da pequena cidade, inteiramente, também, como Palácio da Justiça, o reservatório do Mocó, o Instituto Benjamin Constant, os novos arruamentos, aterros e desaterros, as pontes metálicas, os bondes elétricos, o Palácio do Governo que foi dinamizado por seus opositores, e inúmeros serviços que eram aspiração de modernidade de qualquer grande cidade europeia.

Inaugurado em 31 de dezembro de 1896, com a primeira ópera em janeiro seguinte, desde então o Teatro, principalmente durante os primeiros anos da República acolheu artistas de várias partes do mundo, antes que outras capitais brasileiras e da América do Sul tivessem tal oportunidade, e, mesmo com decoração sendo concluída, passou a ser orgulho dos amazonenses de nascimento e de coração. Isso não significa dizer, sinceramente, que, por períodos diversos, não tenha atravessado crises de abandono, penúria, de formação de uso e outros padecimentos no prédio e em suas funções artísticas com espetáculos, às vezes, aviltantes, mas atravessou os anos e vai completar 125 anos de inauguração em meio a uma cidade em completa transformação com as mazelas do século XXI, com a glória de haver voltado a ser palco de grandes óperas, retomado o reconhecimento mundial como grande teatro-monumento e possuir seus corpos estáveis.

Para os amazonenses o Teatro Amazonas é a casa de todos nós, a grande oca que nossos ancestrais edificavam com sabedoria conforme o sol e para abrigar a todos os filhos da tribo, no qual não precisa pedir licença para entrar. Para os que nos visitam, é de encher os olhos e despertar suspiros surpreendentes, apaixonados, que configuram verdadeiro deslumbramento, e, não raro, estupefação.

O Teatro Amazonas é o símbolo de Manaus.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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