*Luiza Duarte 

A demanda chinesa por soja e carne tem acelerado o desmatamento no Brasil.

A gigantesca demanda chinesa por soja e carne tem acelerado o desmatamento e pressionado por enfraquecimento de políticas de proteção ao meio ambiente no Brasil.

Os incêndios na Amazônia provocaram, nos últimos dias, uma importante repercussão internacional. O tema foi assunto nos quatro cantos do globo e recebeu atenção também da imprensa estatal chinesa. No entanto, enquanto o G7 tratou o assunto como uma “crise internacional”, a China manteve-se em silêncio.

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O governo chinês, de fato, raramente comenta assuntos internos de outros países, ainda mais quando está submerso em seus próprios problemas, como os protestos em Hong Kong.
A China também adota uma política de evitar críticas abertas a lideranças internacionais, tem ótimas relações com governos não-democráticos e pensa a longo prazo. Chineses esperam ter benefícios econômicos, não importa o que acontecer. Governos no exterior vão e vêm, e Xi Jinping pretende ficar por mais tempo.

Ainda assim, a China vem assumindo um papel de liderança na esfera global e um protagonismo na luta contra a mudança climática. Xi Jinping ratificou o Acordo de Paris e declarou guerra à poluição do ar, lançando uma série de iniciativas para reduzir a dramática concentração de poluentes no céus das megacidades chinesas e estimulando a transição energética.

O atual governo chinês protagoniza um despertar de políticas ecológicas na região, o que não elimina contradições, nem representa soluções imediatas para problemas profundos.

Quando se fala em mudança climática e aquecimento global, na China e no Brasil as pessoas pensam na poluição provocada por carros e fábricas, quase nunca na alimentação. O questionamento sobre a origem do que se está comendo e como essa comida foi produzida é incipiente.

O mercado de produtos verdes e orgânicos na China cresce com a importância dos millennials na cadeia de consumo e com a transformação do país em uma nação de renda média, mas também cresce o consumo de carnes e laticínios.

A preocupação dos jovens chineses parece estar muito mais atrelada aos impactos na saúde e segurança alimentar, dado o histórico de escândalos de vigilância sanitária, do que em escolhas de consumo que pensam nos impactos no meio ambiente.

O consumo consciente é novidade, uma exceção e uma aposta de mercado que ainda não encontrou a mesma adesão da classe média das capitais europeias ou das grandes cidades americanas. Por enquanto, o que se vê aqui é a celebração do excesso e do desperdício.

Se nos anos 60 a carne era um artigo de luxo e os chineses conseguiam bancar menos de 5kg por ano do alimento, hoje o chinês consome mais de 60kg de carne por ano. O país é responsável por quase 30% da demanda por carne no mundo e a previsão é de crescimento.

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Hong Kong e China são o primeiro e o segundo maior destino para a carne brasileira. A soja representa mais de um terço de tudo que o Brasil vende para o seu principal parceiro econômico, boa parte dela usada para alimentação de animais.

O relatório do Departamento de Agricultura americano (US DepartmentofAgriculture’sEconomicResearch Service) de 2014 confirma a tendência de expansão de consumo para a década e prevê que as importações de soja da China cheguem a mais de 70% do total global entre 2023 e 2024.

A avassaladora demanda do país mais populoso do mundo por soja e carne nos últimos anos tem acelerado a desflorestação na medida em que estimula e enriquece o agronegócio como modelo de produção —o qual avança sobre terras ocupadas pela maior floresta tropical do mundo.

A China tem um papel central no comércio mundial dos dois principais produtos associados à linha de frente do desmatamento e não está preocupada com práticas sustentáveis fora de casa.

No novo cenário de guerra comercial de longo prazo entre China e Estados Unidos, em que produtos americanos foram taxados pelos chineses e vice-versa, o Brasil aparece como o fornecedor substituto natural. As vendas e as queimadas bateram recordes.

*Doutora em ciência política. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 28/08/2019.
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