*Cida Bento

Fortalecer a democracia depende da democratização das instituições.

Amplia-se no Brasil, nos últimos anos, o número de organizações públicas e privadas que buscam implementar programas de equidade e diversidade que contemplem o quadro de pessoal, de lideranças, de fornecedores e prestadores de serviço, visando se tornarem mais igualitárias, justas e também mais competentes.

É uma resposta das instituições à situação de desigualdade que marca nosso país e que já ocupava as manchetes de jornais, a qual vem se agravando na pandemia e intensificando a pressão dos movimentos sociais.

Esses programas precisam ser ampliados e em ritmo mais acelerado, mas está acontecendo, como temos constatado em iniciativas de várias empresas, não só de contratar, mas também de complementar a formação de pessoas de grupos que, por discriminação, historicamente estiveram afastados de lugares de comando e de vanguarda nas instituições públicas e privadas.

De outro lado, ainda prevalece o discurso de muitas organizações brasileiras de que o nível de excelência que possuem decorre do fato de serem organizações totalmente brancas e que a ampliação da presença negra vai obrigá-las a “nivelar por baixo” -como falou à grande mídia uma liderança de um banco- ou de que as ações afirmativas podem até “destruir as universidades” -como disse o diretor de um dos colégios mais caros de São Paulo.

Parecem diferentes, mas esses tipos de discursos se assemelham a atitudes como a da cliente de um restaurante em Goiânia que não aceitou a entrega de um produto porque o entregador era negro. Não há outro nome para esses comportamentos que não seja “supremacismo branco” -que, embora em grau e intensidade diferentes, está na base da pregação dos mais violentos grupos racistas que conhecemos como a Ku Klux Klan.

Companhias criam programas de estágio e treinamento exclusivos para contratação de negros Bayer realiza

Bayer realiza programa de trainee exclusivo para pessoas negras Reprodução

Magalu realiza primeiro programa de trainee da empresa exclusivo para pessoas negras Reprodução

Ambev fez sua primeira contratação exclusiva de estagiários negros em 2020 Reprodução

Vale aqui ressaltar que muitos estudos de grandes universidades têm revelado que os cotistas têm desempenho similar ou até superior aos não cotistas. Pesquisa conduzida por Wainer e Melguizo (2018), utilizando dados do Enade, relativos a mais de 1 milhão de estudantes, comprovou que não há diferença entre o conhecimento de alunos cotistas, por ações afirmativas raciais ou sociais, e o de seus colegas de classes que não são cotistas. Também não há diferença prática de conhecimento ao final da graduação entre alunos que receberam empréstimo pelo Fies e os que não receberam.

Por fim, o estudo mostra que alunos que receberam bolsa do ProUni têm apresentado desempenho superior se comparado aos colegas de classe.

No caso do mercado de trabalho, a McKinsey & Company analisou os índices de diversidade de gênero e raça de 693 empresas de capital aberto sediadas em Brasil, Chile, Peru, Argentina, Colômbia e Panamá, de variados ramos, e os comparou a diferentes resultados de performance dessas empresas entre 2014 e 2018.

Empresas com índices altos de diversidade de raça/etnia têm 24% mais probabilidade de obter resultados acima da média do seu ramo, tendendo a ter agenda de inovação mais sólida, ambiente de trabalho mais feliz, melhor retenção de talentos, líderes mais eficazes, e são mais rentáveis do que seus pares que não têm diversidade -“Diversity Matters – America Latina”, McKinsey & Company (2020).

Isso implica considerar que pessoas oriundas de diferentes grupos, muitas vezes majoritários no país, iniciam suas jornadas pessoal, profissional e estudantil de pontos de partida completamente diferentes, tendo seu destino impactado por histórico de discriminação institucional que gera, para umas, o privilégio simbólico e material e, para outras, as barreiras.

O fortalecimento da democracia em nosso país depende da democratização de instituições públicas e privadas, que possibilita a multiplicidade de vozes, de experiências e de perspectivas que marcam a riqueza de nossa diversidade.

*Doutora em psicologia. Matéria na Folha de São Paulo, de 29/10/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui