Neste domingo, quando os meus sete leitores estiverem lendo esta coluna, estarei em Portugal, mais precisamente em Sertã, a freguesia onde nasceu o cineasta Silvino Santos. A sensação de um brasileiro em Portugal é bem diferentes do acrimonioso desprezo que os hispano-americanos sentes na Espanha.

Nada mais deliciosamente desorientado que um brasileiro a percorrer terras portuguesas. Não se trata exatamente de uma volta às origens, mas uma espécie de curiosidade em perspectiva que ressuscita uma prolongada ausência como um gesto de prestidigitação do inconsciente.

Nas cidades, as similitudes apagam-se e reaparecem e confunde-nos totalmente. Não que ainda carreguemos algum parasitário sentimento provinciano a nos atordoar com a antiga metrópole colonial. Neste caso a recíproca é mais verdadeira. Portugal nos atordoa porque um salto de algumas horas de voo sobre o Atlântico coloca-nos no meio de um caleidoscópico déjà-vu. Nosso senso de orientação urbana perde a precisão. Surpreendidos pela abolição da urgência do presente, onde nos acostumamos a encontrar trincheira, encontramos a qualidade da calma permanência do tempo. Embora Portugal tenha mudado muito com sua integração à Comunidade Econômica Europeia, o fundamental ficou.

Talvez seja isto que torna o país tão enfadonho aos jovens portugueses e tão singularmente atraente aos brasileiros nascidos das manhas de um progresso desordenado.

Coimbra, pequena e sem segredos, é o arquétipo primordial de todas as cidades coloniais do Brasil. Em Lisboa, podemos caminhar ao mesmo tempo no Rio de Janeiro do século XCIX, e num simples dobrar de esquina de rua, cairmos na sobriedade ou na imodéstia desta mesma cidade que é também começo e transição do Brasil. Esta mesma ilusão retrospectiva pode ser percebida nas ruas, com o povo português. A lógica portuguesa, falência do cartesianismo, que é também uma glória brasileira, mas que em nenhum lugar do mundo é brandida com tanta decisão, ajuda a fazer de nossa desorientação uma vítima a tomar as verdades da premissa invés da conclusão.

Especialmente porque o português já começa suas premissas, em total desacordo com a lógica aristotélica, mas é indagado sobre qualquer tipo de questão, pela palavra “portanto”. O que nos faz lembrar o conto muito popular em Lisboa, contado por minha amiga Maria João Espírito Santo, da diferença entre um computador português e um computador norte americano. Este é capaz de ter um banco de memória de dados, já com português tem uma vaga ideia.

Mas o povo português à sua maneira, como os brasileiros, é alegre, crítico, explosivo e repelem os neurotizantes pelos consumistas da sociedade de massas. Lisboa, mesmo vítima da especulação imobiliária recente, antes de mergulhar na crise, é uma capital de razoável convívio urbano sem a selvageria das grandes cidades brasileiras. E uma capital que guarda certa dose pueril de antigo centro colonial, mas sem a dureza arrogante que nos pasma em Bruxelas, por exemplo. Mesmo o Porto, a cidade mais de acordo com o capitalismo que os portugueses foram capazes de fazer, nem de longe se parece com a sandice desenfreada, vertical e ostentatória que oprime São Paulo. Mas o nosso senso de desorientação não se resume a estas justaposições surpreendentes de época reconhecíveis em cidades brasileiras. Também a produção cultural, o trato da arte, especialmente a literatura, nos desorienta e instiga sobremaneira. Portugal não atravessou o sombrio feudalismo católico dos espanhóis e franceses, nem a histeria cristã dos alemães. O capitalismo protestante que falava com Deus enquanto acumulava lucro nunca se aclimatou ao espírito guerreiro lusitano. Na tradição lusa se uniu o mandonismo leonês com o espírito comercial sarraceno.

Coisa que o Brasil não herdou.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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