Para consolidar o processo da conquista definitiva da Amazônia e preservar a posse luso-brasileira, sobretudo da Amazônia Ocidental foi fundamental a construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro.

A região do Rio Negro desde os primeiros contatos com os europeus foi considerada uma região estratégica.

A partir da expedição de Francisco de Orellana em 1542, frei Gaspar de Carvajal, capelão da expedição referiu-se ao Rio Iquiari com o nome de Rio Negro que ficou até os dias atuais. Vejamos a seguir como Frei Gaspar de Carvajal descreve a “descoberta” do Rio Negro em sua obra “Relación del descubrimiento del famoso río Grande que dese su nacimiento hasta el mar descubrió el Capitán Orellana en unión 56 hombres”: 

No sábado, véspera da Santíssima Trindade, mandou o Capitão fundear em uma povoação onde os índios se puzeram em defesa. Apesar disso os expulsámos de casa e nos provimos de comida, achando ainda algumas galinhas. Nesse mesmo dia, saindo d’ali, prosseguindo a nossa viagem, vimos uma boca de outro grande rio, à mão esquerda, que entrava no que navegávamos, e de água negra como tinta, e por isso lhe puzemos o nome de Rio Negro. Corria ele tanto e com tal ferocidade que em mais de vinte léguas fazia uma faixa na outra água, sem misturar-se com a mesma. Ainda nesse dia vimos outras povoações não muito grandes. No domingo da Santíssima Trindade descansou o Capitão com a sua gente nos pesqueiros de um povoado que estava numa lomba, encontrando-se aí muito peixe, que foi socorro e grande alegria para os nossos espanhóis, pois havia dias que não descansávamos. Estava esta povoação situada em uma lomba afastada do rio, como em fronteira de outros povos que lhe faziam guerra, pois estava fortificada por uma muralha de grossos troncos. Quando os nossos companheiros subiram para tomar comida, os índios a quizeram defender e se fizeram fortes dentro daquela cerca, que não tinha mais de uma porta, havendo-se com bravura. Mas como nos víamos em necessidade, resolvemos atacá-los e, nessa determinação acometemos pela dita porta, entrando sem nenhum risco. Os companheiros pelejaram com os índios até desbaratá-los e logo recolheram a comida, que havia em quantidade. (Gaspar de Carvajal, Alonso de Rojas, Cristóbal de Acuña. Descobrimentos do Rio das Amazonas. [1981], p. 50,51).

Excedendo os limites territoriais de suas observações e ultrapassando a visão dos acontecimentos do momento, o capelão da expedição de Pedro Teixeira frei Cristóbal de Acuña percebeu em 1639 que o território dominado pelos Manaus era uma área estratégica para proteger e defender a Amazônia da cobiça dos concorrentes holandeses e ingleses que estavam ao norte dessa região e que desejavam descer para participar dos empreendimentos que se realizavam naquele território com as várias nações indígenas.

A esse tempo o rio Iquiari era também conhecido como o Rio do Ouro e nas proximidades dessa região estaria o país do El Dorado e a Cidade de Manoa próxima ao lago Parima, onde se dizia haver grande quantidade de ouro de tal modo que os guerreiros vencedores eram premiados com um banho de ouro em pó sobre seus corpos nus.

Segundo observações de missionários e de outros viajantes que passaram por esse território a partir da segunda metade do século XVII havia um comércio intenso praticado pelas nações indígenas com estrangeiros, sobretudo com os holandeses.

Essa área de livre comércio liderada pelos Manaus abrangeria o território das antigas guianas (holandesa e inglesa) delimitada informalmente desde o Rio Orenoco até a região do Rio Madeira.

Observam os cronistas dessa época que os indígenas não queriam mais negociar com os portugueses porque as mercadorias e quinquilharias ofertadas pelos holandeses e ingleses eram bem melhores.

Fica evidente que esse quadro de eventos, fatos e descrições fantasiosas despertava nas pessoas sentimentos de enriquecimento rápido e fácil e de qualquer jeito atraindo para a região aventureiros de todas as espécies. É claro que os colonos portugueses não poderiam deixar de participar desses negócios e sobretudo o rei de Portugal não poderia deixar de arrecadar impostos para a Fazenda Real.

Explicitando mais ainda fica evidente também que essa área de livre comércio liderada pelos Manaus passa a ser uma área estratégica para a defesa do território, controle das atividades econômicas enfim para o resguardo do exclusivismo colonial em relação à Amazônia e especialmente do Rio Negro.

Particularmente os holandeses não desistiam de marcar presença no Brasil e na Amazônia. Aqui na Amazônia os holandeses instalaram um forte no estuário do Rio Essequibo e em 1621 fundaram a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Essa companhia passa atuar na região criando sua rede de colaboradores corrompendo os chefes das nações indígenas nesse escambo hediondo de índios e negros escravizados por quinquilharias, armas e outras mercadorias.

Os Manaus combateram a nação indígena dos Karinya e dos Akawaio que fizeram parte da rede de colaboradores dos holandeses, por esse motivo, em 1724 o Conselho Político de Essequibo ordena o extermínio dos Manaus e que os prisioneiros fossem vendidos como escravos. O Conselho Político de Essequibo premiava quem matasse um manaus.

Ajuricaba e seus guerreiros manaus lideraram uma coalisão de chefes de nações indígenas no enfrentamento à invasão e ocupação de seus territórios, no saque aos seus recursos naturais e na redução das populações indígenas à condição de escravos.

Todos esses fatos contrariavam os interesses do Rei de Portugal e particularmente os interesses imediatos dos colonos portugueses aqui na Amazônia.

Os colonos portugueses irritados com os índios e incapazes de dar combate aos seus verdadeiros inimigos e concorrentes os holandeses, ingleses, franceses e espanhóis na disputa pela força de trabalho dos índios e pelos recursos da floresta conseguiram do Conselho das Missões autorização para fazer uma “guerra justa” contra os manaus e seus aliados.

O motivo para fazer “guerra justa” contra os Manaus foi a acusação de que Ajuricaba seria aliado dos holandeses e que navegava pelos rios ostentando a bandeira da Holanda. Já vimos anteriormente que os manaus não tinham nenhuma razão para se aliarem aos holandeses o que não impediria de esporadicamente fazer algum negócio com algum holandês. O fato é que o Conselho das Missões votou pela autorização da “Guerra Justa” contra os manaus e seus aliados e a captura de Ajuricaba.

Legitimados pelo Conselho das Missões e munidos de todos os recursos necessários o governador João Maya da Gama recomenda ao capitão João Paes do Amaral uma “guerra dura”.

Na verdade, esta operação bélica contra os manaus ocorreu em setembro de 1727, em uma localidade conhecida na época como Ponta do Azabari, nas proximidades do encontro das águas do Rio Negro com o Rio Amazonas.

Ajuricaba viu seu filho Cucunaca ser assassinado pelos portugueses durante os combates. Juntamente com Ajuricaba foram mortos os caciques: Aguaru, Canacury, Cany, Caramery, Daã, Gaau, Juabay, Majury, Manatuba, Mandary e mais duzentos índios que seguiriam acorrentados para serem devidamente justiçados em Belém.

Logo no início da sinistra viagem Ajuricaba rebelou-se contra seus algozes no que foi seguido pelos seus companheiros resultando na morte de todos esses guerreiros Amazônidas conforme relato do governador Maia da Gama:

“Quando Ajuricaba estava vindo como prisioneiro para a cidade de Belém, e ainda estava navegando no rio, ele e outros homens levantaram-se na canoa onde estavam sendo conduzidos agrilhoados e tentaram matar os soldados. Estes sacaram de suas armas e feriram alguns deles e mataram outros. Então, Ajuricaba saltou da canoa para a água com um outro chefe e jamais reapareceu vivo ou morto. Deixando de lado o sentimento pela perdição de sua alma, ele nos fez uma grande gentileza libertando-nos dos temores de sermos obrigado a guardá-lo”.

Fica claro que Ajuricaba cacique dos manaós e todos os outros dez caciques das tribos aliadas lutaram até a morte na defesa de seus territórios. Houve luta, e luta heroica. Mesmo acorrentados Ajuricaba e seus guerreiros manaus não se acovardaram e lutaram contra os soldados portugueses sobretudo na defesa dos eternos valores inscritos na mente, no coração, no peito e na vontade de todos os povos: liberdade e autodeterminação.

O rei de Portugal Dom João V agradeceu ao governador do Pará João Maya da Gama pelos bons e leais serviços prestados à coroa portuguesa pelo extermínio de Ajuricaba e dos outros dez caciques de tribos aliadas.

A partir dessa matança dos chefes e mais duzentos guerreiros foi eliminado o fator manaós, a tribo líder do Rio Negro, ficando mais fácil o trabalho de buscar e escravizar os índios pelos colonos portugueses. Na verdade, essa matança dos manaus e de outras nações indígenas na Amazônia é mais um crime de lesa-humanidade que até hoje clama por justiça.

A construção da região amazônica resulta, portanto do embate de dois projetos de vida: FELIZ LUSITÂNIA dos portugueses e A TERRA SEM MALES dos indígenas amazônidas, idênticos nas suas concepções pois, ambos buscavam a felicidade, mas completamente diferentes nas práticas e procedimentos para a consecução de seus objetivos.

O fato é que a região do Rio Negro foi considerada estratégica para a defesa do território e será nas proximidades de sua foz com o Rio Amazonas que será construído o forte de São José da Barra do Rio Negro.

Por ordem do Governador e Capitão Mor do Pará Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, a partir de 1669 o Capitão Pedro da Costa Favela dá início a construção da lendária Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro disposta em uma área onde as nações indígenas enterravam seus mortos.

Manaus começa a ser construída e se desenvolve em cima de cemitérios das nações indígenas que em vários momentos de sua expansão ressurgem do âmago de seus territórios lembrando às gerações atuais as suas raízes e os embates com os colonizadores. Assim é que surge a Praça da Saudade, a Praça da Polícia, a Cidade Nova e etc….

A partir da fortaleza construíram-se edificações que resultaram na formação do “Lugar da Barra”, que posteriormente seria a sede da Comarca de São José do Rio Negro.

O Lugar da Barra teve outras denominações até a criação da Província do Amazonas quando recebe o nome atual de Cidade de Manaus. Atualmente é conhecida simplesmente como Manaus.

Manaus surge então como lugar estratégico para fomentar e controlar o comércio e sobretudo para a defender a soberania dos portugueses sobre o território amazônico das ameaças de seus concorrentes vindos através do Rio Negro e do Rio Solimões.

Complementando essas afirmações deve-se acrescentar que o Rio Negro por essa época ainda concentrava numerosas nações indígenas, e, nessa área em questão destacavam-se os manaós, os baré, os passé, os tarumâ, os baniua e outras tantas nações indígenas vindas de outros rios que organizadas pelos Carmelitas foram a mão-de-obra utilizada na construção da fortaleza e que interagindo e miscigenando-se com os portugueses e outros mais deram origem ao núcleo populacional do Lugar da Barra, acrescido de um novo seguimento social regional que ficou conhecido como cabocos.

Pela sua localização geográfica, e sobretudo pela presença atuante das missões religiosas e dos funcionários públicos e colonos portugueses o Lugar da Barra, funcionou também como centro de recrutamento, controle e concentração da força de trabalho indígena. Nesse sentido o Lugar da Barra fez parte da logística de apoio às tropas portuguesas que promoviam “as guerras justas”, “os descimentos”, e os “resgates” e que atuaram no Rio Madeira, no Rio Japurá e no Rio Solimões acima chegando até a tríplice fronteira do Peru e Colômbia, sempre com o objetivo de capturar e escravizar os indígenas.

Em sua viagem em 1637 Pedro Teixeira teve oportunidade de verificar a situação dos fortes que tinham sido construídos até aquela data ao longo do Rio Amazonas. Em documento intitulado “Relatório do General Pedro Teixeira do Rio das Amazonas para o Senhor Presidente (Relazion del General Pedro Tejeira deel rio delas Amazonas para el Sor Presidente) Pedro Teixeira observa o seguinte:

 “La segunda Fortaleza, éstá situada en él Curupa Zient leguas de la Ciudade de Velen… ésta Fortaleza de el Curupá, tiene fama no defiende cosa ninguna por estar sobre una gran barranca, és solamente para conservazion delos Indios horros, que por alli zercano viven, y para correr la costa de el cabo del Norte, por donde de contino entran los enemigos a pobiar y comerzear con los âruacas, araguoazis, comaus”. (CORTESÃO, Jaime, 1965).

É certo que estas observações foram consideradas pelas autoridades portuguesas, e, o que se constata historicamente, é que o governo português operou no sentido de dotar as fronteiras com equipamentos necessários para a defesa do território surgindo assim essas estruturas de edificações militares que até hoje asseguram a soberania brasileira sobre a Amazônia.

Constata-se na atualidade que os atuais investimentos feitos na Amazônia obedecem à mesma lógica de mantê-la como região colonial. Os grupos empresariais capitalistas e os empreendedores de sucesso condicionam seus investimentos aos incentivos fiscais.

O Estado continua associado aos interesses privados, bancando a maior parte dos investimentos, transferindo recursos públicos para investidores privados. Tudo feito com a ideologia do desenvolvimento sustentável defendida pelos cientistas que se colocam a serviço da atual expansão capitalista no mundo.

A construção da atual região amazônica resulta, portanto do embate inicial histórico/geográfico entre dois projetos de vida: FELIZ LUSITÂNIA dos portugueses e A TERRA SEM MALES dos indígenas amazônidas, idênticos nas suas concepções pois, ambos buscavam a felicidade, mas completamente diferentes nas práticas e procedimentos para a realização de seus objetivos.

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Roberto Monteiro de Oliveira
Natural de Manaus, AM. Licenciado em História pela FSFCLL/SP. Mestre em Geografia pela UNESP. Doutor em Geografia pela USP. Analista de C&T do INPA.

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