“A posse do governador teve de ser realizada perante o Tribunal de Justiça, pois o Poder Legislativo estava sublevado e em confronto irreconciliável com o eleito.

Passados cem anos é possível registrar que no primeiro dia do ano de 1921 a capital amazonense não experimentou o clima de Ano Bom em paz e harmonia. Viveu, ao contrário disso, horas de intensa apreensão e insegurança, ao mesmo tempo em que se processava a posse de César do Rego Monteiro como governador do Estado, ele que era antigo desembargador e senador da República.

A confusão política estava estabelecida desde o tumultuado processo de escolha e aprovação de sua candidatura, passando por eleições reconhecidamente fraudadas e feitas para atender interesses do governador e do presidente da República, os quais não consultavam as aspirações de grande número de políticos do partido do próprio Rego e muito menos das oposições que, como tem sucedido nos dias correntes, se dividiram em várias candidaturas e não lograram êxito no enfrentamento eleitoral.

Diverso do que mandava a Constituição do Estado, a posse do governador teve de ser realizada perante o Tribunal de Justiça, pois o Poder Legislativo estava sublevado e em confronto irreconciliável com o eleito. Para ampliar a gravidade do momento, o discurso de Pedro Bacellar, na ocasião de entregar o cargo, assustou os presentes não só pela rudeza das palavras como pela clareza em demonstrar a grave crise econômica e financeira que transferia ao seu sucessor.

Como se não bastasse, enquanto se processavam os atos solenes de posse e transmissão do cargo, foram ouvidos tiros de canhão, tiroteio cruzado e as notícias chegadas à sede do Judiciário eram desesperadoras. Tudo isso com o Palácio da Justiça cercado e garantido por forças armadas federais, conforme ordem expressa do presidente da República, Dr. Epitácio Pessoa. Naquele dia o clima de instabilidade e insegurança grassou em Manaus e em alguns municípios do interior em razão da mobilização de grupos insatisfeitos com a eleição de Rego Monteiro, os quais, embora reprimidos por forças locais e federais, causaram grandes transtornos à sociedade da época.

Poucos meses depois Rego Monteiro classificava os “revoltosos” de 1921 como “a força revolucionária que se preparava para tomar de assalto o poder,” e dizia abertamente que eles seriam pregadores de ideias subversivas e pretendiam constituir um clima contrário na ocasião de sua posse como governador eleito. Segundo palavras do próprio Rego, o espírito desses “revoltosos” seria de anarquia, capaz de perturbar a vida da sociedade e colocar sob ameaça a estabilidade das instituições

A polícia Civil atuou com rigor para reprimir esses movimentos e as forças militares não titubearam em agir em Manaus e por onde surgiu essa reação política e popular. Como diziam os que presenciaram algumas dessas cenas dantescas de embates políticos, retóricos e de tiroteio para todo lado, os policiais agiram com rigor porque o chefe de Polícia era filho do governador e porque Epitácio Pessoa mandara agir para garantir a “legalidade.”

Com a economia do Estado em frangalhos, agravada pela travessia da Primeira Guerra Mundial, pela acentuada queda da exportação de borracha, por ausência de alternativa econômica e em razão dos elevados dispêndios dos cofres públicos com subsídios a empresas privadas, salários, aposentadorias e pensões vitalícias, a situação só poderia se agravar, como se agravou.

Piores eram as condições de vida da população. Alimentação rareando, preços elevados, transporte público precário, energia elétrica deficiente, abastecimento de água irregular mesmo para residências abastadas, desemprego crescente, salários de servidores em longo atraso e quase insolvência do Tesouro estadual.

O fato é que o tumulto do primeiro dia do ano e data da posse do governo de César do Rego Monteiro se estendeu pelo quatriênio, e, embora aparentemente serenados alguns ânimos de políticos e partidos, o que se teve de concreto foi que o governo foi deposto em julho de 1924, apedrejado e não conseguiu completar seus dias de reinado.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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