Andam guardados nas prateleiras de poucas bibliotecas os três livros de sonetos de Jonas Fontenelle da Silva, o piauiense que, ainda jovem, aos dezoito anos, encantou uma boa parte dos cariocas e despertou interesse de muitos críticos e jornalistas Brasil afora com seu primeiro livro.

Recentemente a Fundação “Allan Kardec”, interessada em verificar com alguma profundidade se as suas poesias teriam influência da doutrina espírita, pediu nossa colaboração para um estudo bibliográfico. A indagação surgiu do fato de que João Antônio da Silva e dona Firmina Fontenelle da Silva, os pais de Jonas, teriam tido papel destacado na propagação de Kardec pelo Amazonas, especialmente em Manaus, seja em grupos de estudos como na Federação Espírita Amazonense, e também porque havia a impressão de que muitos de seus sonetos parecem traduzir mensagem espiritista.

O fato é que, desde cedo, lá pelos seus 16 anos de idade, Jonas seguiu de Manaus para estudar em Salvador da Bahia e depois no Rio de Janeiro, formando-se em odontologia e, no meio do caminho, talvez influenciado por uma geração de poetas de Salvador, teve presença marcante no grupo de simbolistas que nascia na capital baiana. No Rio, encantado com a poesia de B. Lopes, Jonas fez versos, publicou em jornais, e lançou seu primeiro livro em 1900, brilhantemente acolhido pela crítica mais ácida da capital da República. Dois anos depois, quando já residia em Manaus, deu ao público outro livro que, apesar de bem composto, não foi de tanto agrado da crítica e do leitor mais exigente. Vinte e um anos depois lançou em Manaus a sua terceira grande produção poética.

Simbolista, ou decadente, não importa, Jonas foi uma das maiores expressões da literatura brasileira do Norte do País, orgulho do seu Piauí, especialmente de sua Parnaíba, nome de projeção nacional a ocupar lugar nas principais obras sobre literatura e na grande, média e pequena, imprensa de inúmeras cidades, durante muitos e muitos anos.

Foi em razão da provocação que me fizeram os kardecistas que resolvi revolver meus apontamentos antigos, ler mais uma vez dois dos três livros de lonas – porque do primeiro não se tem notícia que exista exemplares disponíveis-, rever a opinião dos seus contemporâneos, tudo isso em busca de responder a principal indagação que me foi formulada: sonetos com influência da doutrina, ou não? A resposta veio de um dos mais eminentes membros da Fundação, o professor José Alberto Machado para quem não há sinais efetivos de que a poesia dele tenha influência decisiva do espiritismo, embora as profundas relações da família com a doutrina, com base nas poesias e livros que forneci, embora alguns contemporâneos afirmem que tenha essa influência e tenha mensagens que tais…

O certo é que, a partir do cumprimento dessa missão, renovei meu interesse pelo poeta e ampliei o conhecimento sobre a família, estando prestes a concluir um trabalho pouco mais aprofundado, coisa de que todos os estudiosos da literatura e da história do Amazonas nos ressentíamos, e penso que poderá ser uma contribuição efetiva na recuperação da memória literária de quem ajudou a fundar a Academia Amazonense de Letras em 1918, vivia recolhido e cada vez mais recolhido conforme o tempo impunha que a juventude esvaísse, e escolheu viver no mundo amazônico embevecido pelas florestas e águas que animavam seu espírito nos passeios e pescarias de que gostava.

Pode ser que com isso consiga despertar novo interesse pela sua obra encantadora.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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