Parece que foi ontem a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, ou seja, a inesquecível Rio-92, que mobilizou 150 autoridades internacionais entre chefes de estado, presidentes, inclusive o núncio apostólico do Vaticano e representantes de missões estrangeiras credenciadas naquele organismo interinstitucional e vindos para o Brasil para participar de debates, discussões e assinaturas de acordos sobre o desenvolvimento sustentável do planeta, naquela época já pauta de ambientalistas e empresas do mundo inteiro que, preocupadas, começaram a criar uma série de selos verdes nos diversos ramos de atividades.

Ao lado, a conferência paralela reunia mais de 10 mil ambientalistas dentre os quais cientistas, representantes de ONG’s e inumeráveis líderes religiosos ligados a rica diversidade da fé existente em nossa casa comum. Eles foram responsáveis para escrever a Carta da Terra… Momento esplêndido foi quando todos saíram das tendas e abraçados, pediram ao Criador que orientasse os governantes a tomarem decisões sensatas sobre o ambiente. De repente no céu do Rio, límpido naquela manhã em que todos oravam, observaram que o clima mudou: Nuvens alvas passando em desabalada carreira bem baixa e sob uma ventania incrível agradeciam ao Cristo Redentor que, com os braços abertos, abençoava a todos. As pessoas ficaram enlevadas, parece que não estavam pisando no chão.

Dia 4 de outubro de 2019 foi celebrado um santo a que inúmeras religiões cultuam por sua pureza, desapegos e que dedicou a vida a disseminar amor a todas as criaturas. Neste dia, parte da população, especialmente crianças levam seus animais de estimação para serem abençoados em uma igreja, após uma missa especial dedicada aos animais. Filho de italiano e mãe francesa, da alta burguesia europeia da Idade Média nasceu Giovanni Pietro di Bernardone: Uma criança de berço rico a ‘menino levado’ na adolescência, acostumado aos prazeres da vida, frequentando com os amigos a alta roda da elite italiana desregrada e mundana.

É uma pessoa emblemática no campo da religiosidade, considerado um dos maiores cristãos da Humanidade. São Francisco de Assis (1881-1226) é Patrono dos Animais e do Meio Ambiente. E assim como a indiana Madre Teresa de Calcutá séculos após, também fundou sua ordem, chamada de franciscanos que na mesma linha da assistência humana de Irmã Dulce – uma brasileira de aparência frágil -, mas de trabalho silencioso e gigantesco dedicado ao próximo, aproxima-se do trabalho desenvolvido por ambos em seus respectivos países, porém, irradiado como uma onda espiritual para todos os continentes.

Na manhã da sexta-feira, nos Jardins do Vaticano, foi realizada uma celebração. Uma festa de consagração dedicada a São Francisco, escolhido em 2017 como patrono do Sínodo da Amazônia. Segundo o jornalista Silvaney José da Rádio Vaticano, Vatican Media e Vatican News estavam presentes padres, bispos sinodais e indígenas da panamazônia que, em fila dupla, cantaram o tema de abertura baseado na encíclica papal Laudato Si. Em seguida foi plantada uma azinheira… A delegação de amazônidas depositou no centro de uma grande mandala representando uma vitória régia, os símbolos da água, da terra, sementes e do sangue dos mártires junto aos instrumentos que fazem parte de seu dia a dia como o rico artesanato regional das etnias da panamazônia. Em momento seguinte em uma roda com maracas, flautas e chocalhos, fizeram uma apresentação para a autoridade papal que estava postada ante a eclésia mundial.

Inesquecível mesmo foi a entrega de um entalhe em madeira de Nossa Senhora da Amazônia com uma face indígena e, após, o presente depositado no centro onde estavam outros artefatos da região. No fundo ouvia-se Remei, Remei, do grupo amazonense Raízes Caboclas, onde entoavam a prece de beiradão: Velho remo, bandeira de rios / Casa de madeira, vela dos meus assobios / Encurtando o estirão / Velho remo, memórias de menino / Pêndulo da minha história / Pá do meu destino / Na palma da mão // Remei, remei / Pra chegar até aqui / Cheguei vou cantar minha alegria / No balanço do banzeiro / Vim cantando esta canção / No meu coração / Paneiro de poesia / Agora juntos num abraço de luz / Pertinho de Jesus.

E continua a música: Cantemos com amor / No compasso das remadas do caminho / Como cantam os passarinhos / Nosso canto é de louvor… Música, reflexão e debate foram um esquenta do que vem por aí. Em janeiro de 2018, segundo a colunista Maria Cristina Fernandes, o chefe da Igreja já tinha, em Porto Maldonado, no Peru, dado nome aos bois da floresta composta por grupos econômicos de petróleo, madeira, ouro e monocultura agroindustrial. E decretado uma jornada contra a direita internacional, entretanto, o avanço dos pentecostais preocupa o Vaticano. Existem muitos evangélicos batizando indígenas, prática do passado em que os missionários realizavam a cristianização. O papel da Igreja Católica é debater, atualmente, a evangelização, a pauta ambiental como a crise ecológica da floresta amazônica e os indígenas.

O Papa Francisco recebeu a entrega da terra amazônica por indígenas que a chamam de lar sagrado, onde vivem um milhão de povos nativos que ali canta, dança e louva a criação divina; a seguir foi chamada a delegação dos migrantes que trouxe a terra dos refugiados; outra equipe de pessoas doou a terra dos locais de tráfico humano que vivem a exploração econômica e sexual; além de extrato de húmos de terra de locais do movimento Fridays For Future, dos jovens da geração Laudato Si; terra de projetos de desenvolvimento sustentável no mundo, terra quem tem sede de justiça e paz, culminando com a mistura da terra do Santuário do Despojamento, de Assis, na Úmbria, Itália.

Sob o pretexto da leseira da invasão da soberania, o governo brasileiro pediu credenciamento, mas a autoridade eclesial negou a participação de governos e políticos. No entanto estes podem participar do sínodo paralelo, mas sem os peritos e auditores que dão credibilidade ao encontro. No final da solenidade ao som da música Canto das Criaturas foi chamada José Cristo de Oliveira e Edmar de Oliveira Vanez, casal de Maués que presenteou o papa com um artesanato elaborado a partir dos frutos do Guaraná. Chamado para a reflexão conclusiva Sua Santidade rezou o Pai-Nosso, encerrando o evento preparatório.

Era visível na Basílica de São Pedro, domingo pela manhã, na missa de abertura do Sínodo da Amazônia, admirar a face indígena, quilombola e cabocla da panamazônia. O Papa Francisco foi o único que se preocupou com os amazônidas a ponto de dedicar um sínodo ao território dos brasileiros esquecidos e hostilizados pela nação e marginalizados por todos os governos nas três esferas de poder. Ele ouviu o Grito da Amazônia, portanto, vamos orar por ele pedindo em nome de Jesus saúde, discernimento e êxito em sua jornada de fé e esperança.

Pragmático como o jesuíta Jódoco Perez que fundou há 336 anos a missão dos Iruri, quando vir a Amazônia não esqueça de visitar a Prelazia de Itacoatiara, no Médio Amazonas, que ainda resiste com suas lideranças.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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