*Zeca Camargo 

Neste fim de ano, resolvi listar alguns crepúsculos mais espetaculares que vivi.

Não é sem um certo constrangimento que admito aqui que eu já bati palmas para um pôr do sol. Aliás, mais de um. Um tremendo clichê, eu sei. Pior: um espetáculo tão ordinário que se repete há milhões de anos.

Mas fato é que já me deslumbrei sim com algo tão “tolo” quanto uma bola de fogo sumindo no horizonte.

E com mais um ano se encerrando, mais um ciclo da vida se completando, veio a imagem de um pôr do sol na memória – e a vontade de fazer essa confissão. Agora, uma vez que assumi essa culpa, posso tentar juntar argumentos para minha defesa?

Não viajo buscando crepúsculos pelo mundo. Eu simplesmente esbarro neles. Vou ver os templos de Angkor, por exemplo, no Camboja – e lá está um bando de turista, como eu, se despedindo de mais um dia. (Rodeados de macacos prontos para saquear sua mochila em busca de comida, é verdade, mas nem por isso o momento é menos solene). Atravesso a ponte de Sully, da ilha de Saint-Louis à Rive Gauche, e lá está uma nesga alaranjada no indecente azul do céu parisiense.

Quando sou surpreendido por um flagrante desses, por mais distraído que esteja, acabo me rendendo a sua beleza. Não há tela de celular, lista de compras, conversa animada nem mesmo beijo romântico que possa competir com um pôr do sol.

Por isso mesmo, neste final de 2018, resolvi listar alguns dos mais espetaculares que vivi. Como aquele em Funafuti, capital de um dos menores países do mundo: Tuvalu. Fui lá fazer uma reportagem sobre a possibilidade de aquele pedaço de terra literalmente sumir do mapa (devido ao aquecimento global) e senti um estranho privilégio ao me despedir de mais um dia naquele paraíso nas próprias águas que um dia engolirão (ou não) aquele lugar.

Tive uma experiência mágica presenciando o momento que o dia dá passagem à noite olhando tudo através de uma estupa majestosa do templo de Borobudur, em Java, na Indonésia – talvez só superada pelo encantamento de ver o desenho que a última luz do dia rabiscava nas colunas do Vale dos Templos em Agrigento, na Sicília (Itália).

Vi o sol da meia-noite em Estocolmo – quando ainda era um mochileiro que sonhava em colecionar impalpáveis troféus como esses pelas minhas viagens. E um esboço de astro rei que mal tinha conseguido nascer e já tinha que se despedir da brevíssima claridade de um dia de inverno em Alta, Noruega.

Lembro das sombras longas das palmeiras de Los Angeles se esticando até sumir no asfalto impecável daquela cidade. Das traves do “quadrado” de Trancoso, na Bahia, esgarçando a geometria de suas linhas no gramado enquanto as crianças jogavam a última bola do dia. E da penumbra grave dos arranha-céus de Manhattan rapidamente sendo desfeita pelas luzes feéricas que brilhavam numa véspera de Natal tipicamente nova-iorquina.

A silhueta improvável de elegantes girafas assinava mais um dia na reserva de Etosha, na Namíbia, antes de outros animais chegarem para beber água na pequena lagoa em frente ao meu quarto no resort.

Também de uma varanda num hotel, vi um barqueiro como que levando a luz embora pelo lago Inle, em Mianmar, o remo entrelaçado na sua perna qual um quinto membro do seu corpo. E mesmo sem precisar ver o próprio sol, eu podia perceber que ele estava indo embora pelo rastro do raio que deixava pela estreita fenda alta na parede de pedra de uma das igrejas de Lalibela, na Etiópia.

As palmas que confessei ter batido acima foram, claro, no Arpoador, a ponta de praia que adora achar que ainda é segredo da orla carioca. E elas teriam ficado por lá se eu tivesse resistido à tentação de batê-las de novo no ano passado em Tanah Lot, Bali – num dos momentos mais plenos e belos da minha vida.

E é esse mesmo pôr do sol que evoco agora – ou ainda vários deles, no seu estranho plural, pores do sol – para acreditar que outros virão com um novo ano. Mais 365, como garante o calendário. Em cada um deles, a promessa de um mundo maravilhoso que sempre estará lá para nos confortar diante de qualquer coisa menor que esses humildes habitantes deste lugar possam pensar em fazer para destruí-lo.

*Jornalista e apresentador; Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Turismo C6, de 27/12/2018.
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