“Embora existam estudos, pouco difundidos, é verdade, tratando da construção do Palácio do Governo, importante prédio que Eduardo Ribeiro estava edificando entre 1892-1896, julgo que a maioria dos leitores não tem conhecimento dos detalhes que o enriqueceriam”. 

No curso de diversas administrações nos vários níveis de governos do País, não raro, temos visto obras que, consideradas importantes por determinada gestão e não concluídas no prazo, passam a ser abandonadas nos governos seguintes ou são demolidas, quase sempre por puro interesse de desqualificação do governante ou visando ao seu enfraquecimento político.

A cidade de Manaus tem um exemplo clássico dessa impropriedade, para dizer o mínimo, ou desse crime contra o erário.

Embora existam estudos, pouco difundidos, é verdade, tratando da construção do Palácio do Governo, importante prédio que Eduardo Ribeiro estava edificando entre 1892-1896, julgo que a maioria dos leitores não tem conhecimento dos detalhes que o enriqueceriam e o colocariam em padrão semelhante ao Teatro Amazonas e ao Palácio da Justiça, alguns dos principais legados do maranhense que tanto se dedicou a nossa terra e nossa gente.

Em 1895, portanto, no penúltimo ano do seu governo, Ribeiro reconhecia que, apesar dos esforços dispendidos e em razão do grande volume de serviços em cur.so, as obras do Palácio não caminhavam mais no mesmo ritmo dos primeiros meses, porém, mesmo assim, as paredes estavam na altura do segundo pavimento, que era o último, e em condições de receber o urdimento metálico de cobertura, o que seria realizado dentre em pouco e “simultaneamente com o emboço e reboco, obras de marcenaria, e de decorações interna e externa.”

Ou seja, conforme seu estilo de trabalho bem evidenciado na construção do Teatro Amazonas, tudo o mais decorreria ao mesmo tempo, visando a sua conclusão em tempo recorde.

De igual modo, cuidadoso com a qualidade das obras e com a apresentação estética e sua inserção na. paisagem urbana da capital, o governador- engenheiro militar -, anunciava que, para embelezamento do imponente prédio, deveriam ser feitas intervenções na vida pública na frente e no corpo central do edifício, “trabalhos que correspondam a sua arquitetura luxuosa e ao fim nobre a que se destina”, e, bem à maneira de tudo o que fez na cidade.

Eduardo Ribeiro havia desenhado um cenário de grandes palácios para a capital amazonense incluindo a sede dos três poderes constituídos Governo, Congresso de Representantes que era a nossa atual Assembleia Legislativa, e o Poder Judiciário, fazendo questão de reunir um quarto poder, aquele que considerava o da transformação da sociedade representado pelas artes, e, por isso, edificou o Teatro Amazonas na mesma região dos demais.

Dentre as muitas e expressivas obras – que Eduardo Gonçalves Ribeiro legou à cidade de Manaus e ao Estado, quando do período de sua gestão, algumas delas não chegaram a ser concluídas como o Palácio do Governo, o qual, na forma de campanha levada a efeito para desconstituir a imagem do “Pensador”, seus muitos opositores resolveram implodir.

E, ainda que não tenham conseguido derrubá-lo, inteiramente, deixaram os seus restos abandonados por longos anos, até que fosse recomposto, em parte e para outros fins, passados diversos governos e quase não mais se falasse no criador.

Não fosse o peso do desgoverno dos sucessores imediatos de Ribeiro, seja Fileto Pires Ferreira, José Cardoso Ramalho Júnior e principalmente Silvério José Nery, Manaus poderia ostentar mais uma das grandes intervenções urbanas que a embelezam e qualificam, e, o Estado não teria sido obrigado a adquirir o Palacete Scholz e, depois, a edificar modernas instalações sem representatividade arquitetônica para sediar o Poder Executivo.

Estas são marcas que nos perseguem, basta olhar pelo retrovisor da história.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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