No final do século XIX para começo do seguinte, a capital amazonense ganhou vários epítetos, alimentava-se de utopias. O boom da borracha transformara a antiga aldeia dos Tarumã na cidade do fausto e dos mitos – segundo Euclides da Cunha (1866-1909), uma cidade “meio caipira, meio europeia”. Além do Teatro Amazonas, dos belos palacetes que enfeitavam seu sítio urbano e do porto construído em cais flutuante, acompanhando o nível das águas do Rio Negro, havia a vocação comercial permitindo exportar para a Europa e os Estados Unidos os frutos extraídos do rio e da floresta, e importar, daqueles mercados, tudo o que era consumido na cozinha, no vestuário, nas construções e na mobilidade urbana e rural.

A elite da capital vivia no fausto. O seringalista era o patrão – comenta o acadêmico Márcio Souza – “o dono e senhor absoluto da vida amazonense. Ele era o cavaleiro citadino em Manaus e o patriarca feudal no seringal (…). Em Manaus, imensas somas de dinheiro corriam livremente. Enquanto isso, terrivelmente isolado, escondido no infinito emaranhado dos rios, o seringueiro vivia nas mais degradantes condições de vida e de trabalho. Era aparentemente livre, mas a estrutura concentradora do seringal o levava a se tornar um escravo econômico e moral do patrão” (in “Breve História da Amazônia”, São Paulo, 1994).

Na lição do acadêmico Antônio Loureiro, “esse tempo áureo do domínio da borracha natural silvestre, extraída nos seringais amazônicos, terminaria pelos idos de 1912, mercê da participação crescente da borracha natural plantada racionalmente no Oriente”, com mudas contrabandeadas da Amazônia. “A Grande Crise de 1908 a 1916, atingindo uma matéria-prima vital para a saúde da economia brasileira – a borracha, traria em seu bojo a efervescência política que caracterizou aqueles anos, desembocando nas sucessivas rebeliões do tenentismo” (in “A grande crise”, Manaus, 1986). O inquietante é que, decorridos mais de cem anos da derrocada da borracha, continuamos amarrados a uma situação de dependência econômica e a instituições político-sociais que, não sendo as mesmas da época colonial, não são também as de Estado-membro de um País capitalista avançado e moderno.

A existência da Academia Amazonense de Letras é uma história em construção. Ninguém mais desconhece o seu papel. Uma certeza acompanha a realização do ciclo de palestras coordenado pelo acadêmico Zemaria Pinto, ora em curso: a Casa de Adriano Jorge é a mais importante instituição cultural do nosso Estado. No iniciar dos anos 1900 foi fundada por um grupo de jovens, motivados – segundo o falecido acadêmico Genesino Braga (1906-1988) – “por um sentido construtivo de espiritualidade e pesquisa intelectual, debaixo da fascinante atração” imposta pela euforia da borracha. Era um grupo de “recém-formados, advogados, médicos, engenheiros, dentistas, farmacêuticos, agrônomos e militares”, nativos da região e/ou chegados dos mais diversos quadrantes do País, ansiosos por movimentar a provinciana Manaus que “vinha se emoldurando de um pronunciado gosto no campo da cultura, entre os ângulos diversos da administração e da sociedade” (in “Nascença e vivência da Biblioteca Pública do Amazonas”, Belém, 1957).

Esses fundadores penetraram em nossa história com a modéstia de trabalhadores intelectuais. Igualmente a seus patronos escreveram belas páginas sobre a evolução política, social, econômica e cultural da Amazônia e do Brasil. Sua lembrança vai ao encontro das ideias do pensador francês Maurice Halbwachs (1877-1945), ao argumentar que “cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva” (in “A memória coletiva”, Paris, 1968).

Feitas estas iniciais considerações, posiciono-me a convite do honrado presidente Armando Andrade de Menezes, para discorrer sobre o personagem-título da Cadeira que por eleição coube-me nesta Casa e na qual fui empossado substituindo ao filólogo padre Raimundo Nonato Pinheiro (1922-1994), justo na sessão solene de 14 de abril de 2000, sob a presidência do acadêmico Max Carphentier e recepção do acadêmico Robério Braga.

Dita Cadeira foi fundada pelo acadêmico José Chevalier (1882-1940), originariamente com o número 03, sob o patronato do jurista Affonso Arinos (1868-1916) e, conforme registrado pelo acadêmico Almir Diniz (in “Dicionário Biográfico Imortais do Amazonas”, Manaus, 2002), foi “posteriormente transformada em 20, sendo seu atual patrono o filólogo João Ribeiro”.

Foi João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes um dos polígrafos mais fecundos da cultura brasileira. Mais conhecido como João Ribeiro, nasceu em Laranjeiras/Sergipe em 24 de junho de 1860 e faleceu no Rio de Janeiro aos 13 de abril de 1934. Era o segundo filho de Manuel Joaquim Fernandes e de Guilhermina Ribeiro Fernandes. Órfão de pai muito cedo, foi residir em casa do avô Joaquim José Ribeiro, um liberal, admirador de Alexandre Herculano (1810-1877) e proprietário de excelentes coleções de livros, que o influenciou positivamente em sua formação espiritual e moral.

João Ribeiro concluiu o ensino primário em sua cidade natal e os estudos de nível secundário em Aracaju/SE. Transferido em 1880 para Salvador/BA, matriculou-se na Faculdade de Medicina. Constatando falta de vocação, no ano seguinte abandonou o curso e embarcou para o Rio de Janeiro onde ingressou na Escola Politécnica. Simultaneamente continuava a estudar arquitetura, pintura, música, literatura e filologia. Em 1894 bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito da antiga capital federal. Além de jornalista, foi pintor e tradutor.

Desde 1881 João Ribeiro dedicou-se ao jornalismo e fez parceria com Quintino Bocaiuva (1836-1912), José do Patrocínio (1854-1905) e Alcindo Guanabara (1865-1918) – os maiores representantes da categoria, à época. No Rio de Janeiro, trabalhou nos jornais “O Globo” (1881), “A época” (1887-1888) e “Correio do Povo” (1888). Também escrevia para a Revista “A Semana”, de Valentim de Magalhães (1859-1903), ao lado de Machado de Assis (1839-1908), Lúcio de Mendonça (1854-1909) e Rodrigo Octavio (1866-1944), entre outros. Apaixonado pelos assuntos da filologia e da história, desde 1881 exerceu o magistério em colégios particulares. Entre 1885 e 1890 foi oficial da Biblioteca Nacional e, em seguida, professor de História Universal no Colégio Pedro II. Também lecionou na Escola Dramática do Distrito Federal, onde ainda estava em exercício quando faleceu.

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aos congêneres de Sergipe, São Paulo e Rio de Janeiro e ao Instituto Filológico Brasileiro. Em 1897, ao criar-se a Academia Brasileira de Letras estava ausente do Brasil e por isso não foi incluído no quadro de seus fundadores. Todavia, foi o segundo ocupante da Cadeira nº 31, eleito em 08 de agosto de 1898, na sucessão de Luís Guimarães Júnior (1845-1898), e recebido em 30 de novembro de 1898 pelo acadêmico José Veríssimo (1857-1916). Na Instituição destacou-se como um dos principais promotores da reforma ortográfica de 1907. Em 22 de dezembro de 1927 foi eleito presidente, porém, apresentou imediatamente sua renúncia ao cargo.

Coincidindo com a entrada de João Ribeiro no Colégio Pedro II – segundo a preleção do professor Roosevelt Araújo da Rocha Júnior, da UFPR – “no Rio de Janeiro estava em marcha o processo de valorização do método histórico-comparativo aplicado ao ensino das línguas, especialmente da vernácula – uma verdadeira Renascença dos estudos filológicos no Brasil”, sob a influência de autores alemães e franceses. “A partir de então, os intelectuais começam a introduzir na linguística o critério experimental e positivo e rompem com a tradição e a rotina dos antigos gramáticos portugueses”. Portanto, fazendo-se necessário livrar o estudo da língua dos velhos defeitos e remodelar o aprendizado das humanidades, dando-lhe uma nova orientação, mais segura e mais consoante com as necessidades da época – o governo mandou remodelar o plano de ensino dos cursos preparatórios. A essa orientação aderem os filólogos Fausto Barreto (1852-1908), Alfredo Gomes (1859-1924) e o próprio João Ribeiro – cujas gramáticas ganham notoriedade e rapidamente são adotadas pelos professores de língua portuguesa. “João Ribeiro – completa Araújo Rocha Júnior – levará seus interesses a fronteiras mais largas. Suas gramáticas deram uma contribuição decisiva para a disseminação e a vulgarização das novas doutrinas, por causa do reconhecimento que seus trabalhos alcançaram” (in “João Ribeiro: entre história, gramática e filologia”, 2007).

Em 1895 realizou sua primeira viagem à Europa, em missão oficial, como representante do Brasil no Congresso de Propriedade Literária, realizado em Dresden. Permaneceu um ano na Alemanha. No exercício seguinte, participou do Congresso de Catálogo das Ciências, promovido pela Sociedade Geográfica de Londres. Retornou à Europa em 1901, como assessor da Delegação presidida pelo diplomata Joaquim Nabuco (1849-1910), encarregada das negociações do litígio anglo-brasileiro na questão da Guiana. Em 1914 João Ribeiro seguiu pela última vez para a Europa, onde pretendia fixar residência definitiva, estabelecendo-se em Genebra, Suíça. A eclosão da Primeira Guerra Mundial forçou-o, entretanto, a retornar ao Brasil. Mesmo na Europa, mantinha-se em contato com seus leitores brasileiros através de colaborações no “Jornal do Comércio” e no “O Dia”, de São Paulo. No matutino carioca “Jornal do Brasil”, desde 1925 até à morte, escreveu crônicas, ensaios e crítica.

Em 1911, fora nomeado para reger o ensino de sintaxe portuguesa do Pedagogium – Museu pedagógico brasileiro criado em 1890, segundo o modelo francês. Então, na área da educação brasileira a influência francesa era extremamente significativa. No campo das inovações pedagógicas, muitos autores franceses foram traduzidos pela elite intelectual no nosso País. A necessidade de um embasamento científico para o desenvolvimento da educação fez com que muitos estudiosos brasileiros se apropriassem das ideias gestadas na França.

João Ribeiro possuía larga cultura humanística e era versado nos clássicos de todas as literaturas. Sua sensibilidade estética o fazia inclinado a valorizar os aspectos técnicos, estruturais e formais da obra literária, embora fosse um crítico impressionista, com tendência à tolerância e estímulo aos autores, sobretudo os novos. Como poeta, cronista, crítico literário, historiador, moralista e filólogo, deixou obra vasta – onde se destacam: “Gramática portuguesa” (1887), “Estudos filológicos” (1887), “Dicionário gramatical” (1889), “História do Brasil” (1900), “Páginas de estética” (1905), “Frases feitas I” (1908), “Frases feitas II” (1909), “Fabordão” (1910), “A língua nacional e outros estudos” (1921), “Notas de um estudante” (1921), “Colmeia” (1923), “Cartas devolvidas” (1926), “Curiosidades verbais” (1927) e “Florestas de exemplos” (1931). Suas conferências reunidas sobre o tema resultaram na edição de “O folclore, estudos de literatura popular”, e sua produção poética consta dos livros “Tenebrosa lux”, “Dias de sol”, “Versos” e “Avena e cítara”. Traduziu “Cuore” (“Coração”), de autoria do escritor italiano Edmondo De Amicis (1846-1908), cujo título na década de 1930 já alcançara a 40ª edição em português.

Sua obra “História do Brasil”, originalmente prefaciada por Araripe Júnior (1848-1911), é modelo de concisão e uma das mais lúcidas interpretações da vida nacional, sobretudo no período colonial, assinalando a contribuição do indígena e do negro na formação brasileira. Ainda de acordo com o professor Araújo Rocha Júnior, esta obra foi um ‘divisor de águas’ na bibliografia sobre a história brasileira, “até então marcada pelo registro único das alterações políticas ou abordagens restritas da chamada ‘história política’ com visão centrada no estado e nas disputas de poder”. Ribeiro foi o primeiro a introduzir no Brasil a Kulturgeschichte (História cultural). A adoção da teoria alemã em nosso País, além da ruptura com o passado, propiciou que esse ramo da ciência perdesse o rótulo de “história dos governantes” passando a “história natural do povo brasileiro” (in obra citada).

A imagem de polígrafo é condizente com João Ribeiro porque ao longo de sua vida ele escreveu acerca de matérias diversas, em grande parte versando sobre a construção nacional, principalmente através do saber historiográfico e linguístico. Sua produção foi tão abundante que a edição completa de suas obras organizadas por Múcio Leão (1898-1969), a partir de 1952, para a Academia Brasileira de Letras, chegou a 59 volumes. Destes, 24 haviam sido editados em vida do autor; os outros 35 foram ordenados a partir do recolhimento de um amplo material que estava disperso por vários jornais e revistas.

As primeiras iniciativas para a publicação desse rico acervo ocorreram nos anos 1940, possivelmente por entusiasmo pela proximidade do aniversário de uma década da morte do escritor. Entre 1941 e 1945, Múcio Leão proferiu discursos e publicou em jornais e revistas textos sobre João Ribeiro. Na década de 1950, a Academia Brasileira aceitou publicar seus trabalhos que, como dito antes, saiu aos poucos de acordo com as conveniências do momento e dos recursos financeiros.

Finalmente, os ventos soprariam favoráveis por ocasião das comemorações dos 100 anos do nascimento de João Ribeiro. “A tradição intelectual, ávida por fenômenos comemoráveis, deu ensejo a novos empreendimentos editoriais das obras do mestre” – di-lo o escritor mineiro Rogério Rosa Rodrigues (in “João Ribeiro e a historiografia brasileira: percursos e perspectivas”, Ouro Preto/MG, 2011). Naquela ocasião, o livro “História do Brasil: curso superior” ganhou versão ampliada e comentada por Joaquim Ribeiro (1907-1964), filho do autor. Na série “Nossos clássicos”, a Editora Agir, dirigida por Alceu Amoroso Lima (1893-1983), Roberto Alvim Corrêa (1901-1983) e Jorge de Sena (1919-1978), convidou Múcio Leão para organizar o volume intitulado “João Ribeiro: trechos escolhidos”. No mesmo ano, saiu pela Livraria São José nova edição da obra de ficção denominada “Cartas devolvidas”, cujo prefácio outra vez coube a Joaquim Ribeiro. Por fim, o empreendimento dessa editora confluiria para algo próximo a uma biografia intelectual do mestre elaborada por Múcio Leão e publicada em 1962.

Polígrafo era a condição de João Ribeiro e da maior parte dos intelectuais de sua época (final do século XIX e início do XX). Porque escrever sobre matérias diversas era parte do esforço coletivo de criar um saber próprio sobre o País. Talvez, por isso, na apresentação de uma nova edição do livro “A língua nacional”, Antônio Houaiss (1915-1999) afirmou “que entre nós João Ribeiro é tido como polígrafo fascinante” (in “João Ribeiro redivivo”, Petrópolis, 1979). Para o nonagenário Antônio Cândido “poucas literaturas têm sido tão conscientes da sua função histórica, em sentido amplo. Os escritores neoclássicos são quase todos animados do desejo de construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus; mesmo quando procuram exprimir uma realidade puramente individual, segundo os moldes universalistas do momento, estão visando este aspecto (…). A ideia de contribuir para construção nacional pode ser estendida para a produção de outros intelectuais que se dedicavam a outras esferas do saber, por exemplo, à história e ao estudo linguístico, como foi o caso de João Ribeiro” (in “Formação da literatura brasileira”, volume I, Belo Horizonte, 2002).

No que tange à divulgação e à preservação da memória de João Ribeiro, é possível destacar o livro “Nove mil dias com João Ribeiro” que seu filho, Joaquim Ribeiro, escreveu e publicou no ano da morte do escritor. Nessa obra, editada pela Record – segundo Rogério Rosa Rodrigues – “é perceptível o esforço do autor para reabilitar a imagem do mestre de todas as críticas que sofrera em sua trajetória profissional, tanto quanto para lançar um sopro de leve candura humorística a seu perfil” (in obra citada).

Em correspondência de Capistrano de Abreu (1853-1927), escrita a um amigo em 1920, há menção à fama de João Ribeiro mal humorado e afeito a querelas intelectuais. As críticas possuem fundamento, mas Joaquim Ribeiro procura apagar tais impressões. “Como antídoto para o João ranzinza e brigão, por exemplo, Joaquim apresenta o João voltado para as artes, complacente com os novos escritores e crítico da ortodoxia gramatical. Contra o João metódico e totalmente mergulhado no universo intelectual, pincela um sujeito distraído e generoso…” (in obra citada).

Por outro lado, no concernente à biografia que Múcio Leão escreveu sobre João Ribeiro, foram construídos aproximadamente “15 perfis do amigo e mestre distribuídos em 291 páginas, entre eles, os de pintor, viajante, memorialista, acadêmico, crítico, erudito e ensaísta (…). As fontes utilizadas revelam a intimidade do autor com os textos jornalísticos, correspondências, projetos e depoimentos de e sobre João Ribeiro”. No referido livro “não se encontra o zelo verificado [no de] Joaquim Ribeiro de forçar um perfil ‘voltairiano’ para o mestre”. Ao contrário: “Seu João é mais multifacetado e, em alguns momentos, contraditório. Sequer aparece fazendo tantos gracejos. Investe-se na imagem do escritor versado em humanidades. Sobre o poeta, filólogo, romancista e folclorista João Ribeiro, sobressai o crítico e ensaísta, o precursor do modernismo…” (cf. livro de Rogério Rodrigues, citado).

Nos 20 últimos anos do século XIX, o Brasil foi sacudido por mudanças abruptas na política: a Proclamação da República, a disputa entre radicais e monarquistas, a Revolta da Armada e a Guerra de Canudos agitariam o Rio de Janeiro e todo o País. Isso para ficar apenas no final do século XIX, uma vez que no século XX, em especial o período da década de 30, a situação não seria menos agitada. A despeito da vida na capital federal impor posicionamentos, desde sua chegada ali João Ribeiro procurou manter distância da política. Ainda que não tenha participado das reuniões promovidas pelas elites políticas, tampouco deixou de conviver com intelectuais notórios. Na atividade jornalística certamente manteve contato com homens para quem a convicção política era bandeira desfraldada. Como afirmei antes, atuou em parceria com o republicano histórico Quintino Bocaiuva, o jornalista e político Alcindo Guanabara e o abolicionista José do Patrocínio. Na Academia Brasileira conviveu com políticos atuantes, sem contar a amizade e parceria que estabeleceu com um dos mais polêmicos e politizados intelectuais do seu tempo, Sílvio Romero (1851-1914).

Embora seus biógrafos Joaquim Ribeiro e Múcio Leão silenciem sobre o assunto, João Ribeiro foi militante em prol da Proclamação da República. Ele atuou na imprensa carioca com artigos favoráveis a Floriano Peixoto (1839-1895). No entanto, uma década depois se confessou monarquista. A escritora paulista Patrícia Santos Hansen reproduz fragmento de uma carta enviada por ele a um amigo, dias após a instauração do novo regime, em que declarava: “Sou republicano antigo, bem o sabes; mas hoje há tantos republicanos que tenho quase vergonha de declarar-me tal”. Acompanhando a mudança do seu posicionamento politico, a referida autora acerta no diagnóstico ao listar João Ribeiro na fileira dos decepcionados com os rumos republicanos. Escreve: “[…] seria ao longo do período correspondente ao governo de Prudente de Morais, de 1894 a 1898, que nosso autor iria tornar-se cada vez mais cético e pessimista” (in “João Ribeiro, historiador”, São Paulo, 2000).

Isso resultou provado, realmente ocorreu. Por volta de 1907, questionado sobre o estado da prosa e da poesia contemporâneas, João Ribeiro deixa escapar certa desilusão com o universo intelectual do Brasil. Afirma depositar esperanças em novos prosadores e, sem citar nomes, confessa não ver futuro na poesia do momento. “Prefiro ler um anúncio de leilão a um soneto”. Ao longo do depoimento, embora se demonstre cauteloso, desabafa: “Já transpus os limites da discrição, e numa sociedade primitiva e guerreira como esta, democracia pela força das coisas, mas sem nenhuma educação liberal, e em que a regra é eliminar os discordantes, com o que disse já estou muito mal parado”. A propósito desse desafogo do mestre, Lúcia Lippi Oliveira observa: “Difícil não reconhecer nessa observação uma crítica ao momento político do Brasil, em especial à política oligárquica que tomava conta do País decepcionando diversos intelectuais que apoiaram o novo regime” (in “A questão nacional na Primeira República”, São Paulo, 1990).

Na tentativa de elucidar o justo papel de João Ribeiro na cultura brasileira, retomei o antigo hábito da pesquisa biobibliográfica. Acredito que o estudo da interseção entre o “João Ribeiro filólogo” e o “João Ribeiro historiador” pode ser um bom caminho para demonstrar a importância deste sergipano na cultura nacional. Sobretudo, quando o analisamos dentro do processo da construção do nosso País, a partir de seus escritos sobre as questões relacionadas à língua e à história nacional, no contexto cultural brasileiro desde final do século XIX ao início do XX.

Na construção das biografias de Joaquim Ribeiro e Múcio Leão, acerca desse grande brasileiro, além de fatores subjetivos pesaram questões singulares ao próprio tempo de suas respectivas produções. Talvez motivado pelos laços de sangue, Joaquim foi levado a construir o perfil de um intelectual cheio de gracejos, em oposição ao semblante amargurado e gênio voluntarioso pintado pela sua geração. “Na década de 1930 urgia fixar a imagem do homem irreverente e bem humorado. Em 1960 buscava-se prolongar a memória do intelectual, do acadêmico, do homem que soube reconhecer os modernistas e possuía uma formação universal” (in Rogério Rosa Rodrigues, citado).

Pois esse homem de formação universal, multifacetado na arte literária, como que revisitando seus procedimentos de pesquisa e destacando seu diálogo com as linhas de força da produção historiográfica, do ensaio e da crítica, também enveredou para os assuntos da Amazônia. Três ensaios do seu livro “Colmeia”, segunda série, editado originalmente em 1923, reportam temas desta região:

a) As amazonas. Assunto das páginas 57/65. João Ribeiro assim disserta: “Figuras lendárias que [Francisco] Orellana [1511-1546] combateu. As amazonas existiram, e, o que é mais e melhor, há uma vontade surda, difusa e universal, de voltarem de novo. De vez em quando sentimos os calafrios lampos e temporãos da formidável renascença que augura a volta de todas elas (…). O que nos importa saber é o quinhão que nos cabe no amazonismo. Temos também a sementeira desses viragos se não mentem os velhos cronistas e viajantes. O capitão Orellana, espanhol, foi talvez o primeiro que lá as viu, no rio-mar, desenvoltas, varonis, guerreiras e invencíveis”.

b) Sobre índios. Inserto às páginas 70/79. Afirma que não se envergonhava deles. Cita o etnógrafo alemão Theodoro Koch-Grümberg [1872-1924] “que gastou muitos anos a se embrenhar nas florestas e a visitar as terras impérvias do Brasil”. Ao referir o naturalista inglês Alfred Russel Wallace [1823-1913], pede aos brasileiros “para que melhor se informem sobre índios, demonstrando de tal sorte que amam a sua terra e guardam com fervor o culto da tradição de todas as raças que aqui formaram o corpo e o espírito da nacionalidade”.

c) Brasil caboclo. Páginas 167/174: “O caboclo é o [tipo] mais lógico e coerente com a terra americana”. Enaltece o caboclo e reporta Lope de Vega [1562-1635], poeta espanhol, autor da comédia intitulada ‘El Brasil restituído’, “…é a primeira vez, na grande literatura, que o Brasil figura simbolicamente com um caboclo (…). O romantismo de Gonçalves Dias [1823-1864] e [José de] Alencar [1829-1877] prolongou a predileção ‘de sermos todos caboclos’ com as Iracemas, Jacys, Aracys. Ninguém queria ser preto, todos queriam ser caboclos (…) ‘El Brasil restituído´ foi o primeiro documento literário do símbolo nacional do caboclo, tanto quanto alcançamos saber, pois que data do século XVII (…). O que nos parece mais digno de nota é esse Brasil caboclo de Lope de Vega que profeticamente precede de dois séculos o caboclismo da Independência”.

d) Alfred R. Wallace. Tema das páginas 175/182. Comenta: “O livro de viagens de Wallace no Brasil respira alegria e entusiasmo, pela floresta virgem (…). Um dos tipos mais curiosos, que Wallace conheceu no deserto foi o de um frade, bon vivant, pouco amigo da sua religião. Frei José dos Santos Inocentes, que Wallace encontrou no alto Rio Negro, era um pândego, contador de histórias livres ou obscenas, má língua, mas alegre e espirituoso. Ninguém como ele conhecia as anedotas picarescas em que entravam os mais graves personagens da província [do Amazonas]. E arremedava os tics, a fala e o sotaque das pessoas. Mercê de suas operações eclesiásticas, vivia entre os índios de ética indiferente a esses desvarios. Casava, batizava, convertia e, nas horas vagas, biblicamente multiplicava o gentio com a mesma fecundidade do seu gênio anedótico e bocagiano. Respeitava muito a sua batina, dizia sempre; mas costumava acrescentar, olhando sobre os olhos, de dia. De noite, frei José naturalmente perdia o tom e a cor, como todos os gatos. Era assim este apóstolo do Rio Negro”.

Conclúo, senhor presidente, trazendo a plenário a seguinte informação:

Como homenagem ao grande João Ribeiro, seus conterrâneos da cidade sergipana de Laranjeiras mantêm a CASA DE CULTURA JOÃO RIBEIRO. Inaugurada em agosto de 1974 e mantida pela Secretaria Estadual de Cultura, funciona em um prédio colonial onde o polígrafo nasceu e viveu, por algum tempo, com sua família. Seu objetivo é preservar o acervo documental, bibliográfico e artístico do homenageado, além de ser fonte de pesquisa, estudo, informação e lazer. O acervo registra a vida pessoal e profissional de João Ribeiro. São correspondências, recortes de jornais, livros, fotografias, condecorações, diplomas e obras de arte doadas por sua filha, Emma Luzia Ribeiro Aciolly, em nome da família.

Induvidosamente, um belo exemplo a ser copiado por tantas outras cidades brasileiras em relação a seus vultos históricos – inclusive do Estado do Amazonas.

Oxalá que, entre nós, um dia venha acontecer.

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