Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

As pessoas gozam com a morte, e ficam excitadas quando autorizadas a odiar, a temer e a desconfiar.

E quem disse que as pessoas leem e entendem tantos artigos que descrevem em detalhes as patologias que levam o paciente infectado pela Covid-19 a óbito? Não entendem, mas 
gozam morbidamente.

Imagine pessoas comuns ouvindo toda hora que tudo pode ser sintoma do novo coronavírus. Imagine a Organização Mundial da Saúde dizer que é mais seguro masturbação do que sexo com outra pessoa.

Imagine ainda as pessoas, na rua, atravessando para o outro lado com medo do pestilento que vem em sua direção. Imagine a proibição definitiva do beijo na boca como sendo algo semelhante a colocar a boca numa privada. A boca da morte ri por toda a parte.

Hoje ninguém está seguro. O novo normal (essa expressão idiota) é, seguramente, um mundo em que os paranoicos e os hipocondríacos venceram. Agora eles têm uma coleção de justificativas científicas para o seu gozo com a morte.

A ciência provou que a paranoia diante do mundo é a ação mais sustentável epidemiologicamente. Você acha que defendo a delinquência? Não. Há mais coisas entre o céu e a terra do que pensa a nossa vã estupidez polarizada.

Quando alguém se pergunta “por que o entregador de delivery não tem o mesmo direito de ficar em casa que nós da classe média para cima?”, saiba que você está diante de um mentiroso ou de um sádico. Esse cara que faz delivery trabalha porque precisa comer. Você pede comida remotamente? Pois então, ele é parte do seu aplicativo revolucionário. Se não fizer entregas, morre de fome. O gozo com a morte nos deixa cínicos.

Sigmund Freud (1856–1939) publicou seu “Além do Princípio do Prazer” em 1920. O conceito de pulsão de morte ali descrito é uma grande chave de leitura para a nossa época.

A morte está na ordem do dia como objeto de gozo. A pulsão de morte goza onde o ser é destruído, seja pela violência, seja pela paralisia. Quanto mais paralisado o mundo, mais gozo com a morte. O capital sorri enquanto se especializa numa sociedade mediada pela pulsão de morte. Todos com inseticidas à mão.

A política goza com a epidemia. A mídia goza com a epidemia. As ciências gozam com a epidemia. Os empresários gozam com a epidemia, pensando em como eliminar elos na cadeia produtiva sendo criativos! O incapaz de penetrar uma mulher goza com a epidemia, a mulher amarga com tudo goza com a epidemia. O deprimido finalmente tem razão para o seu estado de espírito.

O contrato social atual, como sempre ocorre em crises sanitárias graves na história, privilegia os vícios, a covardia, o abuso e os impulsos mórbidos. O contrato agora é permeado pela pulsão de morte como gozo social: Tânatos é a sua substância, e não Eros.

Os hipocondríacos ganharam a batalha pelo modus vivendi. O mundo será tão seguro quanto a morte é, eternamente fora de qualquer risco.

A profusão de textos e vídeos sobre métodos de segurança é impressionante. Suspeito que escorra uma baba pelo canto da boca de quem goza lendo-os e assistindo.

De agora em diante, toda pessoa perto de você é uma inimiga. Não só as pessoas, mas as maçãs também são inimigas. Tampouco ouse olhar uma criança, pois logo irá se descobrir que o coronavírus também é transmitido pelo olhar.

A fronteira entre a paranoia e o cuidado é o excesso de cuidado da paranoia. Freud já nos dizia que o superego, 
“órgão psíquico” da moral, 
se alimenta de pulsão de morte. A moral tortura.

Os tempos em que vivemos provam isso de forma evidente, com o casamento das normas sanitárias vigilantes com o medo. Talvez Freud, que atravessou a Primeira Guerra e a gripe espanhola, pandemia que matou uma das suas filhas, tenha percebido esse detalhe -e o gozo está no detalhe: as pessoas gozam com a morte.

Elas ficam especialmente excitadas quando autorizadas a odiar, a temer, a desconfiar, trair, a proibir. Fosse o vírus um exército de ocupação, o colaboracionismo seria total. 
Você duvida?

A pulsão de morte reina sozinha no novo normal, faz selfie, live, brandedcontent, novos negócios. Como sempre, ela, a pulsão de morte, busca o repouso no inorgânico. Irônico que, apesar de tanto se falar em salvar vidas, seja justamente a morte que goza mais do que tudo nesse nosso novo normal.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 25/05/2020.
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