*Sergio Rodrigues

Somos um país nauseado entre a metáfora, metátese e a metástase.

O nojo e o enjoo são flores nauseabundas do mesmo arbusto. Na verdade, pode-se até dizer que, em suas formas verbais, foram um dia a mesma palavra.

Enojar e enjoar se diferenciaram por metátese, fenômeno linguístico que consiste na troca de lugares entre fonemas ou sílabas dentro de uma palavra.

O deslocamento sonoro pode se dar entre línguas (o latim “semper” virou “sempre”), mas também dentro do mesmo idioma, como em certas formas do português não padrão (“tauba”, “estrupo” e muitas outras).

Há ainda os casos que foram assimilados pela língua culta, como o de aloprado, termo popularizado por Lula em 2006, no episódio em que petistas foram pegos comprando um dossiê contra José Serra.

Aloprado (“maluco, desatinado”) é uma variante do menos conhecido alorpado (“que tem características de lorpa, palerma, imbecil”).

Hora de voltar aos primos nojo e enjoo. Seu antepassado comum é o verbo latino “enodiare”, dentro do qual encontramos “odium”, ódio, aversão.

Supõe-se que o verbo tenha sido criado a partir da expressão “esse in odio alicui”, estar aborrecido com algo ou alguém.

Nojo e enjoo são o que se chama tecnicamente de derivações regressivas, substantivos formados a partir de verbos (como compra de comprar).

O primeiro deriva de enojar, filho evidente e preferido do latim “enodiare”. O segundo, de enjoar, seu irmão metatético e diferentão.

Os primeiros sentidos que nojo teve no português do século 13 estão esquecidos, mas ainda iluminam: tristeza profunda e luto.

Nem um século se passou e o nojo já tinha conseguido ficar mais sombrio ainda: na altura em que Cabral chegou ao Brasil, trazendo o vírus da língua, a palavra era usada também para nomear aquilo que fere, que causa dano. Outros de seus sentidos hoje esquecidos são tédio e constrangimento.

O enjoo nasceu muito tempo depois, no início do século 18, e ao contrário do primo mais velho não tem acepções caídas em desuso. Sempre deu nome à náusea, e daí em sentido figurado à repugnância, à aversão, ao entojo.

Embora sejam sinônimos, o que significa que dão match em pelo menos uma de suas acepções, o nojo e o enjoo têm, como se sabe, personalidades semânticas distintas.

Nojo é, antes de mais nada, asco, uma palavra que acessa o desgosto mais visceral que sentimos diante de sujeira, de barata, de vermes.

Inegociável e urgente, talvez por isso seja uma metáfora de julgamento moral aplicada há tempos à esfera pública. O Houaiss dá como exemplo esta frase: “Os métodos de alguns políticos dão nojo”.

Enjoo é bicho mais matreiro, para não dizer enjoado. Pode revirar as tripas, como ocorre com frequência em alto-mar, mas também acometer quem, por amar demais, abusou da comida que já não suporta: “Enjoei de manga”.

Peço perdão ao leitor que possa ter achado excessivo o mergulho etimológico de hoje, mas tenho bons motivos para refletir sobre os meandros do nojo e do enjoo.

O depoimento falso prestado à CPMI das Fake News pelo ex-funcionário da Yacows, agência de disparos em massa por WhatsApp, poderia ser apenas uma mentira, mais uma de uma longa série.

Dá nojo profundo pela calúnia contra a jornalista Patrícia Campos Mello e pela exploração orquestrada e misógina da mentira, rapidamente ecoada pelo deputado Eduardo Bolsonaro e multidões humanas e robóticas nas redes sociais.

O Brasil precisa decidir quando vai enjoar do nojo. Antes, espero, que a metátese vire metástase.

*Escritor e jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, de 13/02/2020.
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