Com o esgotamento da economia da borracha, observado a partir da primeira década do século passado, por volta de 1910, agitaram-se na Região outros ciclos econômicos que foram marcando a vida dos amazônidas.

O suporte econômico permaneceu no extrativismo, subsidiado pela cultura das fibras vegetais, a juta e a malva, e da pimenta do reino. O extrativismo tradicional acentuou-se nas atividades madeireiras, na produção de óleos e essências vegetais oriundos de fontes como o pau-rosa, a copaíba, a andiroba, na exploração da caça e de peles de animais silvestres ainda não proibidas por lei, na coleta da castanha, do cumaru, na extração do leite da sorva, da ucuquirana e nos produtos da pesca.

Aos poucos a economia regional estabilizou-se e a cidade de Manaus, o maior centro urbano da Amazônia Ocidental, permaneceu conservando o charme e a vida requintada, fruto da conquista dos seus melhores dias.

A sociedade amazonense havia absorvido as populações que vieram de outros Estados, atraídas pelo fascínio da borracha. De tal forma que tais lideranças passaram a dominar a cena social e política do Estado, nesse tempo representado por toda a área, incluindo os atuais Estados de Rondônia, Roraima e Acre, que ainda não existiam como unidades políticas autônomas.

No interregno de cerca de cinquenta anos, decorridos do esgotamento do ciclo da borracha à adoção da política de incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, em 1967, verificaram-se, naturalmente, acontecimentos marcantes na vida regional.

Escolho, para reflexão no exame da matéria, dois desses eventos significativos do período, um de ordem política, o movimento nativista liderado por Álvaro Maia[1], em 1923, e outro de natureza econômica, a fundação da Companhia de Petróleo da Amazônia – COPAM, criada sob o comando de um empresário de gênio, o Sr. Isaac Sabbá[2], em 1956.

O movimento nativista, conhecido por glebarismo, cresce com a liderança de um grupo de jovens sob a inspiração de Álvaro Maia. O motivo era comemorar o centenário de Adesão do Amazonas à Independência, ocorrido um ano após o acontecimento do fato histórico do grito do Ipiranga, quando chegou a notícia a Manaus, simplesmente por causa das distâncias que separavam a Amazônia dos centros decisórios do país, Rio de Janeiro e São Paulo, e pela carência dos meios de comunicação da época.

Mas, na prática, o movimento glebarista detinha o sentido real de mobilizar as inteligências e levá-las a assumir, com maior vigor, os destinos do seu povo. Quem sabe não foi essa a repercussão no extremo Norte do movimento paulista de 22, a célebre Semana de Arte Moderna que, por sua vez, se organizara para comemorar o centenário da Independência?

Foram movimentos semelhantes no impulso de sua realização, mas diferentes em parte de sua essência. Senão vejamos. No interior do movimento de 22 em São Paulo, ramificavam-se várias tendências e fortes correntes nativistas, aglutinadas nos grupos Anta e Verde-Amarelo, o mesmo espírito nativista animado no glebarismo de Álvaro Maia. No movimento paulista, de acentuado conteúdo político, predominava, no entanto, a preocupação de natureza estética. No programa do espetáculo de abertura da semana, em verdade transcorrida em cinco dias, no Teatro Municipal de São Paulo, constou uma conferência pronunciada por Graça Aranha[3] e intitulada A emoção estética da Arte Moderna. No Amazonas, sobrepujava a conotação de natureza política. Não havia nenhum interesse em polemizar sobre as formas literárias parnasianas e simbolistas predominantes no ambiente literário de então. O objetivo do movimento era a conquista do poder político do Estado, então dominado por gente de fora, sem nenhum compromisso com os destinos da terra. Em Manaus, o documento mais importante do episódio glebarista foi o discurso batizado com o nome de Canção de Fé e Esperança, proferido por Álvaro Maia, na noite de 9 de novembro de 1923, também por acaso numa casa de espetáculos, o Teatro Amazonas. A linha de contato, portanto, entre os dois eventos, está na preocupação com o nativismo. Em São Paulo com os grupos Anta e Verde-Amarelo, liderados por Plínio Salgado[4] e Menotti Del Picchia[5], e, em Manaus, com o glebarismo de Álvaro Maia.

Nascido na cidade de Humaitá, em 1893, Álvaro Maia, filho de pai cearense e mãe amazonense, já formado em Direito, após curso realizado em Fortaleza e no Rio de Janeiro, nos fastos nativistas do glebarismo, contava com apenas 30 anos de idade. Nesse discurso, após um largo exórdio, Álvaro Maia tece ampla metáfora sobre a natureza amazônica, os rios, a floresta, logo se referindo ao fato político do 9 de novembro. Exorta por um renascimento dos valores da terra e um melhor aproveitamento dos seus filhos. Celebra o sentido heroico dos desbravadores da Região. Do passado e do presente. Denuncia o abandono em que vive a terra em relação aos poderes da República.

Há um momento em que Álvaro Maia desabafa:

 

O Amazonas deve o seu progresso exclusivamente ao esforço próprio. Venceu só, ao impulso de seu comércio e de suas classes laboriosas.

 

 

 

 

 

 

Vazado em linguagem essencialmente poética, o discurso possui passagens maravilhosas como a seguinte:

 

Na formação da árvore frondosa, que resume a força de nosso berço natal, devemos ter a abnegação das raízes, trabalhando no seio do solo, para que os galhos arracimados reverdeçam e se dobrem ao peso de flores e folhas. Cantem, em cima, os ventos; esplenda o sol, e espalhe o seu pendão de ouro; rujam os temporais renovadores e passem as primaveras; a árvore encante os olhos, e dê alimento, e dê poesia, que a raiz, como um braço sem descanso, persistirá em sua faina religiosa, sem perguntar porque se martiriza na escuridão e na obscuridade, sem a menor revolta pelo destino humilde.

 

Essa peça oratória converteu-se num autêntico ideário de vida, sempre lembrado pelos intelectuais, programa de ação a orientar a vida política do Estado que, em seguida, voltou às mãos dos amazonenses por um longo período. Aos 35 anos de regime republicano, o glebarismo foi o movimento mais significativo na vida política da Amazônia Ocidental, produto do poder criador do povo tão bem polarizado pelo cantor de Sobre as águas barrentas.

Álvaro Maia, aureolado pelo triunfo político que o consagrou com a função de Interventor Federal e com o mandato de Deputado, Senador da República e Governador do Estado, jamais saiu de sua terra e andava a pé, como o mais simples dos cidadãos, na Manaus que se transformava no início da Zona Franca.

Quando a Álvaro Maia já brilhavam no horizonte as luzes douradas do ocaso, ardia intensamente nos céus da Amazônia a estrela do empresário Isaac Sabbá, que nasceu em Belém, no Pará, e veio para Manaus, com os pais, em 1922, aos 15 anos de idade. Seu pai era um empresário de sucesso na cidade paraense de Cametá, empobrecido com a crise da borracha. Em Manaus começou trabalhando como office-boy e faxineiro de escritórios de empresas comerciais. Sempre muito atilado, daí a pouco já era pracista, isto é, representante comercial ambulante na cidade, aquele que faz a praça, tornando-se um dos mais hábeis profissionais no setor.

Enquanto Álvaro Maia consumia os seus dias e noites na mobilização dos jovens do seu tempo, no sentido de valorizar o homem da terra, incutindo-lhes uma visão nova na conquista da própria identidade política, Isaac Sabbá ensaiava os primeiros passos na construção de seu papel fundamental no desenvolvimento econômico da Amazônia, como forma também de contribuir com a vitória da identidade regional.

A partir desse momento, conta o sempre bem informado Prof. Samuel Benchimol[6], o empresário Isaac Sabbá, demonstrando dinamismo invulgar, tocou vários negócios no comércio e na indústria, beneficiamento de borracha e outros produtos regionais como a castanha, consolidando o capital com que iniciou a construção da Refinaria de Petróleo de Manaus, no período de 1955/1956, inaugurada oficialmente pelo Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira[7], no dia 3 de janeiro de 1957.

A construção da refinaria de Manaus suscitou momentos de elevado espírito de luta, com a persistência dos que sabem o que desejam da vida, movidos pelo desprendimento e a generosidade, sentimento próprio dos empreendedores. Isaac Sabbá foi aos Estados Unidos para adquirir os equipamentos e conseguiu interessar os fabricantes desses materiais na produção da sua refinaria considerada pequena, em relação ao consumo do mercado. Os fabricantes só se interessavam por grandes encomendas, em termos mundiais.

Isaac Sabbá saiu, na peregrinação por sua refinaria, sem dúvida aplicando o tirocínio adquirido nos velhos tempos de pracista, de influir pessoas e conquistar amigos, trazendo para o seu lado o engenheiro amazonense Arthur Soares de Amorim[8] e o grande humanista brasileiro Roberto Campos[9], então no exercício da comissão de Cônsul do Brasil em Los Ângeles. Mais tarde, no cargo de Ministro do Planejamento, Roberto Campos recebeu subsídios privilegiados do empresário Isaac Sabbá na concepção do projeto da Zona Franca de Manaus. O Prof. Samuel Benchimol vai mais além. Testemunha que foi o empresário Isaac Sabbá quem sugeriu ao Ministro Roberto Campos, por intermédio do seu sócio na refinaria Arthur Soares de Amorim, a criação da área de incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. Em seu escritório, situado na esquina das ruas Guilherme Moreira com Quintino Bocaiúva, aconteceram muitas reuniões sobre o projeto do Decreto-lei 288/67, que imprimiu novas dimensões à legislação da Zona Franca.

Na imaginação criadora do empresário Isaac Sabbá, era estratégica a implantação em Manaus, de uma refinaria de petróleo para o desenvolvimento de toda a Amazônia. E ele estava certo, como comprovam os indicadores econômicos de então. No início da operação da refinaria, em Manaus e na Amazônia Ocidental, logo se sentiram os efeitos do empreendimento: A gasolina baixou 21%, o querosene 28% e o óleo diesel 58%.

Com o sucesso dos seus negócios o nome de Isaac Sabbá ganhou vulto. Era requisitado para tudo, para aconselhamento de candidatos ao mundo empresarial, ou políticos aspirantes a cargos eletivos. Os auditores das suas empresas, em determinado momento, sugeriram que ele se mudasse de Manaus e fosse morar em centros mais desenvolvidos, a salvo dos aduladores de plantão, talvez no Rio ou São Paulo, podendo de lá dirigir os negócios por meio dos relatórios que o grupo de seus executivos lhe deveriam mandar, periodicamente. Ele já tinha montado uma excelente equipe de colaboradores, de alto nível e muito bem remunerada, sendo, até nisso, um inovador.

A cidade de Manaus da época tinha por volta de trezentos mil habitantes, muito pequena para comportar uma personalidade da sua projeção e do seu porte, da sua importância, na opinião dos aludidos auditores.

Mas Isaac Sabbá não concordou. Na Amazônia era o seu lugar. Não pretendia deixar a terra de suas raízes. Não pertencia à legião daqueles amazônidas que logo que possam batem asas em busca de outros ares, guardando, contraditoriamente, tal como exilados voluntários, só a saudade da terra, do bom peixe, das frutas, da excelente tartarugada, etc.. Em Manaus terminou os seus dias, jamais esquecido, procurado pelos jovens, sempre levantando questões sobre a Região, acreditando nas suas potencialidades e no seu desenvolvimento.

Isaac Sabbá cultivava no espírito o otimismo próprio da natureza dos empreendedores. Sabia como resolver a questão do caluniado clima da Amazônia. Seu escritório em Manaus era o ambiente interior exclusivo servido por sistema de ar-condicionado. Por isso era conhecido por buraco frio entre os motejadores provincianos. Mas, o que se observava, simplesmente, é que o notável empresário, na linha das atitudes de autêntico pioneiro, inaugurava o uso agora corrente da tecnologia do ar-condicionado na Região. Hoje o sistema é adotado nos veículos, inclusive táxis e ônibus, escritórios, lojas, casas de diversão e residências.

Álvaro Maia morreu em 1969 e Isaac Sabbá, em 1994. Álvaro Maia deixou legado precioso na obra literária definitiva construída sobre a Amazônia e a imagem de uma vida pública exemplar, de homem probo, líder político limpo e de comportamento democrático; a memória de Isaac Sabbá ganhou o reconhecimento dos seus compatrícios, com o seu nome inscrito nas legendas da Refinaria de Manaus e na lenda que se criou em torno dessas duas grandes figuras da Amazônia Ocidental, típicas no comportamento dos bons amazônidas.



** Capítulo de livro em preparo.

[1] MAIA, Álvaro Botelho (Humaitá/AM 1893 – Manaus/AM 1969), escritor, poeta, político, foi governador do Amazonas em vários períodos e um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras.

[2] SABBÁ, Isaac Benayon (Belém/PA 1907 – Manaus/AM 1996), comerciante, industrial, empresário.

[3] ARANHA, José Pereira da Graça (São Luís/MA 1868 – Rio de Janeiro/RJ 1931), escritor e diplomata.

[4] SALGADO, Plínio (São Bento do Sapucaí/SP 1895 – São Paulo/SP 1975), jornalista, escritor e político.

[5] DEL PICCHIA, Paulo Menotti (São Paulo/SP 1892 – 1988), jornalista, escritor, poeta e político.

[6] BENCHIMOL, Samuel Isaac (Manaus/AM 1923-1999), empresário, professor, pesquisador social e líder comunitário, um dos maiores intérpretes da Amazônia.

[7] OLIVEIRA, Juscelino Kubitschek de (Diamantina/MG 1902 – Resenda/RJ 1976), médico e político, Presidente da República no período de 1956 a 1961.

[8] AMORIM, Arthur Soares de

[9] CAMPOS, Roberto de Oliveira (Cuiabá/MA 1917 – Rio de Janeiro/RJ 2001), economista, diplomata e político.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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