“O garoto José da Silva Azevedo com sete anos de idade, logo foi matriculado no Grupo Escobar Nilo Peçanha”

Todas as dificuldades de adaptação, aos costumes e hábitos do casal José da Silva Azevedo e de sua esposa Maria Ferreira Bernardes foram aos poucos superados. O trabalho de ambos era um motivo forte para não esquecer a Pátria-Mãe, mas, para guardar recordações dos seus momentos de infância, lá do outro lado do Atlântico.

A baía do Rio Negro, imponente e majestosos, fervia com a chegada e saída de navios a vapor, barcos regionais, catraias e tantos outros meios de transportes fluviais. Aos domingos os jovens disputavam pelejas no remo, representando alguns clubes que existiam na época, que eram praticados em especial por três clubes, bem equipados e que, por sua vez, mantinham acirrada rivalidade competitiva, tinha sua sede em um flutuante no igarapé de Manaus, ao qual se tinha acesso por meio da Ponte Cabral. O Amazonas localizava-se à margem do Rio Negro, no início da Rua Corrêa de Miranda, hoje Joaquim Nabuco e, o Náutico tinha sua sede também na orla do Rio Negro, cujas, provas competitivas eram realizadas sempre na baía do Rio Negro.1

Todos esses acontecimentos, vistos pelos olhos do jovem casal, que deslumbrados ostentavam a majestosa margem do rio, vista alcançada do sobrado da residência, guarnecida de flores e rosas, plantada em latas simples, que por efeito de sua densidade eram como duas muralhas a embelezar o horizonte de sonhos.

Este aspecto da época, narrado por seus familiares, hoje guarda entre si a distância de dezenas de anos, que se revelam ao ponto da estação de verão e inverno, ou a enchente dos nossos rios, quando pouco, de vez em quando, o soprar da brisa oriunda do Rio Negro.

José da Silva Azevedo aos 7 anos de idade e sua mãe Maria Ferreira Bernardes. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

Toda essa monotonia fora quebrada com a notícia da chegada do filho. Motivo de superação de todas as dificuldades seria a mão de Deus, unindo cada vez mais o casal. A interrupção da vida rotineira trouxera a alegria e a disposição ainda maior para o trabalho, afinal, a família teria em breve mais um membro.

As noites da cidade de Manaus eram, por tantas vezes, iluminadas pelo candeeiro de bronze, ou alumínio, a espargir luz em toda a sala, cujas, portas do sobrado se achavam, como que hermeticamente fechadas. As telhas portuguesas de vidro permitiam a luz das estrelas tocarem no ambiente onde haveria de nascer o menino que seria um exemplo de vida.

Pois assim aconteceu, no dia 10 de julho de 1909, dia de Nossa Senhora do Carmo, nascia na Rua Barão de São Domingos, no velho sobrado, o menino que haveria de se chamar, por vontade dos pais, José da Silva Azevedo.

José da Silva Azevedo aos 18 anos. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

O curioso que podemos notar era a duplicidade nominal, ou seja, o filho era registrado com o mesmo nome do pai. Orgulho do pai em manter o seu nome? Há permanência dos dois sobrenomes do pai, no caso Silva Azevedo? É possível, porém, esse detalhe naquele momento já não importava, pois o fato de alegria da família era a chegada do primeiro filho, cujo, nascimento fora recebido sob a égide de Deus, pois tratava-se de família extremamente religiosa.

A vida das famílias portuguesas, de menor poder aquisitivo era fatigada pelo trabalho e por doenças. A Manaus daquele período tinha uma medicina ainda alheia à penicilina e as poucas campanhas de vacinação. A cidade do norte do país, essas famílias viviam para o trabalho e na verdade não tinham vida social, eram privadas de roupas finas, lojas chiques com artigos importados.

Casamento de José da Silva Azevedo com Maria da Silva Santos 24 de setembro de 1932 na cidade do Porto em Portugal. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

O garoto José da Silva Azevedo com sete anos de idade, logo foi matriculado no Grupo Escobar Nilo Peçanha, que ficava na antiga Rua Corrêa de Miranda, hoje Avenida Joaquim Nabuco, sua mãe deixava o filho na escola e seguia para o Mercado Adolpho Lisboa para ajudar o marido.

Nas escolas da época em Manaus, havia laboratórios de física e química. A escola priorizava também a literatura, tabuada e caligrafia. Quanto ao desempenho em sala de aula, não havia notícias, permanecendo apenas um boletim que era assinado pelos pais.

José da Silva Azevedo já idoso em Manaus. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

Era uma Manaus de iluminação precária. A infância do garoto ocorria ainda em meio as notícias dos filmes dos cinemas Guarany e Polytheama, divertimentos que era impossível à família Azevedo participar por conta da precária vida financeira de seus pais. As férias escolares eram sempre no trabalho com os pais.

Manaus da época. (Foto: Acervo Abrahim Baze)

Referências

1PÉRES, Jeferson. Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei. Manaus: Valer, 2002, p. 16.

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Abrahim Baze
*Amazonense de Manaus. Graduado em História pelo Centro Universitário do Norte e pós-graduado em Ensino à Distância pelo Centro Universitário UNISEB-COC, de Ribeirão Preto/SP. Recebeu o título de Notório Saber em História, pelo CIESA, de Manaus/AM. Fundador e organizador dos museus da Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, Luso Sporting Clube, Rede Amazônica, Memorial e Biblioteca Senador Bernardo Cabral, Centro Cultural Luso Brasileiro do Amazonas, Centro Universitário Luterano de Manaus, Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e do Atlético Rio Negro Clube. Diretor do Instituto Cultural da Fundação Rede Amazônica e apresentador dos Programas de TV: Literatura em Foco e Documentos da Amazônia. Autor de mais de 65 títulos sobra História da Amazônia. Membro da Academia Amazonense de Letras, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Academia de História do Amazonas, Academia de Medicina do Amazonas, Academia Maçônica de Letras do Amazonas, Associação Nacional de Escritores (Brasília), Associação dos Escritores do Amazonas e Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas.

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