Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

A tendência é a geração de uma falsa vida das emoções que visa mais o marketing do que a vida real, se é que ela ainda existe.

Sabe-se que o mundo corporativo está sendo chamado a compor o tecido republicano da sociedade contemporânea.

O Estado, sabidamente, não consegue mais dar conta das demandas de uma sociedade em crescente complexidade e com marcada tendência entrópica. De qualquer forma, não se pode negar a validade, por parte das empresas, de assimilar demandas sociais. É um processo sem volta.

Temas como diversidade, antirracismo, cuidados com a chamada segurança psicológica e similares —tudo compõe essa rede de demandas. Uma pedra no sapato do mundo corporativo será, cada vez mais, a assimilação das pessoas chamadas 50+. Qualquer empresa contrata um homem trans ou uma mulher trans com 25 anos, o difícil é contratar pessoas mais velhas.

É claro, o marketing, a grande ciência da mentira sistemática no século 21, continuará a fingir que a foto de um colaborador com 60 anos, vestido com roupa de ioga, significa a assimilação em escala de pessoas mais velhas no mundo corporativo. Mentira, pura e simples.

Uma questão, dentro dessa rede de demandas, é o universo contido no jargão “inteligência emocional”. Conceito trabalhado por “scholars” de vocação ao mercado, visa criar uma ciência da gestão das emoções, grosso modo.

A intenção, portanto, como tudo o que transita pelo universo corporativo, é o resultado, o sucesso, a produtividade, a competitividade, mesmo que o conteúdo venha empacotado para presente.

Aqui vale um recuo. O movimento romântico, cujo epicentro, na segunda metade do século 18 e no século 19, foi a região que mais tarde veio a se constituir na Alemanha, se colocou criticamente em relação ao racionalismo universalista do Iluminismo francês. O lema desse Iluminismo poderia ser resumido na máxima “tudo pela razão”. A racionalidade na sua face burguesa evoluiu para “tudo pela produção”.

Reforma da Previdência cria desafio de manter emprego para os mais velhos

Claudete Freitas Amorim, 67, usuária da plataforma PAP (Pessoas Ajudando Pessoas) Gabriel Cabral/Folhapress

Depois de anos trabalhando na área de serviços e operações em empresas do setor de tecnologia, Ronaldo Moraes Araki, 63 anos, conseguiu voltar ao mercado de trabalho como CTO de uma fintech predominantemente jovem. Karime Xavier/Folhapress

Sandra Godoi, 56 e Claudia Barchi, 52, idealizadoras da plataforma PAP (Pessoas Ajudando Pessoas) Gabriel Cabral/Folhapress

Primeira grande ressaca com a modernidade burguesa, o romantismo trouxe, entre outras características, a ideia da vida afetiva como lugar de sofrimento devido à pressão racionalista, técnica e instrumental. Não por acaso, a psicologia profunda, o inconsciente, a ideia de vida interior, os estudos modernos de religião, devem muito ao romantismo, mais do que esses profissionais imaginam.

A contradição essencial aqui é que a assim chamada vida das emoções, descendente direta do fenômeno romântico, vai de encontro -é, portanto, contrária- à lógica produtiva da sociedade burguesa. A vida emocional romântica é uma espécie de sintoma reativo à obrigação de se ser bem-sucedido em tudo o que se faz.

Vale salientar que, para a filosofia, desde a Grécia antiga, as emoções -o “pathos”- sempre foram vistas como uma contradição para a vida racional, um problema a ser enfrentado pela inteligência humana para que não caíssemos na armadilha de uma vida irracional, dominada pelas paixões.

Enfim, afora essas rápidas observações históricas, o fato é que a vida das emoções não é um recurso óbvio para a imposição da produtividade em todos os níveis.

As emoções não são agentes evidentes na vida da prosperidade. E aqui surge, a meu ver, uma contradição essencial para o jargão conhecido como inteligência emocional.

A chamada inteligência emocional pretende fazer das emoções um recurso para resultados, “core” da vida corporativa. A intenção é fazer uma gestão das emoções a fim de melhorar a carreira, os ganhos das empresas e similares. Basta checar o trânsito do termo inteligência emocional em qualquer buscador.

As palavras-chave dialogam exatamente com campos como gerenciamento das emoções, torná-las eficazes, controle das emoções, busca de ferramentas automotivacionais, otimizar as relações interpessoais, enfim, fazer a gestão das emoções com o propósito da prosperidade.

Eis a falácia básica do projeto. A formatação das emoções para a sua gestão instrumental é patogênica no final do dia. Quando até os seus medos devem ser produtivos, não há esperança nem para a vida verdadeira do medo. A tendência é a geração de uma falsa vida das emoções que visa mais o marketing do que a vida real, se é que ela ainda existe.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 13/06/2021.
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