Neste junho sem festa, por causa da pandemia, lembrei-me de um São João que passei em Brasília.

– Por que São João, em Brasília, se o melhor da festa está no interior?

É verdade. As festas no interior não são apenas melhores, mas também favorecem a
sociabilidade. Os familiares brigados se reencontram; os compadres e as comadres que
estavam de mal voltam a se falar; as moças sorriem e se mostram mais acessíveis; os
rapazes se esforçam querendo pegar as moças, agora, mais sorridentes e mais acessíveis;
a criançada bagunça em liberdade, com o afrouxamento da vigilância pelos adultos.

Em 1973, eu era o secretário de educação de Urucurituba, no médio Amazonas. Competia-me vistoriar as escolas da zona rural do município. Foi numa dessas viagens que descobri a Brasília, onde passei essa noite de São João que relato. Um vilarejo perdido no emaranhado dos rios amazônicos. Um ponto de aviamento onde os viajantes podem conseguir carne em conserva, sardinha em lata, refrigerantes em garrafas, bolachas em pacotes, pó de café, açúcar refinado, tabaco em rolo, e água-que-passarinho-não-bebe, que nunca pode faltar.

Coincidentemente, nosso barco atracou no porto dessa Brasília, ao anoitecer do dia 24 de junho. Falo em coincidência, mas, cá pra nós, o Gregorinho, comandante da nossa embarcação, havia endireitado a navegação no rumo de onde vieram os primeiros fogos, ouvidos no meio tarde. Viajávamos pelo Urariá. E assim, de meia em meia hora, o foguetório foi se aproximando. O timoneiro ficava risonho a cada ribombo. É que os fogos não somente estrondam por cima da floresta, mas também entranham nas almas das pessoas. Os fogos comunicam que vai ter festa. Esse aviso de alegria soava como música de trégua para o nosso comandante a aliviar a vida dura que levava singrando remansos e correntezas. Ali estava um ser próximo da felicidade, mas comedido, dada a sua responsabilidade no comando da embarcação.

Se para o comandante era isso, para nós não era diferente. A perspectiva de diversão é sempre bem-vinda, quando se está largado no interior. Os quatro embarcados, o comandante, o motorista, eu e o professor Osvaldino, meu auxiliar, vislumbrávamos entretenimento para aquela noite. Combinamos jantar alguma coisa em terra. Pensávamos em tacacá, vatapá, bolo de milho, bolo de macaxeira, peixe assado.

Às oito horas, a nossa ansiedade espiritualizada pelo fervor junino, nos levou a subir a escadaria de madeira de quarenta degraus. Lá em cima, quase sem ar nos pulmões, nos deparamos direto com a praça da vila. Soubemos logo que a dança da quadrilha seria a atração da noite. Nossos estômagos, sem perda de tempo, nos levaram em direção às barracas de comidas. Não eram mais que dez, todas iguaizinhas, revestidas com palha trançadas para aparentar boniteza. Achamos louvável a divisão de trabalho dos
barraqueiros. Uma barraca se dedicava em servir tacacá; outra, exclusiva a oferecer vatapá; outra, caprichava no pirarucu a casaca; outra, somente bolos de diversos sabores; outra, por sinal, bem frequentada, servia cachaça, caipirinha, quentão, refrescos de frutas. Em todas, encontramos nativas atenciosas.

Depois de matarmos o apetite, nossa euforia nos levou à barraca de bebidas, para uns aperitivos antes da hora da quadrilha. O comandante exagerou no quentão. Ficou muito falante, de tudo tirava pilhéria, se entusiasmava por cada caboca que passava. Ele, antes calmo e calado, agora era o embaixador da alegria, liderando as conversas do grupo, muito bem à vontade. Após assistirmos a esperada dança, retornamos para o barco, razoavelmente satisfeitos.

Nem tanto assim, falando por mim.

Da apresentação da quadrilha, me ficou marcado uma conversa entre mãe e filho, que assistiam a brincadeira ao nosso lado. O filho, de uns dez anos, interpelou a mãe, tendo que gritar, para que a mãe ouvisse, por causa do barulho da banda. A voz impostada do curumim chamou minha atenção:

– Mãe, a senhora vai deixar eu dançar quadrilha?

– Filho, cresce, vira político e vem morar em Brasília, que aí você vai poder participar de quadrilha o ano todo.

A mulher respondeu elevando o tom da voz, superando o volume da alocução do garoto. Como se ela, de repente, quisesse dar um brado de guerra. Como, motivada por um distúrbio histérico, quisesse que todos a ouvissem o que tinha a dizer. Não havia como ignorar a altissonante confabulação familiar.

Acho que o menino ficou satisfeito com a permissão materna. E eu fiquei com o berro da mulher dentro da cabeça. Hoje tenho certeza que a resposta da mãe não foi somente ao filho. Ela mandou uma flechada certeira para nós, os representantes dos políticos, ali presente. Como no interior se sabe de tudo na velocidade de um raio, ela sabia quem éramos nós, gente do prefeito. E se prevaleceu da conversa com filho para descarregar sua indignação.

Ela, mesmo vivendo na distância dos beiradões, sabia da má fama dos políticos que enxameiam a Brasília Federal. E acabou sobrando para nós, naquela noite de São João na perdida Brasília interiorana. Ainda bem que ficou somente nisso. Não fomos atirados em nenhuma fogueira ardente.

A caboca sacaneou com tal protagonismo que nem doeu na hora, mas, de vez em quando, seu protesto volta a estalar na minha cabeça, como uma rajada de fogos de artifícios, ainda mais quando sei que aquela brasileira continua tendo razão, até hoje.

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Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor platonista.

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