“O livro decorreu de apenas 13 horas de entrevistas nas quais esse gaúcho de origem portuguesa pode expor o seu legado em contribuição literária, e decoração aberto.

Por nímia generosidade de um amigo dileto, Ely Paixão e Silva, recebi, via redes sociais, um exemplar do livro organizado pela Fundação Getúlio Vargas reunindo depoimentos de um dos mais ilustres vultos da atualidade, o general Villas Boas, personalidade singular da nacionalidade. O livro decorreu de apenas 13 horas de entrevistas nas quais esse gaúcho de origem portuguesa pode expor o seu legado em contribuição literária, e de coração aberto.

Celso Castro e outros pesquisadores da res peitável instituição se dedicaram a ouvir e coligir a palavra do general sobre sua história de vida, desde os primeiros anos em cuja fase reconhece a vocação para a carreira militar, talhado para o generalato desde então, quem sabe, relembrando suas origens e familiares. Além disso, passa por suas experiências na Amam, as posições anticomunistas e a constituição da sua família. Nesse momento realça a fibra de dona Cida, a esposa perfeita para um militar.

Destaque especial é a forma como fala sobre a preparação para o exercício dos encargos de comando, prelecionando que, além do exercício da autoridade, há outros valores morais, éticos e humanos que devem ser observados e estimulados.

Depois dessa exposição de ideias firmes, e às vezes concisas mas valiosas, a demonstrar o caráter digno de realce, Villa Bôas envereda pela apreciação mais política da realidade brasileira, desde a fase de transição do Regime Militar para o governo que seria de Tancredo Neves e foi de José Sarney, avalia a conturbação da época com olhar crítico e distante das questões menores. Em seguida, esmera-se a esclarecer a sua experiência na China, onde por dois anos teve oportunidade de uma aprendizagem valiosa.

Detive-me em repetir a leitura do capítulo em que o autor do depoimento histórico se dedicou à fase em que exerceu comando militar na Amazônia, período que destaca com frase simbólica e realista, aquela que encima o título do capítulo e com a qual identifica e ressalta a ausência de uma política nacional determinada a conduzir as questões complexas e multivariadas da Amazônia, e, nesse particular, revolvi antigos papéis do meu arquivo pessoal e dei-me com a conferência com a qual o general Rodrigo Octávio Jordão Ramos recebeu o título de Membro Honorário do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, e, naquele tempo, anunciava a necessidade de uma política pública para a região, tal como denuncia Villas Bôas, passados muitos anos da quela solenidade rebrilhada de fulgor.

Sem fugir a temas políticos de mais atualidade, o autor envereda pelo planejamento militar e a preparação de nossas forças; cuida da anistia que harmonizou o país; da Comissão da Verdade e da forma como esta foi conduzida a sinalizar revanchismo; das apreensões que experimentou no governo da presidente Dilma Rousseff ena oportunidade da transição para seu substituto legal; da conduta adotada pelos generais sob seu comando e dos chefes das demais forças militares de modo a impedir que a política partidária invadisse os quartéis, notadamente aquando da recente campanha eleitoral. Aclara, com precisão, que as Forças Armadas não estão no poder político do país.

Acostumado a grandes lutas como militar de formação e indole, Villas Bôas não se furtou a avaliar, tratar e debater sobre sua condição de saúde, acometido que está de uma doença massacrante, consumidora de energias, redutora de mobilidade, traiçoeira entre as traiçoeiras, mas fala disso com a leveza dos homens bem preparados de espírito, dos grandes, dos justos, dos sábios.

É emocionante ler e acompanhar a trajetória desse brasileiro, ditada por ele mesmo, sem arreganhos nem sustos, sem temores, sem meias palavras, no nível de uma invejável preparação intelectual, e que foi captada por profissionais experimentados em pesquisa de história oral.

O que temos é o livro do comandante e do amazônida mas, sobretudo, a verdade de um grande brasileiro.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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