fernanda torres
*Fernanda Torres

Só enxergo o mal invisível, incubado naquela existência pregressa.

Nunca me esqueci da primeira capa da revista Time sobre o vírus HIV, datada de julho de 1983. Dois meses depois daquele anúncio oficial da peste, eu completaria 18 anos de idade.

O desabrochar da minha vida sexual coincidiu com a aparição de um vírus letal, que levava até seis meses para provocar a síndrome da imunodeficiência adquirida, podendo ser transmitido por pessoas assintomáticas.

Ilustração de uma criatura que parece uma pessoa, mas tem 6 cabeças distribuídas verticamente no corpo e 6 pares de braços verdes. Cada braço está com uma seringa apontada para um vírus. A composição lembra uma árvore de Natal

Minha geração teve de se curvar à camisinha, ao sexo seguro e à paranoia, aceitando, não sem amargura, que o mundo que a aguardava era pior do que aquele desfrutado pelos seus pais na juventude.

Agora, aos 55, à beira de entrar para o grupo de risco dos sexagenários, adentro um novo ciclo do inferno viral. Resignada, encaro as mudanças de hábito da pandemia, já estranhando a vida como ela era.

Assisto a filmes antigos e mesmo os novos, de um ano atrás, e me apavoro quando alguém aperta a mão de alguém, beija na boca, caminha na rua, entra num bar lotado ou num vagão de metrô. Não enxergo mais os personagens, só o mal invisível, incubado naquela existência pregressa.

Não era mole abrir um envelope com o resultado do teste de HIV na década de 1980. Suor frio, angústia e tremor nas pernas antecediam a sentença de vida ou morte do reagente ou não reagente.

Os testes para a Covid-19 não têm o mesmo peso, embora não deixem de carregá-lo. O detectado do PCR é um bilhete de entrada para o angustiante universo das probabilidades, dos mil vetores que podem tanto levar ao resfriado quanto ao óbito.

Drive-thru de testes de Covid-19 no Shopping SP Market

Funcionário do Butantan colhe material de Guilherme Machado Rodrigues. Rivaldo Gomes/Folhapress

Testagem gratuita de Covid-19 feita pelo Instituto Butantan no estacionamento do Shopping SP Market, na zona sul. Rivaldo Gomes/Folhapress

A maioria das pessoas que desenvolve a doença apresenta sintomas entre o terceiro e o sétimo dia posterior à exposição ao vírus; mas se pode estender essa janela até o décimo e, em casos raros, até o 14º dia. O oxímetro não deve baixar de 94 e uma primeira semana amena não garante a boa evolução da segunda.

Tudo é, como pode não ser.

Coceira na garganta, preguiça, cansaço e falta de ar, perda de olfato, mialgia, cefaleia, diarreia, vômito, náusea, febre… Qualquer sinal é sinal, até a falta de sinal.

Além dos resultados detectado ou não detectado, o muco coletado para o PCR pode informar também a carga viral no corpo, através de um exame chamado Ct, ou Threshold Cycle.

O IgM e o IgG indicam, respectivamente, se a infecção está na fase ativa e se houve a produção de anticorpos no sangue. Mas se foi o tempo em que um IgG alto livrava o sujeito da reinfecção. Os casos de reincidência se multiplicam, acendendo o alerta para a livre circulação de uma nova cepa.

E, nesse labirinto de taxas, números, datas e incertezas estatísticas, que mais lembra um capítulo nunca escrito do “Bouvard e Pécuchet”, do Flaubert, fica difícil separar a ciência da loucura e da crendice.

Os naturebas apostam em chás anti-inflamatórios à base de cúrcuma, manjericão e gengibre. Geleia real em jejum, probióticos e própolis também são indicados. Uma amiga recém-chegada da França me presenteou com um supositório de eucalipto que estimula o sistema imunológico. Experimentei, mas só senti uma comichão anal acentuada.

As vitaminas são o elo entre a medicina alternativa e a alopatia radical. Ambas escolas louvam o papel da vitamina D e da C no fortalecimento de nossas defesas, chegando a incluir outras letras do alfabeto, como o Z de zinco, no coquetel. Os adeptos da ioga regenerativa também evocam o mantra C mais D mais sol.

E, para os amantes dos fármacos, descortina-se um leque sem fim de possibilidades.

A revectina combate o piolho e a sarna e desponta, ao lado da velha cloroquina, como uma das dez mais da lista dos tratamentos não convencionais. Isso sem se esquecer da nitazoxanida do Anitta, que eu pensei que fosse a cantora, mas é um remédio usado para eliminar a giárdia e que foi testado em casos de rota e norovírus.

Um médico negativado, pai de um conhecido, garante que a azitromicina é imbatível na prevenção da Covid-19 e passa a dosagem, sem medo de ser feliz.

E, para evitar a trombose —sim, mesmo depois de vencida a ameaça da pneumonia, existe o risco de trombose—, uma ala aconselha afinar o sangue com o ácido acetilsalicílico da aspirina. Mas é preciso cuidado! Há quem condene veementemente o método, por receio de que a droga dificulte o diagnóstico de plaquetopenia viral.

O HIV era binário, a Covid-19 é um fractal demoníaco.

O jeito é acender 50 velas de sete dias, virar um Frontal natalino e acordar só no Carnaval de 2022 cantando: “Ei, você aí! Me dá uma vacina aí! Me dá uma vacina aí!”.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 13/12/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui