No início deste ano, a Embraer e a Boeing inauguraram, no Parque Tecnológico da Embraer de São José dos Campos, o Centro de Pesquisa em Biocombustíveis Sustentáveis para a Aviação. Ali, há décadas, os cientistas da Aeronáutica criaram o primeiro motor brasileiro com biodiesel tropical, movido a dendê e mamona. A indústria de aviação precisa reduzir à metade a emissão de CO2, até 2050, tomando por base 2005 e a Boeing esteve em Manaus, em diversas oportunidades, para conversar com cientistas e empreendedores da região, sobre as oleaginosas nativas, e seu potencial energético e ambiental. Entre elas, o pinhão manso, o Jatropha curcas, uma espécie de planta da América tropical, já foi exaustivamente estudada nos laboratórios de universidades americanas e israelenses é usada pelas populações primitivas da Amazônia há mais de 10 mil anos, para funções terapêuticas e cosméticas. A demanda da Boeing , segundo o empresário Moysés Israel, especialista no assunto, é para fins comerciais civis e militares do Pentágono, cujas aeronaves precisam de economia, prontidão e eficácia, sendo  o pinhão manso – pelos repetidos testes – é imbatível nessa função.

Outras oleaginosas já foram inventariadas pelo INPA, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, desde os anos 80, numa das grandes crises do petróleo. No total,  15 castanhas/amêndoas nativas foram inventariadas na Amazônia, com protocolo universal de reconhecimento energético/alimentar. O dendê teve acolhida empresarial  no Pará, onde foi instalada a primeira refinaria de óleo vegetal com fins energéticos e empresariais. No Amazonas, já tivemos a EMADE, Empresa Amazonense de Óleo de Dendê, extinta pelo critério político e inépcia estatal para empreender. Oleaginosas, resinas, alimentos, bioenergia, fertilizantes orgânicos, bioinseticidas, tecnologia da madeira, várzeas, são alguns dos tesouros de oportunidades levantados pelo INPA em 63 anos de existência. O que fazer com este acervo e coleções que pertencem à sociedade? Sim, os inventários, a instituição, seus avanços, resistência e contribuições históricas pertencem ao cidadão, mesmo neste clima melindroso e perigoso de alguns gestores que tratam a coisa pública como extensão de seu patrimônio particular, sem declarar no Imposto de Renda.

Nos próximos 10 anos, 60% dos servidores que ali atuam estarão fora do combate pelo saber  por idade ou doença.  Clima e Ambiente, Biodiversidade, Biologia Aquática, Ecologia e Economia Ambiental, Silvicultura… quem vai suceder Estevão Monteiro de Paula, Philip Fearnside, Niro Higuchi, Adalberto Val, Antônio Manzi – os que me vem à lembrança neste instante – para tocar o futuro da sistematização do saber e sua transformação em benefícios para a sociedade? Como configurar a evolução desse saber para orientar o fazer nas nuvens da informação para as gerações  futuras? E se a Amazônia é a pátria do combustível ambientalmente adequado, o saber precisa circular em forma de pesquisas e planos de negócios para socializar os bens na ótica da prosperidade social.  Este é o ponto de partida do estudo de viabilidade do parque tecnológico de produtos naturais sustentáveis para, ou a partir do Polo Industrial, que reúne a academia  e o setor produtivo mediatizado pela FAPEAM.  Diagnosticar demandas de mercado em biotecnologia e tecnologia da informação e comunicação, e os recursos humanos necessários, numa perspectiva multidisciplinar e interinstitucional é propor alternativas e complementos ao modelo ZFM, descobrindo e promovendo competências, focando nas próximas décadas  numa relação proativa e colaborativa entre a produção do conhecimento e da riqueza. Voltaremos.

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

1 COMENTÁRIO

  1. Uma ótima colocação professor.

    Mundo a fora os países mais desenvolvidos sempre em busca do que os emergentes podem lhes proporcionar.
    Não vai ser demais absurdo pensar que o Pinhão Manso, possa ser cultivado em larga escala em um outro pais (como Estados Unidos) para alimentar a industria da aviação em sua atual necessidade ou pior, ser patenteado por lá, a exemplo do nosso cupuaçú, com os japoneses.

    As diretrizes do nosso país sem sobra de dúvidas precisam serem revistas. Nossas políticas (ou mesmo interesses governamentais e até pessoais) não privilegiam a transferência de tecnologias das Universidades e outros centros de pesquisa, como INPA, Embrapa, etc.

    Quando um acadêmico, através de seus trabalhos de pesquisa, enveredam por algum conceito promissor. Isso já vira patente pessoal e levantado como Empresas Startup. Bem, de fato é melhor do que deixar o conhecimento se perder ou mesmo trabalhar em soluções cujos quais a sociedade não demanda.

    Deveria haver, dentro da própria Universidade uma estrutura que permitisse a participação direta da industria, de modo a tornar produtos os casos de resultados positivos de pesquisa. Deveriam ser reservados aos seus criadores, bem como para a própria Universidade, os royalties cabidos além da divulgação, obviamente, de seu nome e Origem: Made In Manaus.

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