“O tempo era curto, por demais. Os traços da ideia de tudo aquilo foram trazidos de casa pelo Jair-o gênio criador, e que gênio!”

Enquanto corríamos de seca a meca, no gabinete do vice-governador Paulo Nery, para dar conta de inúmeras atribuições em tão curto espaço de tempo, preparando a recepção a João Paulo II, de um lado Sílvia Cordeiro e capitão Fialho, e de outro o professor José Barbosa organizando, com eficiência, os milhares de estudantes da rede pública que formariam alas nas ruas, as bandeirolas de papel, os folhetos com o hino que seria cantado. Nas paróquias, comissões de católicos mobilizavam os fiéis, todos com atividades indispensáveis ao grande momento histórico e religioso.

Os serviços públicos de ambulância, segurança, trânsito, sinalização, limpeza e ajardinamento das ruas, corpo de bombeiros, credenciamento de jornalistas, local para pessoas deficientes, por exemplo, foram sendo organizados, porém, uma das etapas mas difíceis foi a instalação de energia e rede elétrica no local, e isso foi resolvido pela Eletrobrás estadual, com o engenheiro Ely Paixão e Silva no comando do assunto.

Sem a existência de rede de comunicação moderna que temos hoje, o jeito era mesmo a realização de infindáveis reuniões no gabinete da Rua Recife, aquele no qual acolhemos os presentes que iam chegando, conforme nossa solicitação e a disposição dos artistas. Complicado mesmo foi cuidar da lista dos convidados que sentariam próximos ao altar, e, pior ainda, a escolha dos 50 fieis que receberiam a comunhão das mãos do Santo Padre, mas a Lourdes Buzaglo deu conta com maestria.

Nos fundos do gabinete, debruçados sobre modesta prancheta de desenhista, profissionais da arte liderados por Jair Jacqmont, com os cálculos de Bento Brasil e as opiniões técnicas de Regina Lobato e Veralucia Ferreira, rabiscavam desenhos de como poderiam ser o altar e as peças especiais criadas para a composição da missa campal. A estrutura de trabalho era pequena, simples, mas convidativa. O tempo era curto, por demais. Os traços da ideia de tudo aquilo foram trazidos de casa pelo Jair – o gênio criador, e que gênio! mas precisavam ganhar a dimensão exata do que ele sonhara fazer como altar e mobiliário, aquilo que nos apaixonou logo à primeira vista.

O momento era nervoso. A proposta era altar de madeira em forma de cruz, com rampa longa, encimado por vela solta ao vento, em amarelo e com o símbolo do Vaticano fazendo fundo ao ponto principal; o trono especial para o Papa, e as duas poltronas laterais que deveriam ser menores, feitos em madeira de lei cortadas e gravadas com o mesmo símbolo papal.

O tablado estaria voltado para o centro da Praça ou para a rodovia do Japiim? Essa decisão foi tomada em visita da equipe a Bola da SUFRAMA. Sol a pino, e de paletó conforme a regra mantida somente pelo vice-governador, fomos experimentar a melhor posição. A conclusão foi seguir a opinião do artista-criador que mudara a ideia original, invertendo o acesso ao altar-mor que ficou para o centro da Praça.

De volta ao local de trabalho era hora do desenho final, fazer as medidas corretas, definir as alturas, quantificar o material, conferir as madeiras doadas pela Serraria Moraes, chamar os possíveis construtores, reunir, explicar, debater, contestar, aceitar, solicitar orçamento, conseguir que Aloisio Humberto Aires Cruz, o diligente chefe da Casa Civil do Governador, fizesse os atos formais de recepção de João Paulo II como Chefe de Estado para permitir a realização de despesa pública, conforme a legislação exigia.

Os dias eram curtos. As noites emendavam umas nas outras e tudo parecia uma madrugada só. A cada vez que ticávamos um item como resolvido, apareciam mais de dez a resolver, seja porque não havíamos cogitado antes, ou algum cristão acabara de inventar mais uma coisa a ser feita, considerada indispensável. E ainda teve a audácia do helicóptero com pétalas de rosas e o aparecimento do beijoqueiro.

Um dia farei publicar os relatórios dessa aventura, com todos os detalhes a demonstrar que o êxito da missão se deveu a todos que enfrentamoscada problema e à paciência e confiança que havia na equipe, mas, sem dúvida, a uma adorável benção dos céus.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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