“Repetirei na Assembleia Legislativa o que fizeram os gansos no Capitólio que, na ameaça da invasão dos gauleses, quando a guarda dormia, os gansos grasnaram de tal modo que a guarda pode dispersar os gauleses”

No ano do centenário de nascimento de Plinio Ramos Coelho – 2020 – é justo que todos prestemos homenagem a quem foi professor, advogado, escritor, poeta, jornalista, deputado estadual, deputado federal, governador do Estado em dois mandatos, e um dos mais vibrantes oradores da história do Amazonas. E vibrante ao tempo em que era comum haver grandes tribunos.

Tais homenagens não representam somente a manifestação individual deste ou daquele admirador partidário ou pessoal, mas de instituições que integrou, como a Universidade Federal do Amazonas, a Procuradoria Geral do Estado, a Academia Amazonense de Letras. Um lado, entretanto, se sobressaiu em sua vida, que foi o da política, e, com ele, as histórias que os opositores contavam e as que ele relevou, passadas as refregas e as injustiças.

Como era comum naqueles anos, em meio ao mundo partidário, político e eleitoral, havia disputas acirradas, comícios conflituosos, agressões verbais e físicas de parte a parte dentre os grupos de situação e de oposição, algumas vezes quase de forma incontrolável de modo a exigir a intervenção de forças militares estaduais e até do Exército Brasileiro.

Afora a pancadaria física, davam-se as agressões verbais que eram contínuas e crescentes, fosse pela imprensa diária em jornais comprometidos com as candidaturas, fosse nos comícios e bocas de ferro espalhadas em pontos estratégicos da cidade e no interior. No meio delas, como se não bastasse o tumulto que também acontecia no plenário das casas legislativas, os dois principais grupos em colisão partiram para aplicar apelidos jocosos nos principais líderes, uns contra os outros, alguns dos quais permaneceram para sempre como alcunha dessas figuras políticas.

Exemplo disso é aquele que utilizaram, a parir de certo tempo, para procurar ofender e ridicularizar o governador Plinio Ramos Coelho: “ganso do Capitólio”. Esse apelido foi de tal modo ajustado à sua figura que, apesar dos opositores pretenderem feri-lo com a dita expressão, conseguiram projetar a sua imagem além daquele tempo.

A respeito, ele próprio explicou em 1997, em entrevista exclusiva que possuo em arquivo que, ao contrário de ter surgido de parte da oposição, essa expressão teria sido usada por ele em entrevista à imprensa amazonense quando consultado sobre qual seria o seu comportamento como deputado estadual, quais seus planos e a forma de atuação pretendida, portanto, nos idos de 1947-1950. Na ocasião teria dito: “vou considerar de primeiro plano a vigília, a censura, o exame, e estar sempre desperto. Repetirei na Assembleia Legislativa o que fizeram os gansos no Capitólio que, na ameaça da invasão dos gauleses, quando a guarda dormia, os gansos grasnaram de tal modo que a guarda pode dispersar os gauleses. Eu serei uma espécie de ganso do Capitólio.”

A partir de então os adversários mudaram a expressão para “pata choca”, “marreco do Madeira” e outras formas mais ofensivas, procurando levá-lo ao ridículo, ofender, provocar, agredir, tirar do sério. Do seu lado, como resposta e as vezes também como provocação, havia a repulsa e os seus opositores ganhavam apelidos, músicas, modinhas que ficaram famosas, igualmente, deram o que falar, serviram de galhofa pela população e animaram os comícios em via pública.

O que se prevê, e com razão, é que do movimento trabalhista amazonense em certo tempo fixado como plinismo em razão da forte influência e importância de Plinio Coelho, há muitas histórias a serem reveladas, motivando pesquisas universitárias que podem vir a público neste ano de festejos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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