*Juca Kfouri

Finalmente será verdade que um time é o país. Não pela torcida, mas pelo futebol.

O futebol brasileiro precisa do triunfo do Flamengo na final da Libertadores contra o forte River Plate.

Se há quem diga ter sido a derrota para a Itália em 1982, na Copa do Mundo na Espanha, o golpe que mudou nossa forma de jogar, e por coincidência num momento de soberania rubro-negra, oito meses antes campeão mundial ao derrotar o Liverpool por 3 a 0, a vitória agora poderá significar a retomada de um estilo.

Estilo imposto por brasileiros como Gerson e Bruno Henrique, aliados da coragem do português Jorge Jesus.

Diferentemente da semifinal portenha, a brasileira teve qualidade.

Qualidade, coragem e gols.

Gabriel comemora o primeiro de seus dois gols sobre o Flamengo, no Maracanã, em duelo pela semifinal da Libertadores – Pilar Olivares/Reuters
Depois de primeiro tempo equilibrado, mas com superioridade rubro-negra, o 1 a 0 no fim, mais uma vez com Bruno Henrique, deu tamanho gás ao Flamengo que o segundo tempo começou impiedoso, com dois gols em menos de dez minutos, o segundo com menos de um minuto, ambos do Gabigol.

Daí em diante, só festa, com o 4 a 0 por Pablo Mari, com o 5 a 0 de Rodrigo Caio, dava até pena do Grêmio.
Uma goleada era tudo que não se esperava, mas o Flamengo tem essa qualidade rara por aqui, e tão comum na Inglaterra do Liverpool e do Manchester City, a de não se contentar com a vitória magra.

O clube da Gávea, além de não poupar ninguém, arriscou ao botar De Arrascaeta e Rafinha no jogo, porque é assim mesmo, jogo grande é para ir com tudo.

Caberá ao Flamengo vencer não apenas o entrosado time do River Plate, que bem poderia ser chamado Fênix Plate, alusão ao pássaro mitológico que renasce das cinzas, duas vezes campeão continental depois de 2012, quando disputou a segunda divisão argentina.

Haverá de superar ainda o coração platino, como se viu no mau espetáculo da Bombonera, quando o time do também mitológico Marcelo Gallardo abandonou seu estilo de ficar com a bola, triangular, se movimentar com intensidade, para jogar recuado e até recorrer à velha milonga, à catimba que parecia enterrada.

Apenas por sorte a decisão da vaga não acabou na marca do pênalti, porque mesmo abusando das ligações diretas e da bola aérea, o Boca Juniors fez por merecer o 2 a 0 que empataria tudo.

Não fosse o milagre de Armani, ao evitar gol contra de Pérez ao fim do primeiro tempo, a grossura de Ábila e a impotência de Carlitos Tevez, talvez os Milionários não pudessem lutar pelo pentacampeonato continental.

A final está marcada para 23 de novembro, um sábado, em Santiago, se o Chile neoliberal sobreviver até lá.

Campo neutro como aconteceu na única vez em que o Flamengo ganhou a taça, em 1981, contra o Cobreloa chileno, em Montevidéu, mas como terceiro jogo, o do desempate.

A final deste ano, em inédito jogo único, será muito mais nobre, contra outro gigante mundial.

Será também 15ª decisão entre brasileiros e argentinos, com vantagem deles por 9 a 5, embora nas últimas duas finais, em 2012 e 2017, os vencedores tenham sido o Corinthians, contra o Boca Juniors, e o Grêmio contra o Lanús.

O Mister Jesus terá pela frente o mito Muñeco, Boneco, Gallardo, que está para o River assim como Telê Santana para o São Paulo ou Tite para o Corinthians ou Renato Portaluppi para o Grêmio.

Vencê-lo igualará Jorge Jesus a todos eles.

Porque o River vai “jugar a morir”.

Que o Flamengo jogue para ressuscitar o alegre futebol brasileiro.

*Jornalista esportivo. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno de Esporte, de 24/10/2019.
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