As nossas antigas praças, que tanto deleitaram os nossos avós como locais de passeios e diversões, hoje estão fadadas a este tipo clássico de uso, não por descuido das autoridades, pois a maior parte delas está bem conservada, mas pela má aplicação dos seus atuais habitantes, ainda não acostumados à vida urbana, que as transformaram em locais perigosos habitados por moradores do relento, transformadas em centrais rodoviárias, despovoadas de policiais e às vezes transformadas em reduto de camelôs, além dos seus arredores estarem despovoados de habitantes, que se mudaram para bairros mais distantes do Centro Histórico. Os antigos tempos do fervilhar das praças nos fins das tardes, das quermesses noturnas, das retretas, dos comícios, não mais voltarão.

Acho que todas as praças centrais da cidade deveriam ser transformadas em parques fechados a noite, e destinados apenas à elevação de monumentos, hermas e obras de escultura, apesar de vivermos em uma cidade iconoclasta, pior do que Jerusalém. No mais, é malhar em ferro frio, na linguagem dos ferreiros, pois não temos mais habitantes, para apreciá-las, todos recolhidos pelo medo em suas casas, em volta de uma televisão, a lhes ditar uma nova cultura, nem tão pouco para amá-las, até que as novas gerações aqui nascidas voltem a amar Manaus.

As praças brasileiras, que talvez remontem às ágoras gregas, a parte pública de uma cidade helênica, contendo mercados, feiras e espaços públicos, foi o local onde as pessoas reuniam-se para discutir e deliberar sobre os assuntos citadinos e se abastecer. Em Roma transformaram-se nos fóruns, entre os quais o de Trajano é o mais representativo, com a parte comercial sobrepujando a política. E, finalmente a nossa herança árabe trouxe-nos três tipos de centros citadinos: o do Palácio, o da Mesquita e o do Mercado, organizado por corporações de ofícios artesanais e agrícolas, alimentos, roupas, sapatarias e metalurgia.

Essas as origens de nossas antigas praças abandonadas pelos seus habitantes, que devido ao medo, as substituíram por outro tipo de local de encontro, que tivemos dificuldade de localizar, embora ele seja do conhecimento de todos, fazendo essa ligação entre o passado e o presente, embora não se tenha atentado a isto.Hoje grande parte das compras da nossa cidade são feitas em ruas largas, com ar condicionado, belas lojas confortáveis, com os artigos da última moda, protegidas e com estacionamento próprio – os gigantescos shoppings, que se espalharam por todos os bairros.

Bem no centro deles estão as nossas antigas praças, com muita comida, diversão, locais para conversa e segurança, as chamadas praças de alimentação.

E assim as antigas praças, por mais que esforcem as autoridades, jamais voltarão ao seu brilho de outrora.

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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