Amazonense que se distinguiu por qualidades dignas de louvor. Foi notável sua coragem durante toda a vida. Primeira mulher negra a ingressar em uma Escola de Enfermagem e, ao fazê-lo nos idos de 1940, deu curso à ampliação do debate em torno da imagem social da enfermeira e ao redimensionamento de sua identidade profissional no Brasil. Nos anos 1970, concedeu-me a honra de trabalhar com ela.

Josephina de Mello era natural de Manaus, filha de Juvêncio Paulo de Mello, brasileiro, servidor da empresa inglesa Manaus Harbour, e de Florence Albertha de Mello, barbadiana, enfermeira obstetra. Foi uma excepcional representante da negritude e do feminismo brasileiros que, a partir da paixão pelo estudo, encontrou forças para vencer as dificuldades do preconceito e da discriminação racial. Estudou no Colégio Estadual do Amazonas e formou-se em magistério pelo Instituto de Educação, em 1942. Foi Samaritana Socorrista pela Cruz Vermelha Brasileira de Manaus, em 1943.

Seu propósito era ser enfermeira, porém, escolas do ramo à época só existiam no centro-do sul do País e eram em pequeno número. A elitização da Enfermagem restringia o contingente profissional: o campo não propiciava o ingresso de homens, mulheres pobres e negras; direcionava-se somente a mulheres brancas, bem posicionadas social e economicamente. Tal paradigma – símbolo de um País desprovido de serviços sanitários básicos, sem política pública eficaz no que se referia à assistência à saúde e com poucos profissionais qualificados – só seria substituído a partir da criação do SESP, em 1942, em paralelo com à da Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina da USP. Dalí em diante, a percepção da diferença racial no âmbito da Enfermagem assumiria outros contornos.

Como bolsista do SESP, Josephina de Mello ingressou nessa escola em 1944. Durante sua formação profissional morou no Hospital das Clínicas; assistiu a aulas ministradas por ilustres professores da Faculdade de Medicina; e participou do I Congresso Nacional de Enfermagem, na capital paulista, em março de 1947. Enfermagem de Saúde Pública, Enfermagem Clínica, Estudos Sobre Tuberculose e Microbiologia destacaram-se em seu histórico escolar. Josephina de Mello tinha uma natural propensão ao trabalho prático.

Concluído o Curso no final de 1947, foi contratada pelo SESP para exercer o cargo de Enfermeira de Saúde Pública nas unidades sanitárias dos então territórios federais de Rondônia e Acre, durante um ano. Entre 1948 e 1950, dirigiu cursos de Visitadora Sanitária e Auxiliar Hospitalar em Santarém/PA e em vários municípios de Pernambuco, Espírito Santo e Minas Gerais. Recebeu bolsa adicional do SESP para estudar na Universidade norte-americana de Minnesota, curso que concluiu em 1951. De volta à Amazônia, no ano seguinte exerceu em Santarém as funções de Enfermeira Distrital e Enfermeira Assistente da Seção de Enfermagem do Programa da Amazônia, voltado para treinamento de auxiliares de enfermagem para o trabalho junto às populações locais. No período de 1952 a 1954, exerceu em Belém a função de Enfermeira Chefe da Seção de Enfermagem do referido Programa. Em 1955 foi nomeada professora da Escola de Enfermagem de Manaus e, em 1958, vice-diretora da mesma Escola acumulando com atividades docentes. Posteriormente, seria elevada à diretora (1985/1989 e 1993/1994).

Segundo o historiador paulista Paulo Fernando de Souza Campos, “A história de vida da enfermeira Josephina de Mello não se encerra em sua atuação no campo da Saúde Pública […], sua trajetória a conduz inexoravelmente para a vida acadêmica e associativa. [Uma] das enfermeiras que venceram a renhida batalha do preconceito para dedicar-se ao desenvolvimento da Enfermagem brasileira. Com uma vida marcada pela profissionalização e profissionalismo, deve ser considerada uma mulher ímpar, uma das ilustres enfermeiras negras do Brasil.” (Cf. Cadernos de História da Ciência, vol. 8, São Paulo, 2012).

As atividades didáticas fizeram parte essencial da sua vida profissional. Seu memorial evoca diversas atuações no campo de sua especialidade e fora dela, como organização de cursos e simpósios, ministrando aulas e proferindo discursos e conferências. Publicou artigos em revistas científicas, nacionais e estrangeiras. Membro efetivo e/ou honorífico de várias instituições, estimulou o movimento associativo; orientou a fundação da Associação dos Auxiliares de Enfermagem e de Outros Profissionais de Nível Médio, da Associação dos Hospitais do Estado do Amazonas e da Secção Amazonense da ABEn; e sempre prestigiou os Conselhos Regional e Nacional da categoria (COREn).

Josephina de Mello era também Bacharel em Administração pela UFAM e Doutora em Enfermagem pela UFRJ. Agraciada no Amazonas e em outras partes do País com menções honrosas, prêmios e medalhas, sendo a maior delas a Medalha Mérito Oswaldo Cruz, conferida pelo presidente da República Ernesto Geisel, por relevantes serviços prestados à nação brasileira no campo da Saúde Pública. Após sua morte, foram construídas em Manaus, para perpetuar-lhe a memória: pela Missão Evangélica Sul América do Brasil, a Escola de Tempo Integral Professora Josephina de Mello; pelo Governo do Estado, a Escola de Ensino Fundamental e Médio Josephina de Mello; e pela Prefeitura de Manaus, a Unidade Básica de Saúde Ampliada Enfermeira Josephina de Mello. Por igual, a criação pelo COREn estadual, do Prêmio Doutora Josephina de Mello, para destacar o sentido humanitário da Enfermagem.

Nossa heroína pouco tempo tinha para si mesma, posto que estava sempre ocupada em inúmeras tarefas. Sua fala mansa e sua elevada cultura agradavam à imensa legião de amigos, tanto em nível local, quanto nacional e internacional. Leitora assídua e bem informada, apurava o ouvido à boa música e, sempre que podia, deleitava-se em ouvir os musicais clássicos, os intérpretes norte-americanos Louís Armstrong e B. B. King e, dentre os brasileiros, privilegiava Carolina de Jesus de quem foi íntima.

No início de 1970 conquistou o cargo honorífico de Provedora da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, uma missão pioneira anteriormente da alçada exclusiva dos homens – e seu mandato durou cerca de 20 anos. Ao assumir encontrou um quadro de absoluta desordem administrativa e financeira, mas não desanimou: pôs mãos à obra. Após um acerto feliz na escolha de seus auxiliares, Josephina de Mello aliou tino administrativo às suas redes de influência, contatos com políticos e gestores de órgãos públicos e privados, do que resultou colocar em pouco tempo o hospital da Santa Casa entre os mais modernos e eficientes da Amazônia.

Conheci Josephina de Mello em meados de 1965. Havia pouco eu chegara de Itacoatiara, carregado de sonhos. Para dar continuidade aos meus estudos ingressei no Instituto de Educação do Amazonas. O ordenado de Auxiliar de Escritório na firma J. G. Araújo & Cia. mal dava para meu sustento. À busca de uma melhor colocação, inscrevi-me no concurso para Escriturário do SESP (então já intitulado Fundação SESP), com salário três vezes superior. Sob a presidência de nossa heroína, o certame realizou-se na Escola de Enfermagem resultando na aprovação de 5 candidatos, inclusive eu.

Admitido na Diretoria de Engenharia Sanitária da Fundação SESP, assumi em outubro daquele ano. Durante os 5 anos em que lá estive, conviví com pessoas dotadas de elevado espírito público e notável formação ético-profissional. A “família sespiana” herdara dos americanos que criaram a instituição, os exemplos de amor e dedicação ao trabalho, de organização e companheirismo. Josephina de Mello estava sempre passando por lá… e me observava. Talvez tenha visto em mim algumas ‘qualidades’. Tanto que, em meados de 1970, convidou-me para integrar o grupo de assessores da Santa Casa de Manaus.

Hospital filantrópico, à época com 174 leitos, suas rendas provinham de mensalidades de associados – eram cerca de 600 e grande parte deles estava sempre inadimplente -, da venda de serviços a particulares e de convênios celebrados com o INSS e o IPASEA. Presidia o Conselho Deliberativo o desembargador João Rebelo Correa. O Corpo Técnico, da absoluta confiança de Josephina de Mello, constituía-se do Diretor Clínico João Lúcio Machado; da Diretora de Enfermagem Aracy Régis de Menezes; e do Chefe de Laboratório Manoel Bastos Lyra. Contratado como Assessor Administrativo, passei a trabalhar exclusivamente sob o comando da Provedora. A Sala da Provedoria continha apenas duas mesas de trabalho: a dela e a minha.

Foram 6 anos (1970/1976) de convivência respeitosa e colaboração mútua: a Provedora cumulando-me de atenção, valorizando-me como pessoa e profissional. E eu, sempre atento às minhas obrigações, procurando honrar sua confiança e guardar-lhe fidelidade. Ela interviu pessoalmente junto à ABEn em favor da indicação de meu nome para Secretário da Comissão Executiva do XXIII Congresso Brasileiro de Enfermagem, realizado em Manaus entre 11 e 17 de julho de 1971. Paraninfou-me quando colei grau em Direito pela UFAM, em 1972. Dois anos depois, foi madrinha de batismo do meu filho mais velho, atualmente com 45 anos, bacharel em Direito e alto servidor da SSP-AM. Destacou-me para ir a São Paulo, duas vezes, a fim de participar no Hospital São Camilo de um curso intensivo sobre administração hospitalar (2 meses em 1972) e de um estágio no SAME do mesmo Hospital (um mês em 1973) e a Recife/PE, em 1975, para representá-la em um Congresso da Associação das Misericórdias do Brasil. Designou-me em 1974 para secretariar os trabalhos de fundação da Associação dos Hospitais do Estado do Amazonas e elaborar os respectivos Estatutos: entidade onde exerci o cargo de Secretário Executivo, de 1974 a 1976. Concedeu-me autorização para, em conjunto com o senhor Heider Loureiro Pinagé, Administrador do Hospital Getúlio Vargas, trazermos a Manaus para proferir um Curso de SAME e Lavanderia Hospitalar, no período de 3 a 10 de junho de 1973, o professor padre Augusto Mezzono, membro do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Hospitalar de São Paulo – evento que alcançou grande sucesso.

Mulher generosa, elegante e cortês, que tratava a todos e a cada um em condições de absoluta igualdade. Além das circunstâncias favoráveis, acima referidas, fez-me incluir entre os palestrantes da Escola de Enfermagem de Manaus, onde, no período de 1973 a 1975, pude interagir com o alunado do tradicional estabelecimento de nível superior. Àquela altura, já formado em Direito e à maneira de um “professor visitante”, ali estive ministrando, semana sim semana não, lições elementares de Direitos Humanos, Administrativo e Constitucional. Foi uma experiência ímpar que, além da alegria e da elevação da minha autoestima, proporcionou-me maior aprendizado e melhor direcionamento na arte de explanar perante um grupo de alunos ou em auditório.

Mulher independente e corajosa que se impunha em qualquer situação e enfrentava quaisquer obstáculos, Josephina de Mello foi uma Administradora nata que exercia sua autoridade sem autoritarismo; que gostava de delegar tarefas. Quando chegava à Santa Casa, diariamente – à exceção de imperiosas ausências de Manaus – geralmente pelas 11:00 horas, retirando-se às vezes ao anoitecer, antes de ir ao gabinete volteava pelos setores fazendo uma espécie de supervisão. Aqui e ali, visitava de surpresa as enfermarias, a Farmácia, a Cozinha… Sempre atenta, seu desejo era conhecer os problemas, estar a par das coisas.

Os acontecimentos mais cruciais que marcaram a trajetória da Doutora Josephina à frente da Santa Casa de Manaus – além de testarem sua capacidade administrativa e seu desprendimento – foram inúmeros, porém, impossível de serem aqui todos revelados, face à pequenez do espaço. Permito-me, todavia, sintetizar um deles. Ano de 1975: com a criação da UTI, os atendimentos pela Santa Casa se, de um lado, ampliaram as condições de melhor tratamento aos usuários de seus serviços, de outro, resultaram em mais responsabilidades para seus servidores e na ampliação das despesas hospitalares. A Santa Casa ganhou maior visibilidade e mais prestígio e, não obstante tais pontos positivos, também daí advieram aborrecimentos. Há o caso exemplar de um militar do Exército, vítima de grave acidente na área de fronteiras. A pedido de um oficial de alta patente das Forças Armadas foi internado na UTI da Santa Casa. Face à urgência do caso, não foram cumpridos os procedimentos de internação (lavratura de GHI e depósito de garantia), mas o referido oficial comprometeu-se pessoalmente em fazê-lo. A Provedora Josephina aquiesceu, porém, exigiu breve solução ao caso. Trinta dias decorreram e a pendência continuava: nem o depósito nem um expediente justificativo. Enviamos-lhe um Ofício, e depois outro, instando àquela autoridade a sanar o compromisso, e nada de resposta. O paciente veio a óbito, e o débito resultante de sua internação na UTI elevava-se a milhares de cruzeiros. Ao desconsiderar tais despesas e descumprir o que acordara antes, o militar atentava contra a própria sobrevivência do hospital. Solicitado a comparecer à Provedoria, o inusitado aconteceu. Antes, Josephina de Mello pediu-me que permanecesse na sala para testemunhar o que ali ocorreria. Sem levantar a voz, ela tentou convencer o militar a honrar amigavelmente o compromisso e em seguida censurou-o pelo descaso que comprometia as condições financeiras do hospital. Disse-lhe que esconder-se, omitir-se, desonrar a palavra empenhada eram atitudes não compatíveis com um representante da Força a qual ele pertencia. O militar encrespou-se e, dizendo-se ofendido, engrossou a voz e demonstrou não estar interessado em solucionar a pendência. Josephina de Mello levantou-se, de súbito, dirigiu-se à porta, abriu-a, e o convidou a retirar-se. Eu ali, pasmo e temeroso de que o militar agredisse nossa heroína. Felizmente, ele afastou-se dali, resmungando sem despedir-se. Dias depois Josephina pediu-me a redação de um relatório que o remeteu ao Ministro da respectiva pasta, em Brasília, o que resultou na final solução do problema. O gesto, aparentemente surreal, da Provedora ao enfrentar o faltoso oficial, na verdade foi um ato de coragem, de pura determinação. Todo o tempo e em quaisquer circunstâncias ela estava sempre a postos, pronta para defender a instituição e mantê-la viva, atuante. Um exemplo que deveria ser copiado e seguido pelas gerações atuais.

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