“[…] estava estabelecida crise política profunda, ainda maior porque os partidários de Fileto […]ohaviam abandonado em razão de decisões que tomara em relação a contratos de obras, serviços e grandes investimentos do poder público”

A famigerada carta renúncia do governador Fileto Pires Ferreira, enviada de Paris para Manaus, por ele jamais reconhecida como autêntica, foi apresentada, lida e aceita pelo então Congresso Amazonense, na presença de 13 dos 20 deputados estaduais que compunham a casa legislativa, na manhã de 11 de agosto de 1898.

Parecia dia de festa. As galerias estavam repletas de populares. Havia convidados de honra em lugares de destaque. Invertida a Ordem do Dia, a pedido de monsenhor Coutinho, foi iniciada a eleição das comissões técnicas logo em seguida suspensa em razão de proposta do deputado Nemesio Quadros, passando-se à leitura doexpediente. Era chegada a hora fatídica da consumação da “renunciação” do governador, datada de Paris, 27 de junho de 1898.

Ressoou no recinto a voz do secretário para a leitura da carta de Fileto na qual, depois das saudações de praxe em documentos de ordem pessoal, e sem causar espanto a ninguém, anunciou em forma de sentença de morte: “… venho trazer vos hoje a renúncia do cargo que exerço nesse Estado do qual sois dignos representantes, por não me ser possível por motivos de ordem superior continuar a exercê-lo. Vós, mais do que ninguém sabeis que aceitei essa delegação do povo depois de reiterados pedidos de todos os nossos amigos; delegação, repito, que por mim jamais foi ambicionada e que hoje não o é”. O mais do teorfoide agradecimentos e conclamação cívica positivista.

O que se conhece pelo noticiário de jornal e manifestação do próprio Fileto, de seus amigos e opositores é que estava estabelecida crise política profunda, ainda maior porque os partidários de Fileto, em sua maioria, ou pelo menos os mais expressivos, o haviam abandonado em razão de decisões que tomara em relação a contratos de obras, serviços e grandes investimentos do poder público.

Para que não pairasse dúvida, ou não houvesse tempo para mudança de planos, todas as comissões técnicas da Casa imediatamente reconheceram que a renúncia era ato unilateral de vontade e, conforme a praxe seguida no Senado Federal, não exigia deliberação do plenário, ao qual caberia, apenas, tomar conhecimento e adotar as providências de assunção do sucessor legal. De imediato opresidente do Congresso suspendeu a sessão. O prefeito municipal de Manaus, Justiniano de

Serpa, foi demitido. Os jornais emitiram boletins extraordinários dando conta dos fatos ao povo.

Um manifesto foi distribuído convidando a população para uma passeata, as 18h., a partir da Praça Constituição (Praça da Polícia) devendo circular por várias ruas da cidade. Como previsto, da praça o povo seguiu para o Palácio do Governo (atual Museu da Cidade), de cujas janelas falaram o governador Ramalho Júnior, o poeta Quintino Cunha e o dr. Alfredo Ferreira. De lá foram a Praça General Osório quando novos oradores foram ouvidos (Clarindo Chaves e Arthur Catingueira); diante da casa de Eduardo Ribeiro, na rua de José Clemente, falaram Eduardo Ribeiro como presidente do Congresso, e Alfredo Ferreira; na casa do novo chefe de Polícia, Abel Garcia, falaram Alfredo Ferreira, Miguel Ribas e o próprio Abel.

Como era comum a passeata seguiu em direção à sede dos jornais. Em “A Federação o agradecimento foi de Thaumaturgo Vaz; no “Commercio do Amazonas” falaram Marçal Ferreira, Alberto Moreira e Alfredo Ferreira; no Amazonas Comercial usaram da palavra Leônidas e Sá, Marçal Ferreira e Cunha Junior; no “Amazonas”, os oradores foram Miguel Ribas, major José Augusto da Silva Júnior, Marçal Ferreira e Joaquim da Costa Teixeira. Cada discurso uma apologia ao novo governo.

Distante no tempo e dos fatos, sem a paixão que costuma dominar o cenário político, é possível concluir que a leitura da carta se transformou em uma grande festa para os opositores daquele que foi o mais jovem governador do Amazonas.

Não bastou dar-lhe o mandato, indevidamente, nem lhe tomar o mandato, indevidamente, era preciso, no dia renúncia, tripudiar sobre o derrotado.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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